Rui Costa Pimenta: “o caso Jean Wyllys, conclusões e o que fazer”
CDH - Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa
Rui Costa Pimenta: “o caso Jean Wyllys, conclusões e o que fazer”
CDH - Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa

No dia 26 de janeiro de 2019,Rui Costa Pimenta fez uma análise sobre o caso Jean Willis no programa Análise Política da Semana. O programa Análise Política da Semana é exibido todo sábado as 11h30 na COTV e faz uma análise dos principais acontecimentos políticos da semana.Sobre Jean Willis, Rui diz:

-O candidato do PSOL, eleito pela terceira vez, anunciou que ele não vai assumir o mandato por causa das ameaças que ele vem recebendo.Evidentemente que nós temos que denunciar essas ameaças, elas não são coisas que ameaçam apenas o Jean Willys, elas são uma crescente ameaça da direita contra a esquerda .

-Ele recebeu uma mensagem de um cidadão dizendo : -eu vou arrancar sua cabeça, desmembrar sua mãe e tal. Se isso tivesse importância decisiva, nós teríamos que fechar o PCO, já que nós recebemos mensagens assim umas 10 por dia. A gente só não recebe mais, por não ter saco, não pelas ameaças em si, mas por não aguentar mais ouvir essa conversa fiada, a gente bloqueou um número gigantesco desses direitistas no Chat do PCO. Até para poupar as pessoas que entram no Chat. Porque isso, acima de tudo, é um negócio muito chato. Então, isso daí acontece com todo mundo.

-Logicamente, no caso do dele  tem ameaças mais palpáveis, pois mataram uma deputada no Rio de Janeiro, que é a cidade dele. E ele é uma pessoa visada por causa da defesa do movimento LGBT. Precisamos denunciar isso aí e tudo mais. O próprio PSOL, se a coisa está nesse pé como o Jean Willis colocou, já deveria ter se pronunciado a muito tempo e chamado uma mobilização de maior envergadura. Eles ficam na verdade fazendo comentários nas redes sociais e quando vão fazer alguma coisa de prático, fazem processos para tentar calar esses trogloditas da direita. O próprio Jean Willis falou que o ator pornô do PSL falou que ele era pedófilo, processou o cidadão, ganhou o processo, mas falou que a reparação não era suficiente. Não dá para entender direito, se uma pessoa dessa fala que eu sou pedófilo fala pô, quem acreditar nisso daí aí tem problemas.Finalmente vc vai ver se isso tem uma importância, como o Jean Willis fala, ou isso vai cair por terra. São indivíduos desqualificados. O psol não falou nada. O próprio Jean Willis não falou nada e, de repente, aparece essa desistência do Jean Willis de medo indo para o exterior pq a vida dele está ameaçada, a vida da família dele está ameaçada etc e tal.

-E aí diante desse caso que é um caso muito negativo vamos falar mais um pouquinho sobre isso o que foi surpreendente, é que o Jean willys foi elogiado por todo mundo. Isso foi muito surpreendente porque  muitos setores estão dizendo o seguinte: que a coragem nesse caso consiste em fugir do negócio. Bom se os líderes estão falando isso, o que os liderados haverão de pensar e fazer? Vai todo mundo fugir. Qual é a orientação diante da ofensiva da extrema direita, fugir ou enfrentar? Segundo eles nós temos que admirar a pessoa que foge. Isso que Jean Willys está fazendo é fugir. Tudo bem, dá para entender que a coisa é perigosa. Mas nós não podemos chegar aqui e dizer: é isso mesmo, se você se sentir ameaçado fuja! Não tem condições, é uma capitulação para todo movimento, nem vou dizer para o movimento operário mas para o movimento que dirige esse pessoal. O que vai fazer esse pessoal todo? Tem que sair do Brasil fugindo do Bolsonaro? Essa é a solução? Será que todo mundo vai conseguir fazer?

