Trabalhadores em risco
Reportagem deste Diário foi investigar com os metroviários as suas condições de trabalho.
bilheteria metrô SP
Bilheteria de metrô em São Paulo. foto |

Os metroviários são a categoria mais exposta ao risco de contaminação por coronavírus. Todos os dias, milhões de passageiros utilizam os transportes públicos, sendo a lotação do metrô de São Paulo (SP) uma das maiores do mundo. Isso significa que o número de possíveis passageiros contaminados pelo Covid-19 é igualmente alto. Após notícia do falecimento de uma funcionária da limpeza da Linha 1 – Azul, a equipe do Diário Causa Operáriafoi até as estações de metrô conversar com os funcionários para obter informações sobre as suas condições de trabalho.

Entrevistamos 3 membros de diferentes categorias que trabalham nas estações de metrô, uma funcionária terceirizada da bilheteria, um operador de transporte metroviário e uma funcionária também terceirizada da equipe de limpeza, a fim de saber quais medidas estão sendo tomadas para a prevenção do coronavírus e para salvaguardar a saúde desses trabalhadores.

A atendente da bilheteria, terceirizada da empresa Liderança, relatou que está recebendo apenas a máscara da empresa para trabalhar. Outros equipamentos de prevenção, como luvas, não estão sendo disponibilizados. Os turnos não foram alterados, porém alguns funcionários foram demitidos. Isso em plena crise econômica e quarentena que vêm afetando a todos os trabalhadores. Aqueles funcionários com suspeita de estarem contaminados são afastados, mas os outros trabalhadores não têm conhecimento dos casos, que são abafados. A funcionária não tinha conhecimento do falecimento ocorrido recentemente na Linha azul.

O operador metroviário, que é um funcionário concursado, relatou que há alguns funcionários que faleceram em decorrência da doença e outros tantos afastados com sintomas, mas isso não é divulgado, nem entre os próprios trabalhadores. Relatou que recebe a máscara, porém a princípio a orientação era de usá-la apenas quando fosse realizar atendimento com usuários do metrô. Após reivindicação da categoria, foi estendido o uso da máscara para todo o expediente. Porém, eles não recebem – nem mesmo – uma máscara nova por dia, tendo que usar a mesma até ela ficar totalmente sem condições de uso. Com relação às luvas, ele as utiliza apenas nas situações de atendimento direto aos usuários.

Quanto aos metroviários do grupo de risco ou que apresentam sintomas do Covid-19, a princípio estavam recebendo salário integral, sem os adicionais de insalubridade ou de risco de vida. Porém, foi decidido posteriormente que eles teriam suas férias adiantadas e passariam a receber apenas a partir de dezembro. Não há testes feitos pela empresa para nenhum funcionário, mesmo aqueles que apresentem sintomas. Quem conseguiu fazer teste, o fez por conta própria. A única medida tomada pela empresa foi a antecipação da vacinação anual contra a gripe.

A funcionária da limpeza terceirizada relatou que recebe os equipamentos de segurança como máscaras e utiliza luvas de borracha típicas para faxina ao fazer a limpeza. Ela mencionou que algumas pessoas foram afastadas por estarem nos grupos de risco e que elas estavam recebendo apenas 70% do salário, com o governo completando o restante. Ao ser perguntada sobre a quantidade de pessoas afastadas, ela disse não saber exatamente, mas sabe que são muitas pessoas. Também falou que não estão sendo testadas pela empresa. Ela relatou não ter conhecimento do caso de falecimento da trabalhadora da limpeza da Linha 1 – Azul.

A conclusão a que foi possível chegar com a reportagem é que alguns equipamentos de proteção são fornecidos aos funcionários, justamente porque são o aspecto mais visível da prevenção do coronavírus. Seria muito alarmante e contraditório ter trabalhadores sem as máscaras, enquanto todos os usuários do metrô são obrigados a usá-las. Porém, não houve nenhuma mudança nos turnos dos funcionários, nem um programa de testes para todos os trabalhadores e tampouco há auxílio médico para esses funcionários, exceto no caso dos metroviários concursados que possuem um plano de saúde, ainda que precário. Os casos de mortes e contaminações são todos abafados, de modo que os trabalhadores estão indo para o serviço às cegas, sem saber quais colegas estão doentes ou não. Muitos dos terceirizados foram demitidos, devido à diminuição na arrecadação.

Os trabalhadores do metrô precisam organizar-se e lutar pelo direito à greve e pelo direito de exigir as medidas necessárias para se protegerem da contaminação pelo vírus. Da parte do governo fascista do Estado de São Paulo não dá para esperar nada. Apenas a organização dos metroviários fará com que suas necessidades sejam atendidas e seus direitos respeitados. É a vida dos trabalhadores que está em jogo.

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