Seis políticos do PSOL que não lutaram contra o golpe e agora se apresentam como líderes da oposição

A expressão “a esquerda que a direita gosta” faz referência irônica ao fato de, apesar da auto nomeação, a auto representação como de esquerda não garante agir politicamente como ou, em outro sentido, que certa ‘esquerda’ (pequeno-burguesa) age conforme interesses da direita, da burguesia, com quem compartilha certa visão de mundo e certos valores.

No Brasil, a polarização advinda do golpe que teve seu ponto alto em 2016, com a destituição da Presidenta Dilma Rousseff (PT), por meio de um processo fraudulento, planejado e executado pela direita, teve apoio de parte da esquerda, como o PSTU, e uma posição dúbia por parte do PSOL.

O PSOL, como tem representação parlamentar, nasceu a partir de uma cisão do Partido dos Trabalhadores, merece uma atenção especial nesses dias pós fraude eleitoral. Quando políticos oportunistas como Ciro Gomes, atualmente no PDT, sustentam que se deve ‘respeitar’ o resultado das urnas e que se deve, também, fazer uma oposição propositiva ao novo desgoverno com ares fascistas que se apresenta, temos que jogar alguma luz sobre os atores de ‘esquerda’ que fazem uma queda de braço para direcionar o que será a oposição daqui para frente.

Como podemos entender que pelo menos 6 (seis) membros do PSOL que tiveram posturas muito marcantes ou deliberadamente dúbias durante o processo que desencadeou o golpe de 2016, apareçam nesse momento, com o golpe consolidado a partir da fraude eleitoral, apresentando-se como parte da oposição àquilo que ajudaram a criar?

Vamos aos fatos. Luciana Genro, Babá, Marcelo Freixo, Guilherme Boulos, Valério Arcary e Chico Alencar são importantes para entender o processo de conversão de parte dessa esquerda pequeno-burguesa, depois de fechado o golpe.

Não vai ter golpe

Luciana Genro faz parte do Movimento Esquerda Socialista (MÊS), que se afirma como organização fundadora do PSOL. Essa tendência publicou em 19 de março o texto VAI TER GOLPE?, cuja pergunta é respondida rapidamente: “Não, não vai ter golpe. O que sim pode ter é o impeachment. A defesa de eleições é o melhor contraponto à política burguesa de defesa de Temer”.

Essa tendência e a própria Luciana Genro passou meses atacando os que falavam em Golpe e ridicularizando as previsões mais nefastas do seu sentido. Além disso, parece que não entenderam o papel da Lava-Jato como parte do processo, desde fora do país, para criar uma crise interna e ampliar a criminalização da política e atingir as esquerdas a partir do próprio Sistema de Justiça, com uma grande campanha contra o Partido dos Trabalhadores e, principalmente, contra o ex-presidente Lula.

Assim, o que vimos foi Luciana Genro defender a Lava-jato e pedir a renúncia da presidenta legitimamente eleita Dilma Rousseff, embarcando na famigerada campanha por novas eleições. Subitamente, Genro e sua tendência, O MES, passam a defender uma ‘frente única’ de oposição ‘democrática’ a Bolsonaro. Dizem que essa frente deve funcionar ‘sem hegemonia’, ou seja, sem a liderança do PT.

 

Teve golpe na Venezuela

Babá, outro representante do PSOL contra o Partido dos Trabalhadores, pertence a outra corrente/tendência dentro do Partido Solidariedade e Liberdade, Corrente Socialista dos Trabalhadores (CST), que também defendeu o golpe contra Dilma e, mais, justificou e pediu a prisão de Lula. É uma tendência direitista que justifica inclusive um golpe na Venezuela enquanto apoiam a Ucrânia.

Quando o PSOL lançou Guilherme Boulos como candidato a presidente, a CST denunciou o “lulismo” dentro do partido. Assim como o MES, agora a corrente de Babá também defende uma frente democrática de oposição.

