Motivo global de riso
Na Netflix, a série mexicana “La Casa de Las Rosas” usa sobrenome Bolsonaro como sinônimo de “burro”. O “pum do palhaço”se volta contra sua cara – e é internacional.
Foto: divulgação. |

O “messiânico” Jair não é conhecido por ser um apreciador das vanguardas do cinema e das artes em geral – menos ainda quando apresentam algum teor crítico ou alguma denúncia à barbárie; quando se trata de uma crítica direta a ele ou a seu tipo de mentalidade, o líder e seu clã declara imediatamente guerra à obra em questão, mesmo que haja qualquer outro conflito que exigiria mais do olhar de um líder de Estado. Nos ataques verbais ao cinema (por enquanto, tratemos apenas destes) que Bolsonaro e seus apoiadores realizam desde que tomaram os microfones, as câmeras, as redes e, por fim, a faixa presidencial, é comum um apelo retrógrado por uma arte pudica e “elevada” – com a qual o presidente (e seus acólitos) tem tampouco familiaridade, diga-se de passagem. Mais uma submissa tentativa de requentar um neoclassicismo europeu e colonizador que já tinha demonstrado seus poderes políticos enquanto supremacia “do belo” em seu continente de origem e durante seu ápice, a Europa nazi-fascista: a arte enquanto imitação e ornamento técnico do que poderíamos chamar de “vitória do progresso” e do “Esclarecimento” – uma arte que deve fazer apologia do mundo burguês e suas origens à romana. Se opondo violentamente à arte crítica, os nazistas costumavam chamar as vanguardas da época de “arte degradada”, ocupadas que estavam em soar o “alarme de incêndio”, como diria Walter Benjamin, e as apontavam como o fruto do “perigo vermelho” e da “vontade de destruição contra o progresso” por parte dos comunistas. Os nazistas agarraram-se ao “belo”, que nada mais deveria ser, em sua concepção estética, do que o louvor de sua própria existência – o “belo” como reflexo técnico ornamentado daquilo considerado “elevado”, “superior”. A arte crítica foi então banida, os vermelhos foram caçados e executados e o incêndio, como bem se sabe, ocorreu. O que significava “belo” e “elevado”, viemos a saber muito bem.

Em oposição a tal concepção de arte e cinema que muito incomoda Bolsonaro e os pudicos bolsonaristas, amantes do “belo” que são, muitas produções fonográficas brasileiras (sem mencionar outras expressões artísticas) seguiram no embate crítico contra essa força política, em especial ao se valer da estética do concreto – e do concreto da estética – para escancarar o rosto que insiste em esconder-se atrás de sua máscara ornamental e discursiva “contra a corrupção” (afinal, em prol de um Brasil “belo”, “honesto”, “elevado”), “em prol do progresso” (há algo mais “belo”?) e da “economia” (ah, “harmonia” do mercado), contra a “depravação” (ah, a beleza da “disciplina”, da “ordem” e dos “costumes”…) e outros apelos estéticos (belicosos e salivantes, mas a favor do “belo”!) de igual abstração; além de seguirem na vanguarda das explicitações das terríveis consequências também concretas de tais abstrações estético-idealistas (o filme Bacurau, de Kleber Mendonça Filho, foi um louvável exemplo). Em suma, contra uma estética da “austeridade” e do “sacrifício” – sacros valores burgueses para a produção e reprodução do que já é e de como é. Tais produções brasileiras, que foram e vão na contramão desse apelo conservador, vinham sendo e são constantemente atacadas por Bolsonaro, seu governo, seus aliados financeiros e seus adoradores, não apenas verbalmente, mas com medidas de censura explícita.

Para corroborar tal censura, sequer precisamos lembrar a exigência de “filtro” ideológico na Ancine e a ameaça de privatização, o corte orçamentário de 43% que se seguiu e a indicação de um pastor evangélico (conhecido como o “Amauri Jr. carioca”) para o comando da instituição e a promoção de festivais e cotas para o “cinema cristão” (não haveria “filtro ideológico”?). Vamos também manter na memória a censura imposta ao filme Marighella, cujas financiadoras (O2 Filmes, Paris Films), em realidade, não desejam ter seus nomes associados ao lançamento do filme e se submetem à censura em silêncio, pelo vínculo e apoio ao governo. As verbas públicas foram igualmente negadas. O filme já vem sendo exibido em diversos festivais no mundo (Berlim, Austrália, França, etc), levando a eles, junto ao discurso de seus produtores, a crítica explícita à tentativa ditatorial de censurá-lo e o que Bolsonaro deseja censurar: falar sobre uma das personagens históricas mais relevantes sobre um período acerca do qual ele deseja ter o monopólio ideológico e repressivo. O filme em questão já teve sua data de lançamento “adiada” diversas vezes desde o início de 2019 e foi também censurado fora do Brasil, num festival do Uruguay e a pedido da Embaixada do Brasil.

