Sempre 26

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¡Aquí no se rinde nadie, carajo!”*, bradou Juan Almeida Bosque na costa oriental, antes de partirem para a Sierra Maestra.

Não era hora de se render, mesmo que os gorilas de Batista estivessem chegando, ensandecidos, para arrancar as tripas daqueles barbudos.

Um guerrilheiro, pensando que a derrota era certa, havia proposto se entregarem para a morte, ao invés de serem mortos.

Cinco anos antes, um jovem advogado demonstrava uma rara bravura em sua defesa no julgamento perante outros gorilas do mesmo Batista.

En cuanto a mi, sé que la cárcel será dura como no la ha sido nunca para nadie, preñada de amenazas, de ruin y cobarde enseñamiento, pero no la temo, como no temo la furia del tirano miserable que arrancó la vida de setenta hermanos míos. Condenadme, no importa, La historia me absolverá.

Assim terminava sua autodefesa, ao tempo em que levantava serenamente da mesa para ficar 15 anos na prisão. Graças a muita pressão popular, foi anistiado junto com outros presos políticos em 1955.

O 26 de julho de 1953 foi derrotado em um primeiro momento e a maioria dos 135 valentes que assaltaram o Quartel Moncada foi executada ou presa. O ditador, que assumira por um golpe um ano antes, não caiu.

Para a empreitada, os jovens organizados pelo advogado – que, na época, mantinha apenas um fino bigode – pediram a ajuda da oposição à ditadura, oferecendo suas vidas em troca do apoio para derrubar Batista. Os únicos que se uniram a eles foram outros jovens provenientes da classe trabalhadora.

Contudo, aquele ato de coragem acendeu o pavio revolucionário em toda Cuba. Logicamente, não foi esse acontecimento isolado que gerou o movimento das massas, mas foi fruto da imensa indignação popular com a fome, a miséria e o analfabetismo promovidos por décadas de submissão ao imperialismo.

O Assalto ao Quartel Moncada, entretanto, despertou o ímpeto pela derrubada de Batista e o povo começou a se mobilizar com uma frequência e organização cada vez maior. Três anos depois, aquele advogado, já barbado, voltou do exílio no México junto com outros 82 combatentes, tão ou mais destemidos como aqueles que deixaram suas vidas no Moncada. Não à toa, batizaram seu movimento em homenagem a eles: 26 de Julho.

Do iate Granma, desembarcaram na ilha e subiram a Sierra Maestra, onde não se renderam, batalharam, viram companheiros caírem em emboscadas, passaram fome e frio. Receberam a adesão dos camponeses, e nas cidades organizavam os operários.

O 26 de Julho se viu refletido, agora de um modo acabado e triunfante, no primeiro dia de 1959. Da Sierra Maestra, os barbudos se espalhavam pelas cidades, de braços dados com os trabalhadores. Desceram a Havana Fidel e Camilo. Che e Raúl. Vilma e Almeida. Carregando consigo o mesmo espírito do Moncada. Dessa vez, derrubaram o ditador.

* Durante muito tempo a frase foi atribuída a Camilo Cienfuegos. Na primeira versão deste texto, o autor também a atribuiu a Camilo, mas ela pertence a Juan Almeida Bosque, Comandante da Revolução e um dos três capitães do Granma.