Armas para mulheres
Não há como confiar nas instituições burguesas. O caminho é a organização independente das mulheres e a sua autodefesa
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Mulher dispara durante um treinamento organizado pelo grupo de empoderamento feminino Girls on Fire. | MARCO LONGARI/AFP
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Mulher dispara durante um treinamento organizado pelo grupo de empoderamento feminino Girls on Fire. | MARCO LONGARI/AFP

Dezenas de mulheres estão se organizando para se autodefenderem, no curso de iniciação as armas de fogo reservado às mulheres, pela campanha Girls on Fire, organizado pela Associação de Proprietários de Armas de Fogo na África do Sul (GOSA). O treinamento acontece na cidade de Midrand, que fica dentro do município de Joanesburgo. O manuseio da arma de fogo é uma forma de se proteger em um país onde uma mulher é assassinada a cada três horas.

Na África do Sul, um dos países mais violentos do mundo, os assassinatos aumentam constantemente. As principais vítimas são as mulheres negras e pobres, que são maioria no país. Em 2019-2020, 21.325 pessoas (+1,4%) foram assassinadas, segundo o último relatório anual da polícia. O índice de feminicídios é cinco vezes mais alto que a média mundial. No país, 110 denúncias por estupro são registradas diariamente pela polícia. Em 2019, as agressões sexuais aumentaram 1,7% (+873 casos) em relação ao ano anterior, ou seja, 53.293 casos no total.

As mulheres sul-africanas, fartas do flagelo do estupro e do feminicídio, sabem que não adianta chamar a polícia, por isso iniciaram treinamentos com arma de fogo para autodefesa. Como relatam algumas das participantes do curso:

Ntando Mthembu, de 33 anos, pela primeira vez em sua vida tem um revólver em mãos. Ela perdeu a prima em novembro. Sozinha em casa por algumas horas, foi estuprada por vários homens e depois assassinada. “Antes que isso aconteça comigo, quero estar pronta”, afirma Ntando.

Matsie Noge, outra participante diz: “As mulheres são um alvo neste país”. Matsie, mãe de família trouxe sua filha de 24 anos. “Deveria tê-la trazido muito antes, quando tinha 15 anos. Quanto mais cedo, melhor”, afirma.

Nthabiseng Phele, com 32 anos, conta que há nove anos foi estuprada várias vezes em seu quarto. O vizinho da casa onde morava com seus pais em um subúrbio de Johannesburgo entrou pela janela. Ela não denunciou e não recebeu nenhum apoio. Somente os cachorros latiam quando ela gritava. Seus pais a censuraram por envergonhar a família. Quando falou com um amigo e contou o que havia acontecido, ele também a estuprou. “Isso vai te ensinar a ficar quieta”, disse ele. Agora, Nthabiseng, ao lado de seu companheiro, decidiu instalar um cofre em casa para guardar sua arma.

Os treinamentos são destinados em particular a jovens negras, que são as mais atacadas estatisticamente. Themba Kubheka, da associação GOSA e criador desses cursos acredita que as mulheres devem ser capazes de se defender, ao invés de pedir ajuda, pois em caso de agressão, a polícia demora em média 15 minutos para chegar. “Cada mulher aqui conhece uma mulher que foi estuprada, roubada, agredida. Cada uma tem uma história sobre a violência deste país”, afirma Themba.

Na África do Sul, a violência contra as mulheres é algo histórico. No regime do Apartheid as mulheres negras eram constantemente violadas e submetidas a tratamentos desumanos pelas forças de segurança a mando da burguesia branca do país. Hoje não é diferente, já que o Apartheid só acabou na teoria. O próprio presidente Cyril Ramphosa, afirma que o país é um dos países mais inseguros do mundo para ser mulher.

Dessa forma, essa notícia é um grande exemplo para as mulheres do mundo todo. Não há como confiar nas instituições burguesas, que de fato nada fazem para defender as mulheres, atuam apenas na repressão dos pobres e oprimidos. O caminho é a organização independente das mulheres e a sua autodefesa. Pelo direito ao armamento e pela união do movimento de mulheres com a classe operária e demais setores oprimidos, contra a exploração e a opressão.

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