Amor antigo
Senador cearense envia carta à CVM para garantir interesses do capital internacional. Já seu velho amigo, Ciro Gomes, rasga elogios a Ernesto Geisel.
CIRO4 - BSB  DF  - CIRO GOMES/SENADO  - NACIONAL – O  deputado Ciro Gomes  (d),conversa com o senador Tasso Jereissati (e) , durante sessão do Congresso Nacional para promulgação de duas emendas à Constituição federal , no plenário do Senado Federal. 04/02/2010. FOTO: DIDA SAMPAIO/AE
Tasso e Ciro no Congresso em 2010. | Foto: DIDA SAMPAIO/AE
CIRO4 - BSB  DF  - CIRO GOMES/SENADO  - NACIONAL – O  deputado Ciro Gomes  (d),conversa com o senador Tasso Jereissati (e) , durante sessão do Congresso Nacional para promulgação de duas emendas à Constituição federal , no plenário do Senado Federal. 04/02/2010. FOTO: DIDA SAMPAIO/AE
Tasso e Ciro no Congresso em 2010. | Foto: DIDA SAMPAIO/AE

Tasso Jereissati (PSDB), senador pelo Ceará e antigo funcionário da burguesia, enviou uma carta à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e conselheiros da Petrobras, alertando a todos que a mudança na presidência da empresa, anunciada pelo fascista Jair Bolsonaro, fere a chamada lei das estatais. Mas a lei é somente uma desculpa. O que é óbvio, pelo que se sabe dos “bons serviços” de Tasso à burguesia, é que a carta é apenas uma maneira da burguesia mostrar seu desapreço pela colocação de um general na presidência da Pretrobras.

O presidente atual da Petrobras, Roberto Castello Branco, um homem do mercado financeiro, vem sendo abertamente criticado pelo presidente golpista pelo fato de ter aumentado o preço dos combustíveis. Bolsonaro, que sabe no problema que se mete, tem a clara noção de que, neste momento, um aumento grosseiro no preço da gasolina pode reduzir drasticamente sua popularidade, já debilitada. Em algumas cidades, como Petrolina (PE), o litro da gasolina já chegou a R$5,79 e tende a aumentar. Por isso, Bolsonaro foi rápido em anunciar que colocaria o general da reserva Joaquim Silva e Luna.

O general, antes mesmo de assumir, deu declarações de que deve-se atender aos acionistas, mas também ao povo brasileiro. O mercado financeiro, nervoso a ponto de quase “botar um ovo” após as declarações de Silva e Luna, já colocou toda sua tropa de choque em ação para impedir Bolsonaro.

Não que Luna e Silva realmente esteja interessado em ajudar o povo ou coisa do tipo. Seria de uma ingenuidade constrangedora achar isto. Entretanto, tanto ele quanto Bolsonaro e o “clube da terceira idade”, formado pelos generais que hoje mandam no País, sabem que o aumento dos combustíveis pode elevar, ainda mais a já galopante inflação que o governo tenta controlar. Com um cenário de total desemprego e avanço implacável da pandemia, tem-se um barril de pólvora prestes a explodir.

O governo ilegítimo está entre a cruz e a espada. Se permitir o aumento dos combustíveis, gera inflação e subida no custo de vida, o que deixará o povo (já revoltado) e setores da burguesia nacional enfurecidos. Porém, se impedir o aumento, criará uma crise gigantesca com o capital internacional, que vive de parasitar a Petrobras.

Lei das estatais

Neste ponto surge a carta de Tasso. Nela, é citada a lei das estatais, da qual Tasso foi relator, em 2016, que nada mais é que mais uma maneira da burguesia, através dos seus serviçais na Câmara e no Senado, de controlar as estatais, garantindo que suas diretorias atenderão bovinamente os desejos do mercado financeiro. Como visto, a burguesia sabe jogar seu jogo político e cria através de leis, muitas vezes vistas como secundárias, ferramentas para manter seu controle sobre o Estado.

