Cura “penhorada”
Com mais de 90% de leitos ocupados em São Paulo, “parcerias” começam a ser feitas para encobrir a inércia assassina do regime do estado e do município
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São Paulo 07 04 2018 Bruno Covas assume a prefeitura de São Paulo com a renuncia de  João Doria que vai disputar o governo do estado.foto Leon Rodrigues
Bruno Covas e João Doria | Foto: Reprodução

O descaso com a população e a indulgência com a rapinagem burguesa seguem absolutamente intocados pelo governo e municipalidade, mesmo frente ao escalonamento brutal dos efeitos da pandemia. A política do “fique em casa” joga a responsabilidade pelo desastre, por um perverso e descarado desvio de causalidade, na cara dos indivíduos trabalhadores, desde os informais, os carteiros, funcionários de mercados, construtores, os motoristas, até a totalidade genérica dos “braços indispensáveis” – que foram, contudo, a matéria carnal astutamente eleita a ser sacrificada no altar da pandemia para que a pequena e a média burguesia lave suas mãos e se desembarace de sua covardia -, para justificar um estranho tipo de “incapacidade moral” de quase 22 milhões de habitantes da zona metropolitana de atingir o mínimo de 50% de isolamento social de forma “voluntária e consciente”. É patético.

Esse discurso atomiza a irresponsabilidade e a incapacidade orgânica – ou falta de vontade – que o estado e a municipalidade de SP têm, numa certa “falta de consciência” que “paira” impalpavelmente dentre os “inconscientes e irresponsáveis” paulistanos, estes enquanto meros indivíduos que, se fossem corretamente “catequizados” e educados, “nos salvariam”, tudo para ornamentar a desastrosa inércia diante de uma pandemia tornada propositalmente ainda mais fatal do que seria. Essa “perfumaria” é uma injúria à inteligência. Não só isso: é também um velho preconceito que conhecemos, aquele que diz que o povo é “incapaz de se governar”. “Olha aí! Pedimos simplesmente que fiquem em casa e não ficam! Veja como o paulistano é incapaz de compreender e, por isso – e só por isso – estamos diante da maior calamidade de saúde que as últimas gerações desse país já testemunharam.” Ora, fizeram sua parte, não? Campanhas de consciência, feriados adiantados e “parcerias”… Sabemos que isso é uma falácia.

Mesmo que considerássemos que se trataria do senso comum contido na falsa oposição entre um governo estadual “racional” e 30% de alucinados bolsonaristas (que, aliás, nem sequer têm números para compor 50% dos paulistanos que “não desejam” ficar em casa), e considerássemos que esse fosse o principal problema, a soma dos determinantes ainda estaria longe de ser considerada por completo. Lembremo-nos de duas colocações importantes de Marx: 1) Não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência; e ainda: “Não há nada mais tediosamente árido do que as fantasias do locus communis [lugar-comum]”; Ou seja, com isso dizemos que a centralidade do problema, obviamente, não é a de que os cidadãos não têm “consciência”, e por isso, não se isolam – a maioria não tem condições materiais de se isolar. Se há um desejo de exigir uma ação que provém de uma determinada “consciência”, há de se prover primeiramente as condições materiais para que essa consciência possa operar na vida. Qualquer observador pouco ingênuo da vida em São Paulo (ou menos apartado da realidade) sabe quais são as condições materiais, portanto, não nos alongaremos mais aqui. Tampouco percamos mais tempo com os locus communis. Sigamos às materialidades.

Quais seriam as possíveis razões de uma superlotação de mais de 90% dos leitos dos hospitais em São Paulo, além da já pressuposta densidade populacional? Desde abril, já havia hospitais com lotação de 100% nas periferias de São Paulo, como Parelheiros, Itaquera, Ermelino Matarazzo, Tiradentes e outros – note: São Paulo tem 19 hospitais municipais. Na sexta-feira (22), o estado já registrava 13 hospitais de referência com lotação de 100%, e o próprio índice de lotação geral já passava dos 80% na cidade – o constantemente citado Hospital das Clínicas já estava em 92% de sua ocupação total já em 20 de abril. Também as previsões de que atingiríamos em junho uma total ocupação de leitos não é novidade e parece caminhar para sua concretização – 3 regiões de São Paulo já não possuem mais vagas em UTI. Aqui no DCO, já havíamos denunciado que 12 cidades da Grande São Paulo sequer tinham leitos de UTI, e que os hospitais do litoral também haviam atingido lotação de 100%. Ou seja, o que aqui noticiamos é sequência e consequência da já denunciada inércia de então.