-Como enfrentar a situação? Esse é o problema que se coloca. Ninguém discutiu isso aí que você está fazendo é errado, ninguém falou vamos encontrar uma outra solução procurar acalmar o cidadão, nada, tem gente até que falou: obrigado Jean. Obrigado por que? por ter fugido e deixado pessoal na mão. Qual é o agradecimento exatamente? Porque essa atitude do Jean willys coloca dois problemas essenciais. O primeiro problema essencial é que fica a questão o que deve se levar a sério o que nós vamos levar a sério quando o pessoal fala nós vamos resistir e na hora h, um dos líderes da residência fala assim eu não vou resistir mais, eu vou para Europa porque eu me sinto ameaçado. O resto vai resistir?Porque que vai resistir se um dos líderes, pessoa que foi eleita, não vai resistir? Então é uma desmoralização geral de todas pessoas que participam da luta contra o Bolsonaro. O Jean Willis foi embora.  E o resto do PSOL, a impressão que dá em toda a área psolista é que, na primeira oportunidade, vai todo pessoal picar a mula. O Marcelo Freixo, em outro momento, já tinha falado em desistir também porque ele também está ameaçado, aparentemente no Rio de Janeiro está todo mundo ameaçado, o que deve ser verdade. Mas aí a pessoa olha para o PT, se o PSOL não vai resistir será que esse pessoal vai resistir? Aí chega o PCO falando que vai resistir, mas será que vai resistir mesmo ou também já está se preparando para fugir? É uma desmoralização geral. É incrível que as pessoas não tenham a capacidade de abrir um debate sobre isso daí. Não é que nós tenhamos vontade de atacar o Jean willys pessoalmente. Embora politicamente nós tenhamos motivos para atacar o Jean Willys. Tivemos no passado e, eu acho, que as coisas que criticamos no Jean Willis estava relacionado a essa postura de agora que o Jean Willis assumiu, a defesa do estado de Israel que é um estado terrorista; contra os palestinos, vivem massacrando os palestinos. Falou que o Maduro era uma ditadura. Quer dizer, teve uma série de posições direitistas e agora ele meio que fez um chamado geral. Porque  uma pessoa política quando faz uma coisa, chama os outros a fazer igual. É um chamado a entregar os. pontos diante do governo Bolsonaro.

-A segunda questão é o problema que aparece muito claramente, porque o PSOL e o Jean Willys não chamaram o pessoal a fazer o movimento de defesa do deputado ameaçado? Nós, por exemplo, se tivéssemos sido informado da situação, se tivessem nós convocado para uma reunião, nós teríamos participado. Não é porque temos divergências com a política do Jean Willys E do PSOL que a gente não participaria de uma ação comum de defesa do deputado.  Vamos recrutar voluntários, vamos fazer uma campanha financeira, vamos pagar o salário de um conjunto de pessoas para defender o deputado, gente do próprio movimento de esquerda. Porque não foi feito isso? Porque não foi feito movimento amplo para colocar a direita na defensiva? Não há ninguém falando nesse movimento. Nós temos chamado insistentemente na formação de comitês de auto defesa.  Porque que se o pessoal não faz isso, evidente que existe a mentalidade individualista do político pequeno burguês, ele é deputado, sozinho ele é um super-homem, ele acha que o estado vai defender ele porque ele é Deputado. Inclusive se fazem muitos apelos a que a polícia e a justiça venham defender o pessoal que está ameaçado pela própria polícia. O próprio pessoal do PSOL denuncia que essas ameaças vem de gente da milícia e todo mundo sabe que a milícia está intimamente ligada a polícia. Já apareceu até a ligação do Bolsonaro com essas milícias. É evidente, milícia, polícia e extrema direita estão todos ligados. Tem que haver um movimento contra. Não fazer um movimento contra é entregar o terreno para a extrema direita. E depois vamos sair do Brasil, abandonar a militância até que a poeira baixar. Mas quando a poeira vai abaixar? Vamos supor que essa linha de conduta tivesse alguma utilidade, quando a poeira vai abaixar? Quando deram o golpe de 1964, a ditadura só acabou em 1985, 21 anos depois. Isso daí é uma coisa muito importante, eu tinha sete anos quando deram o golpe de 1964 e tinha 38 anos quando a ditadura acabou e entrou o primeiro governo Civil. E isso que nós queremos para todo mundo? Uma pessoa que nasceu hoje terá 22 anos quando acabar  por que outros setores da população vão se levantar contra ela E nós vamos falar: olha, veja, o melhor era não lutar porque era muito arriscado. Eu precisava resguardar a minha pele. Quando deram o golpe militar de 1964,  o João Goulart falou uma frase que na minha opinião é uma das frases mais odiosas da esquerda oportunista que era o seguinte: “não quero derramar o sangue dos brasileiros”, por que é odiosa essa frase, porque correu o sangue depois que o golpe foi vitorioso É como aquele provérbio: queres a paz, prepara a guerra. Se você não derramar o sangue da direita, a direita vai derramar o seu sangue. Isso é inevitável. E essa questão do Jean Willys, não só do Jean Willis, porque de todos os deputados da esquerda o Jean Willis É o mais inexperiente. E ele não participou do movimento de esquerda, saiu do BBB. É uma carreira um pouco esquisita. Mas os elogios que fazem a ele são quase uma aclamação do Jean Willys como herói. Companheiros de toda a esquerda nacional. Sinto muito, mas ele não é nenhum herói, ele está fugindo da luta. Nós podemos ter até pena dele, mas não podemos transformar a atitude dele num exemplo para todo mundo que está aí. O Jair Bolsonaro, e isso não é uma coisa nova, veio com um programa de demolição do país e ataque a população. Eles, fascistas que não existem de acordo com alguns grupos de esquerda, vão atacar os grupos mais frágeis. E qual é o setor mais frágil de todos para ser atacado pela extrema direita? O movimento LGBT que está sendo atacado em todos os lugares. Não é por acaso que o Jean Willys foi o primeiro a tomar essa atitude. É porque a pressão sobre o LGBT é maior.Ele são os mais indefesos, não tem uma organização para se defrontar com a extrema direita. Nós no ano passado falamos que tem toda uma demagogia eleitoral com esse movimento. Inclusive tem os poderosos que querem proibir de falar determinadas coisas.