Justificou Tasso, sobre o papel da lei das estatais, “..evitar a subordinação dos interesses da empresa àqueles do dirigente político que, pelo período de um mandato, acumule, a um turno, a responsabilidade executiva da ação governamental e, a outro, exerça o controle sobre essas pessoas jurídicas de direito privado, que atuam no mercado em regime de competição”.

Em outras palavras, o que Tasso quis dizer foi que a lei das estatais serve para separar a estatal do estado, deixando-a a mercê do mercado financeiro. Toda ladainha de “separar governo e estado” sempre é utilizada para justificar a entrega dos bens públicos a interesses privados, salvas raras exceções.

Se observada a lei, nela pede-se que os indicados à diretoria tenham anos de experiência na área de atuação ou empresas semelhantes à estatal. Isso quer dizer que os governos deverão recorrer ao mercado para colocar nos conselhos das estatais pessoas que atendam aos interesses do mercado. Obviamente, alguns dirão que isso facilitaria a subida de funcionários de carreira da estatal à presidência. Entretanto, essa possibilidade não passa de um delírio febril.

Huck, Amoêdo e Ciro

Mas não foi apenas Tasso o único destacado pela burguesia para se opor à intervenção na Petrobras. Luciano Huck (PIG – Partido da Imprensa Golpista), João Amoêdo (NOVO) e Ciro Gomes (PDT), também se rebelaram. Os dois primeiros, como Potira, choraram as perdas dos lucros dos capitalistas com a queda de quase 20% nas ações da Petrobras.

Já Ciro Gomes conseguiu atingir um novo feito ao elogiar o general ditador Ernesto Geisel. Segundo o “abutre de Paris”, “a Petrobras já foi presidida por um general, Ernesto Geisel. Comportou-se com dignidade e em linha com o interesse nacional”.

Apesar de Ciro Gomes ter dito, algumas vezes, que se só fez parte do partido da ditadura (PDS) porque seu pai fora eleito por este, parece que ele ainda nutre uma lembrança bastante carinhosa pelos militares. Ao que parece, “o primeiro amor a gente nunca esquece”. Isto fica evidente neste elogio escancarado a um dos maiores criminosos da história do País, o ditador Geisel.

O desenvolvimento da situação política vai mostrando a verdadeira face de Ciro ao público. Apesar de apresentar-se como um representante da esquerda, ou de uma fantasiosa “centroesquerda”, Ciro, que troca de partido como troca de roupa, é apenas um elemento de confusão a serviço da burguesia.

O entreguismo

Sua relação com Tasso mostra isso. Ciro foi um aprendiz político de Tasso no Ceará. Em entrevista dada alguns anos atrás, Ciro Gomes, descrevendo a “criação do plano real”, deixou claro que seu candidato favorito para as eleições de 1994 era Tasso Jereissati. Os dois viriam a romper anos depois. Todavia, voltaram a atar vínculo após o golpe de 2016. Em janeiro de 2019, Ciro defendeu que Tasso deveria ser o presidente do Senado.

Engana-se quem acha que Ciro e Tasso estão de lados opostos na questão da Petrobras. É apenas uma questão de diferença no discurso e de quem é o seu principal financiador. No fim das contas, ambos defendem uma Petrobras para os capitalistas e não para o povo. Quando Ciro Gomes fala nos “interesses nacionais”, fala nos interesses de parcela da burguesia nacional e não da população brasileira.

Portanto, não deve-se enganar pelos discursos da direita. Cada um joga de acordo com seus interesses e os que lhes financiam.

Bolsonaro usará a política de preços da Petrobras para evitar a implosão do seu governo, tão logo a situação “melhore”, voltará a aumentar os preços. O PT, em carta, denunciou os sucessivos aumentos do combustível durante o governo ilegítimo de Bolsonaro.

Ciro adota um discurso para grupos financeiros internos. Já Tasso é agente do capitalismo internacional.

No fim das contas, do ponto de vista da classe trabalhadora, estes são todos entreguistas, prontos para usar a Petrobras para um projeto financeiro e político próprio e de seus patrões. É hora de dar um basta no governo dos golpistas e apoiar a tomada da Petrobras pelos seus trabalhadores. Apenas assim, o povo terá controle sobre a mais importante empresa nacional.

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