O que faz então o estado? Se lança em “parcerias” com redes privadas. E claro: apenas agora (como se já não bastasse a ideia de “parceria privada”). A proposta é o aluguel de 4.500 leitos (1.500 de UTI e os demais, leitos clínicos e enfermagem), cada um a R$2,1 mil por dia, o que custará quase R$600 milhões aos cofres públicos. O acordo fechado pela prefeitura por Bruno Covas, por exemplo, foi com 11 hospitais da rede privada. Há, além disso, um prazo para a disponibilização das vagas nos hospitais privados: 20 dias.

Curioso. O mencionado e falacioso argumento de que a responsabilidade pelo avanço da pandemia na cidade e no estado é da “população inconsciente” segue triunfando nas mentes da pequena e média burguesia, e a proposta de solução vem, obviamente, do setor privado que “nos salvará a um pequeno custo”. Quem são estes salvadores? Vejamos alguns exemplos.

É pouco lembrado o papel triunfal dos conglomerados privados do setor da saúde em termos da dita rapinagem, mas rememora-los pode dar uma boa ideia de como a extensão da pandemia, do contágio e dos “aluguéis” podem ser muito proveitosos para um setor poderoso, e que tem o governo e o município atualmente em suas mãos (e bolsos). A Rede D’Or, por exemplo, com 45 hospitais e mais de 40 clínicas oncológicas pelo Brasil, dobrou de tamanho nos últimos 5 anos (em plena crise da economia). Sua receita foi de R$126,5 milhões em 2009, por exemplo, a R$1,96 bilhão em 2018 (no consolidado, seu faturamento havia sido de R$2,6 bilhões). O lucro líquido no mesmo período foi de R$6,7 milhões para R$308 milhões). Apenas em 2017 a empresa teve um aumento de 20%. Esta também é a mesma empresa que adquiriu a Qualicorp, uma das líderes do mercado de convênios médicos coletivos (oferecidos em empresas, por exemplo), com mais de 2 milhões de clientes em carteira. Em agosto de 2019, por exemplo, a Rede D’Or foi a empresa em destaque na premiação Maiores e Melhores da revista Exame.

Outro exemplo interessante de observar, para que observemos bem quem são nossos “parceiros” neste “combate ao inimigo comum” (que de comum não tem nada), é a Amil. A rede Amil não é apenas capital nacional. Em 2012 ela foi comprada pela UnitedHealth Group, simplesmente a maior empresa de seguros de saúde no mercado americano, e que somente nos primeiros 2 anos da década havia comprado 15 empresas pelo globo. O setor de planos de saúde responde por mais da metade dos gastos em saúde no país para atender a um quarto da população nacional. Dados da ANS (Associação Nacional de Saúde Suplementar) deixam muito clara a estabilidade financeira das operadoras e os faturamentos crescentes. A Hapvida, maior operadora de planos de saúde do país em número de usuários, por exemplo, teve aumento de lucro operacional de 54% no primeiro trimestre de 2020. Para observamos o organismo em termos globais e imperialistas, vale também ressaltar: a farmacêutica alemã Bayer registrou, no final de abril, mais de 20% de alta no lucro do primeiro trimestre de 2020 (€1,5 bilhão).

Com estes dados em mãos, façamos a verdadeira pergunta: a quem pertence a consciência apodrecida? Com quem essa parceria está realmente sendo feita? É uma parceria com o povo? Ou uma parceria de negócios e entre negócios? Podemos dizer que serão alugados leitos de UTI, ou que leitos de UTI alugarão os moribundos cada vez mais numerosos do país?

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