“Tem gente com fome…”
Solano Trindade alem de poeta, foi um dos maiores incentivadores da cultura negra de sua época e um aguerrido militante comunista
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no telegram
Compartilhar no email
Compartilhar no reddit
Solano Trindade - foto Acervo Família Trindade4
Solano Trindade | Foto: acervo da família Trindade

Carlos Drummond de Andrade o chamou de o maior poeta negro do Brasil. A figura de Solano Trindade se ergue na literatura afro-brasileira como um verdadeiro ícone.

Solano Trindade foi, além de poeta, um ativista político, agitador cultural, ator e teatrólogo. Deixou uma importante obra literária que ficou esquecida do grande público, ignorada pelas grades curriculares das universidades, dos livros especializados e é estudada por poucos.

Ele colocou em seus versos certeiros a luta do povo negro, os problemas sociais, os problemas da terra, temas que continuam tremendamente atuais. Em seu trabalho como agitador cultural funda teatros populares, centros e associações que buscam levar a arte ao povo trabalhador e divulgar os artistas e intelectuais negros.

Infancia no Recife

Francisco Solano Trindade nasceu no bairro de São José em Recife em 24 de julho de 1908. Era filho do sapateiro Manuel Abílio Trindade e da quituteira Emerenciana Maria de Jesus Trindade. Cresceu em um lar católico apesar de seu pai praticar o candomblé, incorporando entidades às escondidas. Sua origem está presente em um de seus poemas: “Minha mãe foi operária cigarreira/da Fábrica Caxias/ Nascida de índio/ E africano/ Meu pai/ Foi sapateiro/ Especialista em Luís XV/ Nasceu de branco e africano/ Sabia falar em nagô”.

Desde cedo tomou consciência da vida árdua dos trabalhadores e das injustiças contra o povo negro. Teve contato com a cultura popular e o folclore levado pelas mãos do pai em seus dias de folga. O carnaval, o maracatu e o frevo fascinaram o menino Francisco. A pedido da mãe, analfabeta, lia novelas, literatura de cordel e poesia romântica, que ambos apreciavam. Estudou até o equivalente ao Segundo Grau, depois estudando por um ano no Liceu de Artes e Ofícios. Abandonou os estudo para se aprofundar na poesia, onde iria se tornar uma das maiores vozes do povo negro.

No final da década de 20 tornou-se protestante, chegando a se tornar diácono da Igreja Presbiteriana, mas acaba desistindo após constatar que a religião não atua na resolução dos problemas dos negros. Por esta época começa a publicar seus primeiros poemas. Em 1934 conhece e se casa com Margarida, com quem teria quatro filhos.

Agitação cultural

Em 1934 foi realizado em Recife o primeiro Congresso Afro-Brasileiro, liderado pelo escritor e sociólogo Gilberto Freyre. Solano foi um dos idealizadores desse Congresso. O segundo Congresso foi realizado em Salvador três anos depois. Em 1936, entusiasmado com os movimentos em prol da consciência negra que surgiam em todas as partes do país fundou a Frente Negra Pernambucana e o Centro de Cultura Afro-Brasileira, juntamente com o poeta Ascenso Ferreira, o pintor Barros e o escritor José Vicente Lima. Esses órgãos tinham o objetivo de divulgar as idéias e trabalhos de intelectuais e artistas negros. O documento de fundação do Centro de Cultura Afro-Brasileira proclama: “não faremos lutas de raças, porém ensinaremos os irmãos negros que não há raça superior, nem inferior, e o que faz distinguir uns dos outros é o desenvolvimento cultural. São anseios legítimos a que ninguém de boa fé poderá recusar cooperação.”

Primeiras publicações

Em 1936 estréia na literatura com a publicação de “Poemas Negros”. Em 1942 muda-se para o Rio de Janeiro onde se integra aos círculos literários, culturais e políticos. Filia-se ao Partido Comunista e forma em Caxias a célula Tiradentes, na qual se reuniam operários e camponeses da Baixada Fluminense. Em 1944 publica o seu livro “Poema d’Uma Vida Simples” que traz o seu poema mais famoso, “Trem Sujo da Leopoldina”, que se tornou extremamente popular entre os trabalhadores e os estudantes, especialmente aqueles que frequentam as leituras que Solano conduz no Centro de Cultura Popular da UNE, uma época em que as mobilizações operárias e estudantis estava em alta.

[…]
Só nas estações,
Quando vai parando,
Lentamente,
Começa a dizer:
Se tem gente com fome,
dá de comer…
se tem gente com fome,
dá de comer…
Mas o freio de ar,
Todo autoritário,
Manda o trem calar:
Psiuuuuu…

Durante a época do Estado Novo de Getúlio Vargas sofreu perseguições por ser do Partido Comunista e também por ser negro. Em uma ocasião foi preso, acusado de guardar armas no teto de sua casa.

Em 1945 funda o Teatro Experimental do Negro (TEN). Durante a estréia no Rio, em maio daquele ano, o TEN sofre violentos ataques dos conservadores. O editorial do jornal O Globo chegou a afirmar que se tratava de “um grupo palmarista tentando criar um problema artificial no país”, referindo-se ao racismo, que segundo o jornal não existiria no Brasil. Em 1950 funda, em Caxias, o Teatro Popular Brasileiro, que contava com um elenco formado por domésticas, operários e estudantes e tinha como projeto “pesquisar na fonte de origem e devolver ao povo em forma de arte”. Nos anos seguintes vários dos espetáculos de dança e canto do TPB foram levados para apresentações na Europa.

Solano foi também ator, participando de vários filmes, entre eles o notável drama “A Hora e a Vez de Augusto Matraga” em 1965, dirigido por Roberto Santos e inspirado na obra “Sagarana” de João Guimarães Rosa.

Seu terceiro livro, “Seis Tempos de Poesia” é lançado em 1958. Em 1960 passa a residir na cidade de Embu, próximo a São Paulo. Lá deflagra uma movimentação que se vai se tornar em uma grande cena cultural atraindo público da capital e estimulando o desenvolvimento da pintura e artesanato locais. Nos anos seguintes Embu viria a ser conhecida como “Embu das Artes”, uma grande atração turística. Em 1961 saiu o quarto livro de Solano, “Cantares ao Meu Povo”.

A partir de 1970 sua saúde começou a apresentar problemas. Durante toda sua vida se dedicou à arte e não se preocupou com bens materiais. Acabou falecendo, pobre, em 19 de fevereiro de 1974 no Rio de Janeiro.

Em 1976 virou tema da escola de samba Vai-Vai, com enredo elaborado por sua filha Raquel. Esta se tornou tambem uma escritora e folclorista e também a curadora da obra de Solano Trindade, mantendo o Centro Cultural Solano Trindade na cidade de Embu das Artes e dando continuidade a projetos de seu pai como o Teatro Popular Solano Trindade.

Compartilhar no facebook
Compartilhe no seu Facebook!
Compartilhar no twitter
Tuite este artigo!
Compartilhar no whatsapp
WhatsApp
Compartilhar no telegram
Telegram
Compartilhar no email
Email
Compartilhar no reddit
Reddit
Compartilhar no facebook
Compartilhe
Compartilhar no twitter
Tuite este artigo!
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no telegram
Compartilhar no email
Compartilhar no reddit
Relacionadas