O blues do Mississippi
O lendário Skip James gravou 18 músicas em 1931 e depois passou mais de 30 anos longe da música. Hoje em dia é considerado um dos grandes do blues
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no telegram
Compartilhar no email
Compartilhar no reddit
skip james & mississippi john hurt
Mississippi John Hurt e Skip James no início dos anos 60 | Foto: reprodução

Skip James foi um dos nomes mais importantes do início do blues. Um músico que gravou 18 canções em 1931 e depois desapareceu da cena musical por mais de 30 anos, virando quase um mito. Muitas pessoas até duvidavam da sua existência, já que pouquíssimos exemplares de seus discos sobreviveram até então. Mas o renovado interesse pelo blues no início dos anos 60 o trouxe de volta à cena, proporcionando algum reconhecimento pelo seu importante trabalho. Hoje em dia seu legado é comparável ao de seu contemporâneo Robert Johnson, como um dos grandes do estilo conhecido como Delta blues.

Illinois Blues

Skip James nasceu Nehemiah Curtis James em Yazoo City, próximo de Bentonia, estado do Mississippi em 9 de junho de 1902. Na infância Skip ouviu muito os músicos locais como Henry Stuckey, um nome lendário do blues, mas que nunca chegou a ser gravado e também os irmãos Charlie e Jesse Sims. O primeiro instrumento de Skip foi o órgão, que praticava na igreja de seu pai.

Trabalhou na construção de estradas e ruas em Mississippi nos anos 20 e foi aí que escreveu sua primeira canção, “Illinois Blues”, sobre estas suas experiências no trabalho. Foi nessa época que adotou sua peculiar afinação de violão, em um ré menor aberto, uma afinação que contribuiu enormemente para o seu som sombrio e profundo.

Com 17 anos Skip deixou sua cidade e trabalhou em várias atividades, como lenhador, trabalhador no campo e pregador, mudando constantemente de cidade. Foi também cafetão, traficante de bebidas, apostador. Muitos dizem que seu apelido, Skip James, se deve à sua fama de fugir quando a polícia chega.

No início de 1931 Skip procurou o caçador de talentos H.C. Speir na cidade de Jackson para fazer um teste. Speir tinha contato com várias gravadoras e costumava indicar artistas negros para a gravadora Paramount, um selo especializado em “race records”, ou seja, em música feita por negros, para negros.

Skip viajou para Grafton, no estado do Wisconsin, onde fez sessões para a Paramount. Segundo relatos após encerrada a gravação o representante da gravadora, bastante satisfeito, cumprimentou Skip e disse algo como “obrigado, logo iremos te procurar novamente”. Algo que nunca aconteceria.

As gravações de 1931

As gravações que ele fez lá, 18 músicas, foram lançadas em nove discos 78 rotações, todos eles em 1931. Várias dessas músicas viriam a se tornar clássicos absolutos do blues, especialmente da corrente conhecida como o Delta blues. Dentre as canções gravadas estavam músicas em estilos variados, não apenas blues, mas também gospel e spirituals. Uma das canções mais notáveis era “I’m So Glad”, uma canção que foi baseada em “So Tired” de Art Sizemore e George A. Little, gravada em 1928 por Gene Austin e por Lonnie Johnson. A versão de Skip é considerada um dos mais extraordinários exemplos de dedilhado na música para guitarra.

A sorte de Skip James foi fortemente abalada pela chegada dos efeitos da Grande Depressão iniciada em 1929. As vendas de seus discos foram baixíssimas, algo que ele interpretou como se tivesse sido roubado pela gravadora e como resultado ele abandonou completamente o blues para se tornar diretor do coro na igreja de seu pai. Mas tarde ele mesmo acabaria por se tornar um ministro de igreja batista na cidade de Dallas. Foi então que chegou à conclusão que o blues era a música do diabo.

Pelos próximos 30 anos Skip James não retornou aos estúdios de gravação, além de ter tocado em público pouquíssimas vezes. A mudança em sua sorte veio com o movimento de redescoberta do blues no início dos anos 60.