 

 

A esquerda que a Globo gosta

Lembremos agora Marcelo Freixo. Ele recusou a presença de Lula em sua campanha, mas agora, defende na revista da Globo, Época, uma frente democrática, contra uma frente de esquerda. Ou seja, não há problema em se unir com o PSDB.

Assim como Luciana Genro, insiste que a esquerda precisa apoiar a Lava Jato; não fez nenhuma declaração sobre o processo fraudulento das eleições do golpe que levaram Bolsonaro a ser “eleito” presidente. Não apenas não reconhece que as eleições são uma fraude como a maior ação fraudulenta, prender e impedir Lula de ser candidato, não é criticada. Ao contrário, para ele a lutar pela liberdade de lula é ruim para a oposição, pois “não unifica”.

 

Dividir para governar

Guilherme Boulos, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, tinha espaço livre na Folha de S. Paulo onde, na época do impeachment, argumentava que o governo Dilma era indefensável. Exatamente no momento de mobilização contra o golpe, criou a Frente do Povo Sem Medo para dividir a Frente Brasil Popular. Sem esquecer que, antes disso, apoiou o movimento “Não vai ter Copa” contra o PT. Aceitou sem pestanejar o lançamento de candidatura própria, ao invés de apoiar o Lula. Ao final, ainda faz coro com os que dizem que o governo Bolsonaro foi eleito pelo povo. Por isso, deve-se respeitar o novo governo, e também fazer “oposição” a ele, com os “democratas” (ou seja, não é com a esquerda).

 

 

Não há onda conservadora, não haverá golpe

Valério Arcary foi um empolgado de primeira hora com as manifestações de 2013. Quando ainda estava no PSTU, com seu Movimento por uma Alternativa Independente e Socialista (MAIS), alegava que as manifestações desafiavam todos os ‘palácios’ do Brasil, e negava que houvesse uma onda conservadora no país, fazendo ode aos ‘jovens’ e sua ‘primavera brasileira’, aplaudindo a prisão de deputado, negando que não havia ameaça de golpe.

Depois saiu do PSTU e entrou no PSOL. Continua, porém, negando o óbvio, que as eleições de 2018 são pura fraude, mas afirma que é preciso lutar contra o fascismo, que é algo mais abstrato do que lutar contra o golpe, cujos mentores e executores conhecemos nome e sobrenome. Mais um que chama para uma ‘unidade’ de esquerda, mas com o mesmo repudio que o PSTU sempre teve do PT.

 

Beijando a mão de golpista

Chico Alencar, escritor voluntário do Globo, amigo de Noblat, beijou a mão de Aécio Neves e se mostrou um adepto do punitivismo como muitos da esquerda pequeno-burguesa. Foi um dos deputados que se manifesta contra o indulto Natal, a que ele chama de Insulto de Natal (apresentou um Projeto de Lei para impor limites ao indulto), fazendo frente com o judiciário repressor.

Na época do impeachment, é bom lembrar que foi um dos que subscreveu a famigerada nota “Nem 13 nem 15. Nem o sujo, nem o mal lavado!”, afirmando que a esquerda não devia participar nem dos atos contra, nem dos a favor de Dilma. Agora, o mesmo Chico faz demagogia contra o fascismo.

 

 

O que ocorre com o PSOL? A confusão política do partido, as contradições internas, além de sua origem, marcada pelo ressentimento de muitos de seus fundadores em relação ao Partido dos Trabalhadores, e sua quase total base de classe média, pode ajudar a entender esse vai e vem de seus líderes, essa dificuldade que têm em compreender o papel da direita (com quem se identificam em grande medida), os ataques ao PT, o Golpe de 2016, o papel e a importância de Lula (para além do mito do lulismo que encamparam desde sempre), e os desafios do tempo presente – uma vez que foram úteis para os golpistas e para a campanha de Bolsonaro, agora todos olham para o futuro, evidentemente. Mas, mais uma vez, parece que continuam a não entender ou não querem, qual o tamanho do desafio e qual o papel das esquerdas nesse momento em que o golpe se consolida com a fraude eleitoral.