A gripe de 1918
A gripe espanhola matou muitos artistas importantes como os pintores Gustav Klimt e Egon Schiele e o poeta Guillaume Apollinaire
gripe 1918 fonte biblioteca nacional digital
Enfermaria provisória montada em escola no Rio, novembro 1918. Foto: Biblioteca Nacional Digital |

Há pouco mais de 100 anos o mundo foi impactado por uma das mais mortais pandemias já vistas até então. A chamada gripe espanhola atingiu quase 500 milhões de pessoas, ou seja, um quarto da população mundial, matando algo próximo a 100 milhões de vidas (5,4% da população).

Esta pandemia se iniciou em janeiro de 1918 no meio da Primeira Guerra Mundial e se encerrou três anos depois, em dezembro de 1920.

A gripe espanhola foi causada por um subtipo do vírus Influenza A, o conhecido H1N1, que décadas mais tarde viria a causar outra pandemia, a da gripe aviária.

No Brasil a gripe de 1918 atingiu, no período entre outubro e dezembro de 1918, 65% de sua população. No total foram 300.000 vítimas da doença, atingindo até Rodrigues Alves, reeleito presidente do país, mas que morreu antes mesmo de tomar posse.

A gripe atinge o mundo das artes

Assim como com o atual cenário do coronavirus o mundo das artes não foi poupado de seus flagelos na gripe de 1918. Muitos nomes importantes acabaram sucumbindo à doença.

Na música uma das perdas mais significativas foi a do compositor inglês Hubert Parry, famoso pela canção coral “Jerusalem” (que mais tarde foi gravada pelo Emerson Lake & Palmer). Parry foi também professor na prestigiosa Royal College Of Music, escrevendo vários livros, sendo o seu mais importante sobre Bach, “Johann Sebastian Bach: The Story Of The Development Of A Great Personality” (1909).

Outros músicos que morreram no período foram King Watzke, violinista e líder de uma banda de ragtime em Nova Orleans, o compositor americano Charles Thomlinson Griffes e o pianista popular Felix Arndt.

No cinema tivemos as mortes das atrizes Gaby Deslys (francesa), Myrtle Gonzalez (americana), Vera Kholodnaya (russa), Gilda Langer (alemã) e dos atores Shelley Hull (americano), Julian L’Estrange (inglês), Harold Lockwood (americano) e de Dark Cloud, um índio, chefe da tribo dos Abenaki no Canadá.

Apollinaire

A poesia perdeu um de seus grandes representantes na figura de Guillaume Apollinaire, considerado um dos maiores do século XX, famoso pela sua defesa dos artistas do movimento cubista e por cunhar o termo surrealismo, que ele criou para descrever a música de seu conterrâneo, Erik Satie.

Nasceu em Roma, mas fez sua carreira em Paris onde conviveu com alguns dos maiores nomes de sua época como Gertrude Stein, Pablo Picasso, André Breton, Blaise Cendrars, Jean Cocteau, Marc Chagall e Marcel Duchamp.

Alguns de seus livros mais importantes foram “O Bestiário ou o Cortejo de Orfeu” (1911), “Alcoois” (1913) e “Calligrammes” (1918).

Gustav Klimt e Egon Schiele

Outras duas duras perdas foram no mundo das artes visuais. Gustav Klimt foi um pintor simbolista austríaco, um dos fundadores do movimento da Secessão de Viena, que recusava a tradição acadêmica nas artes e um dos maiores nomes do estilo art nouveau. Klimt se dedicou a uma obra francamente erótica, sendo que seu foco principal era o corpo feminino. Uma de suas obras mais polemicas é a pintura no teto do grande hall da Universidade de Viena, criticada como pornográfica. Klimt foi uma grande influencia para o trabalho de seu contemporâneo mais jovem, Egon Schiele.

Schiele foi um dos protegidos de Klimt, que interessado em seu trabalho ajudou-o comprando seus quadros, além de apresentá-lo a gente influente. Seu trabalho foi considerado um dos primeiros expoentes do expressionismo e foi caracterizado pela sua intensidade e sexualidade latente. Morreu apenas oito meses depois de Klimt.

Mortos pelo coronavirus

A atual epidemia do coronavirus, assim como a gripe espanhola, acontece em um momento de extrema crise do capitalismo. Os governos da maioria dos países estão (e estavam) completamente despreparados para uma crise deste tipo. E assim, como em 1918, os governos gastam bilhões para socorrer as empresas deixando migalhas para as suas populações.

E as primeiras mortes no mundo das artes já começaram.

Nos últimos dias tivemos as notícias dos falecimentos de Daniel Azulay, desenhista, educador e famoso pela apresentação de vários programas infantis, especialmente a Turma do Lambe-Lambe, além da maestrina Naomi Munakata e do maestro Martinho Lutero Galati.

Outras perdas são o dramaturgo americano Terrence McNally, o comediante japonês Ken Shimura e o ator Mark Blum, este último famoso por filmes como “Desesperadamente Procurando Susan”, “Crocodilo Dundee” e a série “Mozart In The Jungle”.

Na música perdemos Alan Merrill, cantor e compositor famoso por ter sido um dos autores do clássico “I Love Rock’n’Roll”, que foi gravado por Joan Jett & The Blackhearts, o trompetista de jazz Wallace Roney, o cantor country americano Joe Diffie e mais notavelmente o importante saxofonista e compositor camaronês Manu Dibango.

Relacionadas