 -Sintam por um momento a ironia, à alguns meses atrás a coisa era aprovar uma lei que proibisse a pessoa de falar“Viado“. Agora, ninguém está preocupado em aprovar essa lei. Agora, a preocupação é  escapar com vida dos ataques da extrema direita. O próprio Jean citou o caso de uma travesti que arrancaram o coração dela recentemente. Já não se trata de chegar uma pessoa e falar assim “seu traveco”, se trata de deixar a pessoa viva. A primeira coisa que a esquerda deveria fazer, a primeira coisa não, porque várias coisas já foram feitas como o problema da escola sem partido, mas uma tarefa muito imediata e muito importante é a defesa de todos esses grupos LGBT. Não a defesa de aprovar leis e toda essa parafernália ideológica da pequena burguesia, o problema que está colocado é a defesa física dessa gente. Este pessoal está ameaçado na sua integridade física pela extrema direita. Qual será a posição da esquerda? Vamos defender ou elogiar esse pessoal que sai fora? O Jean Willis era o líder disso daí, foi eleito três vezes pelo voto desse segmento. Aí, na hora que começa a matança, ele pega e vai embora. Nós vamos elogiar isso daí? Claro que não.

-É preciso deixar claro, nós condenamos a atitude do Jean Willys. com todos os problemas que possa ter que nós desconhecemos. Mas também eu não considero que a situação do Jean Willys é só a situação do Jean Willis, é a condição do Brasil. É urgente que a esquerda se organize para combater a extrema direita. Não se pode permitir esses ataques, tem que haver uma organização que vá atrás de todos esses negócios. Não adianta falar para o pessoal chamar a polícia, porque a polícia está intimamente ligada a isso que está no poder. O governo são as forças armadas

-A esquerda não olha nada com realismo. São os  craqueiros de eleição que fazem demagogia com todo mundo E na hora que a coisa aperta começam a  elogiar um cara que foi embora.Tudo bem, o cidadão pode ter perdido a cabeça, mas os companheiros de partido dele deveriam ter dito: calma Jean Willys, vamos discutir aqui uma política para resistir a essa situação. Vamos chamar o PT, vamos chamar os sindicatos, vamos chamar o PCO. Estão falando mal de você? Vamos falar o contrário. Estão te ameaçando? vamos criar um movimento para intimidar esses elementos de direita. Do jeito que a coisa foi feita, foi uma completa capitulação diante da direita. Se nós não condenamos isso daí, se a esquerda não condenar isso daí, vai ter uma febre de capitulações Nós precisamos vamos discutir com todos os setores de esquerda a necessidade de resistir, mas de fato e não através de conversa fiada a extrema direita.Quando o Jean Willys toma essa atitude, ele está demonstrando que ele acha que tudo que está sendo feito é impotente. Precisamos ainda ver nos trabalhos do Congresso Nacional como vai ser, mais a extrema direita já ameaçou de calar na base da força física os deputados de esquerda. Como é que vai ser aí? O  que os deputados vão fazer? Vai todo mundo para fora? Qual  é a  atitude a ser tomada? Eu acho que inclusive os  integrantes do PSOL devem falar com o Jean Willys para faze-lo voltar atrás. Isso daí é uma coisa extremamente negativa para as pessoas que querem lutar contra a direita. Eu vi gente falando bobagem do tipo: “O Lula não resistiu. O Lula não foi embora e foi preso. Ele não fez certo porque ele não deveria ser entregar,  mas finalmente de uma maneira errada enfrentou a situação.Ele está preso. É preciso fazer campanha pelo Lula. A atitude do Jean Willys inclusive mostra porque devemos fazer campanha pelo Lula. Como é que vai colocar à direita na defensiva? É uma coisa que teria que abrir o olho de toda a esquerda nacional.

