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Torcedores versus capitalistas
Torcedores têm interesses conflitantes com empresários do futebol
O domínio crescente dos grandes empresários sobre o futebol resulta no ataque contra os interesses dos torcedores
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Torcedores versus capitalistas
Torcedores têm interesses conflitantes com empresários do futebol
O domínio crescente dos grandes empresários sobre o futebol resulta no ataque contra os interesses dos torcedores
Torcida do Figueirense, exemplo recente de luta contra a “empresarização”. Foto: Matheus Dias / FFC
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Torcida do Figueirense, exemplo recente de luta contra a “empresarização”. Foto: Matheus Dias / FFC

Em estudo recente, publicado na Revista Economia, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), dois pesquisadores, Marcelo Griebeler e Diego Baldusco, buscaram explicar teoricamente o problema da divergência e dos conflitos entre torcedores e dirigentes no futebol brasileiro. Os autores do artigo, dois economistas burgueses neoliberais, entendem a relação entre torcedores e dirigentes como uma relação de agente-principal: “O principal, a torcida, delega para o agente, o dirigente, a tarefa da produção de vitórias e resultados positivos. Contudo, nem sempre o dirigente do clube deseja maximizar o número de vitórias. Entre seus objetivos podem estar manter o orçamento do clube equilibrado ou obter mais sócios, por exemplo.”

Sem entrar no mérito do estudo para analisar suas premissas teóricas e suas implicações práticas, o que queríamos destacar como verdadeiro é o pressuposto do qual partem os autores, vale dizer, que torcedores e dirigentes possuem interesses conflitantes.

É bastante evidente que a estrutura dos clubes no Brasil (aliás, não só no Brasil, mas no mundo inteiro) reflete, de maneira mais ou menos perfeita, as relações de classe presentes na sociedade. As diretorias, os conselhos deliberativos, os órgãos de comando dos clubes estão quase sempre nas mãos de membros provenientes da burguesia ou da pequena-burguesia mais abastada. Por outro lado, as torcidas, em especial seus setores organizados, recrutam seus membros, sobretudo, das camadas pobres, operárias e negras da população.

O caráter social antagônico de dirigentes e torcedores está na raiz dos seus interesses conflitantes. A burguesia e seu apêndice pequeno-burguês e as camadas operárias e populares mantêm uma relação completamente com o futebol. Nem é preciso dizer que o bloco burguês se interessa pelo futebol enquanto um negócio, uma fonte de lucro, um ramo da economia que movimenta mais de R$ 100 bilhões por ano. A burguesia, antes de qualquer outra coisa, vê o futebol sob a óptica dos milionários contratos de patrocínio, das volumosas verbas dos contratos de transmissão televisiva, das fabulosas quantias do mercado de transação de jogadores, das gordas receitas dos clubes etc. Para as massas populares, em contrapartida, o futebol não é senão uma das principais expressões de seu próprio ser, uma forma importante de manifestação da sua cultura, uma maneira consagrada de autoafirmação. Fundamentalmente, são as massas populares que praticam o futebol, são elas que abastecem o futebol com os seus melhores jogadores, são elas que desenvolveram a técnica, o estilo e os dribles inovadores do jogo, são elas que criaram os cânticos, as festas nas arquibancadas e as formas de torcer que se espalharam pelo mundo, são elas, em suma, que transformaram o futebol num esporte popular e representativo da cultura nacional.

Esse antagonismo de interesses inevitavelmente se acentuará caso avance o projeto direitista do chamado “clube-empresa”. A transformação dos clubes de associações sem fins lucrativos em sociedades anônimas ou limitadas resultará num controle ainda maior dos seus órgãos de direção pelos setores burgueses, ou melhor, pelos grandes setores burgueses, tanto nacionais como, especialmente, internacionais. As consequências desse processo já podem ser vistas no continente europeu, onde o domínio dos grandes monopólios capitalistas sobre os clubes adquiriu uma dimensão sem precedentes. Por lá, o futebol, agora, encontra-se totalmente elitizado, as massas operárias e populares foram expulsas dos estádios em razão do encarecimento extraordinário dos ingressos, as torcidas organizadas foram reprimidas ou extintas e, acompanhando tudo isso, os estádios perderam seu caráter original e foram convertidos nas conhecidas “arenas”, uma mistura de shopping center com quadra de tênis, na qual são proibidas as festas e as manifestações tradicionais dos torcedores.

Para conseguirem dominar totalmente os clubes, os capitalistas sabem que é preciso acabar com qualquer vestígio de democracia, de participação popular, expressa na organização das torcidas dos clubes. As torcidas organizadas, como organizações do povo pobre e trabalhador, constituem um obstáculo real para os planos da burguesia, na medida em que se opõem às tendências nefastas da “empresarização”. Nesse sentido, contra o “clube-empresa”, é preciso defender o controle dos clubes, das federações e das confederações pelos torcedores em geral e pelas torcidas organizadas em particular. Um programa verdadeiramente democrático para os clubes e associações esportivas passa pelo seu controle pelas massas populares organizadas. Essa é a saída para que, de fato, os clubes estejam nas mãos daqueles que são os verdadeiros interessados no futebol — os torcedores, o povo brasileiro. Abaixo o clube-empresa! Pelo controle dos clubes e demais entidades esportivas pelos próprios torcedores!