Polêmica com Celso Amorim
Em entrevista ao Contexto (Argentina), Celso Amorim defendeu uma frente com o “centro”.
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Renan Calheiros (MDB) e Rodrigo Maia (DEM). Foto: Reprodução |

No dia 31 de março, o portal argentino Diario Contexto publicou uma entrevista com Celso Amorim, ex-chanceler do governo Lula. Na conversa, Amorim critica as posturas do presidente ilegítimo Jair Bolsonaro e faz a seguinte observação sobre como enfrentar a atual crise:

Tudo isso é enlouquecedor. O Brasil parece encurralado entre a atitude insana de Bolsonaro e os militares que exaltam o golpe.

Para compensar um pouco a imagem, há manifestações positivas dos partidos progressistas, uma declaração assinada por Fernando Hadad, Ciro Gomes e o PCdoB, que representa uma certa unidade da esquerda. Mas se essa unidade não se mover para algum tipo de aliança com o centro, a situação não mudará.

De maneira aberta, Celso Amorim apresenta, na passagem acima, a política da frente ampla levada ao extremo — isto é, uma aliança não só com os partidos burgueses golpistas que se apresentam como progressistas, como é o caso do PSB, mas sim uma aliança com os partidos tradicionais da burguesia, que são o que Celso Amorim chama de centro, repetindo a terminologia adotada pela imprensa capitalista, de direita.

A declaração que foi citada por Amorim foi assinada por integrantes do Partido dos Trabalhadores (PT), do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), do Partido Comunista Brasileiro (PCB), do Partido Democrático Trabalhista (PDT) e do Partido Socialista Brasileiro (PSB). Sendo assim, quais partidos que integram o regime ainda seriam convidados por Celso Amorim? Os partidos que sobram a essa lista são o neoliberal Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), o puxadinho da ditadura militar Democratas (DEM), a legenda dos coronéis Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e os demais partidos-satélites que inevitavelmente aparecem orbitando ao redor desses.

Assim sendo, coloca-se a pergunta: qual o possível ganho que os trabalhadores teriam com uma aliança com aqueles que já são conhecidos há décadas como inimigos do povo? Afinal de contas, o DEM é a continuação da Aliança Renovadora Nacional (ARENA), responsável pela ditadura mais sangrenta que o país já conheceu. O MDB, por sua vez, esteve no poder com o governo Sarney, um total desastre para os trabalhadores do ponto de vista econômico e responsável por um dos episódios mais criminosos das últimas décadas, que foi a repressão à greve da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), e com o governo Temer, primeiro governo após o golpe de Estado de 2016 e que abriu as portas para que as Forças Armadas entrassem de cabeça no regime político. O PSDB, por fim, é a legenda de Fernando Henrique Cardoso, que, enquanto presidente, chegou a matar 300 crianças por dia de fome.

A explicação para essa política suicida está na seguinte parte da entrevista:

Embora Bolsonaro tenha perdido muito apoio, ele ainda tem aquele núcleo duro de pessoas que atacam normas civilizadoras, leis trabalhistas, direitos humanos, direitos de negros, mulheres, setores LGBT etc. Muitas são pessoas cheias de ódio e encontraram em Bolsonaro uma voz com a qual se identificam.

Isto é, para o ex-chanceler, Bolsonaro ainda teria uma base social importante, forte, que seria capaz de sustentá-lo independente do papel da esquerda. Essa, obviamente, é uma incompreensão, visto que a popularidade de Bolsonaro se restringe a menos de 10% da população, enquanto a esmagadora maioria dos trabalhadores já demonstrou disposição para derrubar o governo imediatamente. Não é à toa que a principal palavra de ordem gritada hoje é o “Fora Bolsonaro”.

Aliar-se com o DEM, o MDB e o PSDB seria, portanto, uma política baseada no mais puro desespero. E podemos constatar esse desespero no final da entrevista:

Após o golpe contra Dilma Rousseff, no Brasil, e com a chegada de Mauricio Macri ao governo da Argentina, os espaços de integração que foram construídos ou reformulados durante a primeira década do século 21 foram abandonados ou destruídos: Unasul, Celac, Mercosul etc. Como esses projetos integradores podem ser recuperados?

Temos que vencer o coronavírus primeiro. Hoje isso é essencial porque é vida. Sem vida, o resto não existe. Temos que vencer o coronavírus com a criação de empregos, com apoio à renda das pessoas pobres.

Seguindo esse raciocínio, a situação estaria tão crítica que todos os ataques que a burguesia disparou contra os trabalhadores deveriam ser deixados de lado para uma frente ampla. De fato, uma emergência internacional demandaria uma tática que fosse bastante prática, sendo, inclusive, capaz de superar quaisquer ressentimentos. O problema, no entanto, é que aliar-se à burguesia é e sempre será uma tática errada porque ela é a grande responsável por todas as catástrofes e o maior impasse para que a classe operária consiga resolver seus problemas.

DEM, PSDB e MDB representam os setores mais importantes da burguesia, os setores que estão temerosos em verem os bancos entrando em falência (e os “socorrem” com trilhões!!) e que vêem a pandemia como uma chance de ouro para fazer a indústria farmacêutica superfaturar. Nesse sentido, fica claro que são um entrave para o combate à pandemia: se há quem defenda que um único centavo seja destinado para salvar um banco em vez de salvar a população, não há porque formar qualquer tipo de aliança.

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