Saiba porque as Forças Armadas venezuelanas são de esquerda e contra o imperialismo

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Ao contrário das Forças Armadas brasileiras, as Forças Armadas venezuelanas são de esquerda e possuem um vinculo direto com o governo chavista. Tal fato se deve ao processo histórico de lutas no país contra os governos direitistas que tinham como principal objetivo a imposição de uma política neoliberal de brutal ataque aos direitos da população pobre e trabalhadora. Um episódio fundamental dessas mobilizações foi o chamado Caracazo, ocorrido em 1989, uma verdadeira rebelião popular.

Caracazo, 1989

Em 1989, o governo de Carlos Andrés Pérez dava início ao seu segundo mandato. Consistia em um governo totalmente capacho dos interesses dos banqueiros, representados pelo chamado Fundo Monetário Internacional, o FMI. Carlos André Pérez anunciou, logo nos primeiros dias de seu governo, um pesadíssimo pacote de ataque aos direitos do povo (aumento das tarifas básicas, corte nos investimentos sociais, aumento dos preços) tudo para sustentar a parasitagem do sistema financeiro.

Contra esse brutal ataque, a população venezuelana tomou as ruas do país no dia 27 de fevereiro de 1989. As principais cidades da Venezuela foram tomadas pelo povo, que organizou barricadas para resistir a repressão policial. Durante cinco dias o governo buscou conter a revolta popular por meio de uma brutal violência. O resultado foram mais de 300 pessoas mortas.

Como resultado da política neoliberal de Carlos Andrés Pérez e de sua brutal repressão ao povo, em 1992 um grupo de militares, liderados por Hugo Chávez, tentam tomar o poder através de um golpe de estado. Chávez era líder do chamado Movimento Revolucionário Bolivariano – 200, o MBR/200. O número 200 faz referência às lutas pela independência na América Latina ocorridas dois séculos antes, tendo como principal líder Simón Bolívar.

Exército Bolivariano de Libertação

A origem desse grupo remonta o início dos anos 1980, quando, como consequência da crise no país, um grupo de militares passa a se organizar no interior do exército com o objetivo de combater a política de rapina contra o povo imposta pelos governos até então. O grupo adota como linha política o chamado nacionalismo bolivariano, além é claro das ideias socialistas. O pensamento de Bolívar, no entanto, é predominante, este grupo de militares revindica para si o status de libertadores da nação da opressão externa. Antes de serem conhecidos como Movimento Revolucionário Bolivariano, o grupo se declara Exército Bolivariano de Libertação.

No final dos anos de 1980, passam a recrutar civis, o que antes não ocorria, mudam então o nome para MBR/200. Em 1992, liderados por Chavez, são derrotados em uma tentativa de golpe contra o governo neoliberal. Chávez é preso e permanece na cadeia até 1994. Em 1997, tendo como base o MBR/200, Chávez organiza o Movimento V República, com o qual ganha as eleições de 1999. Mais tarde estes movimentos seriam incorporado ao Partido Socialista Unido da Venezuela, o PSUV.

A participação dos militares de esquerda, no entanto, sempre foi muito marcante na Venezuela. Como podemos verificar, desde o início dos anos de 1980, setores de base do exército – Chávez era tenente quando começou a organizar o MBR/200 – passaram a se organizar para dar uma resposta à violenta política de saque ao país imposta pelos governos neoliberais. A crise provocada com o Caracazo em 1989 é o ponto chave para que o grupo chavista, tendo como base as revoltas populares, tome uma ação mais definitiva contra o governo.

Golpe militar de 1964: expurgo nas forças armadas

No caso brasileiro, após o golpe de 1964, houve uma verdadeira política de expurgo dentro das Forças Armadas. Para impedir qualquer oposição à ditadura, os generais comandaram uma verdadeira caça as bruxas, expulsando, prendendo ou até mesmo assassinando qualquer militar que se opusesse ao estado ditatorial contra o povo.

Neste período também se consolida o apoio e o vinculo direto das organizações de espionagem e segurança do estado norte-americano com a cúpula das forças armadas. O próprio golpe militar de 1964 foi uma operação em conjunto entre o Departamento de Estado dos EUA e os militares de alta patente no Brasil. O controle direto dos EUA sobre as Forças Armadas brasileiras se manteve durante o chamado período “democrático”. A política de expurgo foi eficaz. Por meio da repressão impediu que se organizasse qualquer dissidência. Isso explica, por exemplo, o caráter completamente de fachada do chamado “nacionalismo” dos militares brasileiros, pelo menos da alta cúpula. O discurso nacionalista dos generais não passa da mais pura demagogia para encobrir a completa subserviência aos interesses externos.

Desse modo, ao contrário dos militares venezuelanos, as Forças Armadas brasileiras, principalmente sua cúpula, ficaram sob total controle do imperialismo, o que a transformou, na prática, em uma seção do Exército norte-americano em território brasileiro. A colaboração com o golpe de estado em 2016 contra Dilma Rousseff, além da presença constante dos militares no cenário político nacional, em todo o processo golpista que culminou na eleição fraudulenta de Bolsonaro, são as evidencias deste fato.