Redescoberta do blues

O início dos anos 60 ficou marcado por uma volta no ressurgimento do interesse do público pelo blues. Foi um fenômeno que ocorreu nos Estados Unidos e também no Reino Unido, algo que influenciou inúmeros artistas e mudou o rumo do rock, o estilo que acabou superando o blues e incorporando seus principais elementos.

No Reino Unido várias das novas bandas se basearam no blues, especialmente no chamado Delta blues para seu som, como foi o caso de bandas como os Rolling Stones, Animals, Pretty Things, John Mayall, Alexis Korner e Fleetwood Mac.

Em 1964 os entusiastas de blues John Fahey, Henry Vestine e Bill Barth localizaram Skip James, após semanas de busca. O trio percorreu o Mississippi atrás da Skip e só conseguiram uma boa pista quando um garoto mencionou um velho negro que dizia ter viajado para o norte nos anos 30 para gravar suas canções. O trio foi até o local e se certificaram que o sujeito era mesmo Skip James. Ele estava internado em um hospital.

Skip estava internado por causa de um câncer no pênis, que ele alegava ter sido maldição de uma mulher. Apesar de não tocar um violão há muitos anos sentou-se na cama e compôs na hora uma música sobre sua situação, “Sick Bed Blues”, à frente de todos.

Fahey, Vestine e Barth pagaram a conta do hospital, quitaram suas dívidas com o proprietário da casa onde morava e rumaram com ele para o norte onde a carreira de Skip seria retomada, mesmo que por apenas alguns anos.

Skip James se apresentou no Festival folk de Newport em julho de 1964, onde causou uma grande comoção com sua música triste e mórbida e com sua voz característica de falsete. Ele tocou canções como “Rather Be The Devil Than Be That Woman’s Man” (melhor ser o diabo que o homem daquela mulher) e outras músicas de caráter quase brutal. Skip se destacava por um estilo de violão único, com um estilo elaborado de dedilhado que era mais próximo de outra escola do blues, o chamado Piedmont blues.

Nesse festival apresentaram-se também outros nomes “redescobertos” como Son House e Mississippi John Hurt. John Hurt teve uma história parecida com a de Skip James. Ele também gravou uma série de seis discos em 1928 e com a falta de sucesso se retirou da música e só foi redescoberto em 1963 pelo músico Tom Hoskins. Em outubro de 1964 Skip James e Mississippi John Hurt se reuniram na rádio WTBS-Fm em Cambridge, Massachussets, onde tocaram várias de suas canções.

Skip teve um sucesso bastante moderado, bem menor que outros “redescobertos”, justamente por seu estilo triste e de letras cruéis e violentas, muito distante do gosto popular.

Entre 1964 e 1968 Skip lançou quatro álbuns, “Greatest Of The Delta Blues Singers” (1964), “She Lyin’” (gravado em 1964 e só lançado em 1996), “Today!” (1966) e “Devil Got My Woman” (1968), regravando algumas de suas canções de 1931 e novas composições, várias delas falando de suas doenças e convalescença.

Em setembro de 1966 o trio inglês Cream gravou, em seu álbum de estreia, “Fresh Cream”, a música “I’m So Glad”. Esta gravação rendeu a Skip 10 mil dólares, a maior quantia de dinheiro que ele viu em toda sua vida. Com esta quantia finalmente ele pode melhorar de vida até que ele finalmente acabou por falecer de câncer em 3 de outubro de 1969.

Compartilhar no facebook
Compartilhe no seu Facebook!
Compartilhar no twitter
Tuite este artigo!
Compartilhar no whatsapp
WhatsApp
Compartilhar no telegram
Telegram
Compartilhar no email
Email
Compartilhar no reddit
Reddit
Compartilhar no facebook
Compartilhe
Compartilhar no twitter
Tuite este artigo!
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no telegram
Compartilhar no email
Compartilhar no reddit
Relacionadas