-Eu também vi um comentário que me chamou atenção. De uma pessoa quefalava assim: -Cai na real, Rui, se ninguém nem se mobilizou contra o golpe, vão se mobilizar pela Venezuela? Veja, a real na situação, se você trabalhar para mobilizar o povo, um pouco mais cedo ou mais tarde ele vai ser mobilizado. Agora, se você fugir a pretexto de que o povo não quer se mobilizar. Que você, sim, eu sou poderosao, eu vou lá na praça da Sé em São Paulo, me penduro numa daquelas maquises que tem lá e grito: -Povo, vocês querem  se mobilizar? As pessoas que estão passando lá vão pensar, esse cara está meio loco. Aí diz que o povo não quer nada com nada, vou embora para a Suíça. Isso não tem sentido. O problema é que a mobilização do povo exige um grande esforço das pessoas que estão conscientes. Falar que o povo não se mobiliza sem ter feito nada, sem ter criticado as pessoas que estão na posição dirigente como o Jean Willys e não chamam o povo a se mobilizar, sem ter criticado as lideranças sindicais que não chamam o povo a se mobilizar.  O pequeno burguês tem uma visão muito deformada da realidade,  se ele falou que tal coisa é certa ele acha que todo mundo deveria largar tudo e sair de casa atrás dele na defesa do que ele acha que é certo. Mas o problema não é tão simples assim, não adiante vc dar um ultimato para o povo para que o povo venha. Isso é totalmente ineficaz, é preciso travar uma luta para mobilizar o povo e essa luta tem que ser travada criticando a política desmobilizadora, a política capituladora da esquerda. Eu também vi pessoas que nos criticaram porque nós criticamos o Haddad. Aí a pessoa fala: a esquerda vai se dividir. Não, acho que ele já foi dividida. Quando a pessoa vai beijar a mão do Bolsonaro, está dividindo a esquerda. Quando a pessoa fala criticando o Maduro já está dividindo a esquerda. E aí falam que eu estou dividindo a esquerda. Então se queremos unificar a esquerda na luta contra o golpe, na luta contra extrema direita, nós temos que defender uma política correta. Uma política de independência política, de mobilização, de uma política intransigente em relação ao Bolsonaro e a extrema direita. Nada de ficar macaquiando a extrema direita e nada de ficar elogiando o cidadão que fugiu, por mais que você seja amigo dele e compreenda que ele está apavorado ou seja lá o que aconteceu. Nada disso, trabalhar para organizar o povo, para enfrentar a situação. Porque se não meus amigos, nós não seremos uma vanguarda da classe operária, nós somos os pequenos burgueses miseráveis que queremos resolver o problema individualmente. Então, o negócio apertou, eu vou embora resolver meu problema sozinho. Nós não estamos aqui para resolver o problema individual, nós estamos aqui para resolver o problema coletivo, nós estamos aqui para resolver o problema da classe trabalhadora o povo do Brasil de conjunto. Porque se é para resolver o problema individualmente, se é que isso daí existe, aí não haveria porque você travar nenhuma luta. O próprio Jean Willys deveria entender que se ele chegou a ser deputado LGBT assumido não é porque ele conseguiu isso daí. Um monte de gente lutou pelo direito do LGBT. Se não, ele não teria nenhum direito de falar.

-O esquerdista pequeno burguês fala vou resolver o problema individualmente, não, problema tem que ser resolvido coletivamente.