No entanto, não parecemos estar a sós no ato de compor a imagem de Bolsonaro e o que ele representa do que há de mais grotesco. Há um tempo, o clã e seus seguidores vêm precisando alargar sua lista de “obras e artistas odiosos e degradados”, inclusive quando se trata de música, filmes ou até séries vindas do exterior, mesmo que elas talvez sequer sejam o que há de mais concreto e vanguardista em termos do papel da arte no embate político de agora. O ponto aqui sequer seria esse. Basta que a peça venha a “macular”, direta ou indiretamente, a imagem do presidente, para que estejam “em território inimigo”. Não nos esqueçamos, por exemplo, do número de fãs do Pink Floyd quebrando seus discos, rasgando ingressos e disparando ofensas online a Roger Waters e todos os que o aprovam logo após seus shows de proporções imensas e caríssimas, que continham algumas mensagens contra o fascismo (que praticamente já esquecemos e, convenhamos, não teve impacto nenhum no curso real da política brasileira).

Desta vez, a mais recente referência a Bolsonaro nos meios fonográficos artísticos de fora do país veio explicitamente da série mexicana “La Casa de Las Flores”. No quinto episódio da terceira e última temporada, lançado na última quinta-feira (23) pela Netflix, o sobrenome do presidente é colocado como sinônimo de “burro”. O momento acontece numa discussão entre as personagens Paulina de la Mora (Cecília Suarez) e Diego Olvera (Juan Pablo Medina). Na cena, Paulina grita para Diego: “Cale a boca! Você é burro? Você é do Alabama [estado norte-americano]? Seu sobrenome é Bolsonaro ou o que?”. O nome do presidente não foi omitido na legenda do projeto espanhol.

Também o seriado “La Casa de Papel” – este um seriado espanhol, que é também um dos mais populares da Netflix – se valeu recentemente do cenário político brasileiro em seu vídeo promocional para a quarta parte da série. No caso, o ex-presidente Lula compartilhou um vídeo em que um dos atores, Rodrigo De La Serna, que interpreta Palermo, manda-lhe um recado. Na entrevista, ele e Pedro Alonso, que interpreta o personagem Berlim, ouvem um pedido para que mandem uma mensagem aos brasileiros. La Serna diz: “Um carinho imenso para todos e todas. Força. Lula livre.”

A série Westworld, também com o lançamento recente da Netflix de sua mais nova temporada, faz uma alusão praticamente explícita ao cenário que envolve Bolsonaro como chefe maior do contexto ditatorial do Brasil, além de uma menção sutil aos militares. A série, que se passa numa ficção futurística onde a vida ocorre majoritariamente em parques temáticos habitados por andróides (que, por sua vez, tem pouca consciência das maquinações daqueles que os controlam), insere um presidente brasileiro em seu mais novo episódio, cujo título é Genre. Neste, o personagem Serac (Vincent Cassel) se encontra com o presidente brasileiro chamado Filo para tratar de um “movimento separatista insurgente” no que é vagamente chamado de “norte do país”. Na conversa, Serac ameaça Filo, e revela que poderia substituí-lo por seu vice, um militar, tão rapidamente quanto agiu para facilitar a sua eleição, com apoio da inteligência artificial, que é o mote da trama.

Seria vasta a lista de obras cinematográficas e artísticas em geral que apresentam ao menos uma alusão ao catastrófico cenário que Bolsonaro e seu projeto fascista e militarizante de governo representa para o mundo e especialmente para o Brasil. Não nos cabe aqui, nesta matéria, julgar o poder concreto dessas obras e quais podem de fato ser consideradas verdadeiras investidas ou mero oportunismo das largas redes de streaming e produção da indústria cultural, mas notar o que todos notam: Bolsonaro é atualmente a figura mais grotesca e ridícula do cenário político global – inclusive na linguagem espetacular deste cenário. Todos, em seu íntimo, o sabem. Muitos já o dizem (um bom número o faz há um tempo considerável). Há os que, em negação, reagem contra si e contra aos outros no delírio de agarrar-se a um mundo em desabamento. O cinema, assim, pode nos servir como um “índice sintomático” do que o corpo doente sente: a causa de sua enfermidade. O grotesco, não por acidente, geralmente é acompanhado pelo ridículo, e talvez isso não seja mera “burrice”: o ridículo traz o riso e ofusca o que é grotesco – e perigoso -, mas notá-lo, apontá-lo por toda parte, constantemente, e ver que é notado: estes também podem ser meios para destituí-lo de seu poder.

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