Mobilização em meio à pandemia
Enquanto a ilusão do “fica em casa” é difundida pela burguesia com o apoio inclusive da esquerda, os trabalhadores continuam sendo colocados na linha de frente do vírus.
SÃO PAULO,SP,26.10.2018:DISTRIBUIÇÃO-JAQUETAS-CAIXAS-TÉRMICAS-IFOOD - Motoboys enfrentam fila para receber novas jaquetas e caixas térmicas que estão sendo distribuídas pelo aplicativo Ifood, na sede da empresa na região da Rebouças, em São Paulo (SP), nesta sexta-feira (26). (Foto: Renato S. Cerqueira/Futura Press/Folhapress)
Entregadores de aplicativo. Imagem: reprodução |

No último dia 17, trabalhadores de entrega por aplicativo se reuniram na Avenida Paulista contra a remuneração precária oferecida pelas empresas, que agora não oferecem mais bônus para o aumento do valor do frete recebido justo no momento de crise do coronavírus. Além de se queixarem do descaso dos capitalistas em não distribuírem equipamentos de proteção, tornando seu trabalho ainda mais precarizado. Os patrões das empresas de entrega, por sua vez, demonstram o típico descaso da burguesia com a classe trabalhadora e insinuam que os trabalhadores estariam mentindo, que não houve alterações na politica de remuneração aos entregadores e que estariam sendo distribuídos os equipamentos de proteção para o coronavírus.

Os capitalistas chegam ao cinismo de declarar que os trabalhadores que se sujeitam a trabalhar para os aplicativos seriam independentes para atuar de acordo com sua conveniência:

Esclarecemos ainda que, em nosso modelo de atuação, os entregadores são parceiros independentes, atuam de acordo com a sua conveniência e gerenciam seu próprio tempo, podendo, inclusive, atuar por outras plataformas.

Um total escárnio com os trabalhadores que, para receberem R$ 7 reais, precisam percorrer 10 km, ou seja, para ganharem um salário mínimo por mês precisariam percorrer mais de 1.430 km (aproximadamente a distância da cidade do Rio de Janeiro a Salvador). O que mostra que a mentira vêm não dos trabalhadores, mas dos patrões, visto que nestas condições não existe “independência” e “conveniência”, já que precisam trabalhar por mais de oito horas diárias, além de ser impossível gerenciarem seu próprio tempo.

Com o advento do coronavírus não é nenhuma surpresa que esta, assim como tantas outras categorias estejam sendo desrespeitadas ainda mais, afinal a corda tende a arrebentar para o lado mais fraco. Enquanto a ilusão do “fica em casa” é difundida pela burguesia com o apoio inclusive da esquerda, os trabalhadores continuam sendo colocados na linha de frente do vírus. Ao mesmo tempo em que a burguesia e a pequeno- burguesia se vangloriam de estarem fazendo o bem por ficar em casa e demonizam quem não o pode fazer, os operários continuam indo para as fábricas em transportes lotados, sem nenhuma proteção contra o coronavírus, para produzir o álcool em gel que abastece as casas dos burgueses, ou trabalhando nas cozinhas dos restaurantes preparando o jantar dos que permanecem protegidos em suas casas, ou entregando os pedidos feitos pelos aplicativos de comida etc.

O protesto protagonizado pelos entregadores de aplicativo na Av. Paulista em plena quarentena demonstra não apenas a falácia da política simplista do fica em casa, que vem desacompanhada de medidas realmente efetivas de enfrentamento ao vírus e proteção à classe trabalhadora, como também escancara a inércia da esquerda, que não tem feito mais que aplaudir o governador fascista de São Paulo e defender o ex ministro da saúde nazista do governo Bolsonaro enquanto larga os trabalhadores à própria sorte, ou pior, aos cuidados da direita e dos capitalistas. A mesma esquerda que cancelou manifestações contra o governo Bolsonaro por medo do coronavírus não demonstra a mesma preocupação com os milhões de trabalhadores que são obrigados pelos capitalistas e pelo abandono do governo a se arriscarem diariamente porque não tem a opção de ficar em casa, caso contrario se não do vírus, morrerão de fome.

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