Frente ampla pode?
As manifestações da frente ampla no Chile, na Bolívia, nos EUA e no Brasil mostram como a burguesia golpista e direitista está tomando conta da esquerda mundial. A mesma esquerda q

Por: Redação do Diário Causa Operária

Henrique Áreas

Henrique Áreas

Militante do PCO desde 2007, é secretário de Agitação e Propaganda e membro do Comitê Central do partido. Formado em Ciências Sociais pela Unicamp, é trabalhador demitido dos Correios e foi diretor da Fentect (Federação Nacional dos Trabalhadores dos Correios). Membro do coletivo cultural do PCO, o GARI (Grupos por uma Arte Revolucionária e Independente), e vocalista da banda Revolução Permanente

Quando o PT foi eleito em 2002 para a presidência da República, a aliança com um grande capitalista, José Alencar, como vice de Lula, marcava claramente que se tratava de um governo não apenas de conciliação de classes mas de um acordo entre setores da burguesia que “permitiram” que Lula assumisse, inclusive tendo em vista a necessidade de conter um movimento de massas potencialmente em ascensão na América Latina.

A esquerda pequeno-burguesa, de um modo geral, foi conivente e apoiou esse acordo, embora devesse ser óbvio que o governo justamente por ser de conciliação, teria uma política de ataques ao povo, ainda que de maneira mais amena do que os 12 anos anteriores.

A reforma da Previdência apresentada pelo governo Lula foi o pretexto para que a esquerda, que apoiou a eleição e a política de conciliação, se transformar em oposição ao governo do PT. A esquerda pequeno-burguesa passou a se referir a Lula e ao PT como governo de traidores.

Esse posição, que nada mais foi do que uma demonstração da política eleitoral desse esquerda, de olho num espaço que poderia ser deixado pelo PT, se desenvolveu até as posições mais abertamente direitistas de hoje. A pretexto de fazer oposição ao governo petista, a esquerda pequeno-burguesa não viu a mudança na situação e foi levada a uma política de apoio ao golpe de Estado.

Toda essa história, bastante resumida aqui, é importante para mostrar a falta de princípios da esquerda, por um lado, e por outro que fundamentalmente não há diferença de conteúdo no que diz respeito à política de conciliação.

Enquanto a esquerda via a oportunidade de ganhar com o governo de Lula, nem mesmo a aliança com um grande capitalista foi capaz de impedir que se apoiasse sua eleição e seu governo. Na medida em que entenderam que poderiam ganhar alguma coisa se distanciando do PT, operaram uma política de oposição.

Agora, vemos a demonstração mais falida dessa completa falta de princípios. A esquerda que ficou por anos criticando a política de conciliação do PT no governo é agora a maior defensora da frente ampla, que é a conciliação de classes escancarada.

De tanto falar mal da política de conciliação de classes do PT, o PSOL acabou se aliando com a direita no golpe de Estado. Agora, são suas principais figuras nacionais os maiores defensores de uma aliança com a burguesia na frente ampla. Os destaques aqui são Guilherme Boulos e Marcelo Freixo. Os psolistas entraram de cabeça na frente ampla que é a unidade com setores da direita com o pretexto de derrotar Bolsonaro. Só para não deixar passar, essa mesma direita que é ne realidade a principal responsável por Bolsonaro e quem sustenta seu governo agora.

Essa política de frente ampla é a manobra que a burguesia imperialista está adotando em vários países. Consiste basicamente em constituir um arco de alianças com setores da direita – excluindo apenas a extrema-direita – colocando a esquerda a reboque. A presença da esquerda aí serve apenas como uma cobertura para uma manobra ultra direitista.

Vemos isso no Brasil, mas também muito claramente na eleição dos EUA, onde a esquerda foi arrastada para o apoio a Joe Biden, um candidato do imperialismo e muito direitista.

A mesma manobra se viu nas eleições bolivianas, com a vitória de Arce, e nos elogios à constituinte chilena, que foi um acordo entre a direita e a esquerda para sustentar um regime que poderia ter caído após as enormes mobilizações do ano passado.

A frente ampla é uma política de conciliação de classes, mas com uma diferença importante ao que fez o PT e os demais governos nacionalistas de esquerda. Estes últimos estiveram à frente desses governos e realizaram reformas sociais, ainda que muito moderadas. A frente ampla, por seu turno, é apenas uma aliança em que a esquerda não cumpre nenhum papel a não ser servir como cobertura para a direita.

A frente ampla é a conciliação de classes na qual a esquerda não ganha nada.

Send this to a friend