Rui Costa Pimenta comenta sobre a esquerda que apoiou o golpe

Rui Costa Pimenta fez uma retrospectiva política do ano na análise política semanal (transmitida ao vivo todos os sábados, à 11:30 pela Causa Operária TV) no dia 29/12/18. A análise, também fez um breve balanço político do desenvolvimento do golpe de Estado vigente no país e da política da esquerda durante esse processo. Em um momento da análise, Pimenta fez um comentário específico sobre a política da esquerda que apoiou o golpe de Estado.

Veja a seguir o vídeo do comentário e a transcrição do comentário:

“Outros setores da esquerda enquanto isso daí se desenvolvia (o golpe de 2016 e a política de guerra contra os trabalhadores) … É o caso notório do PSTU e dos seus ‘aparentados’, porque tem muito grupo aí no estilo do PSTU. Eles criaram uma fantasia que dizia o seguinte: o país está em plena revolução. Isso aqui nós estamos que nem na Rússia em 1917. A derrubada pela Dilma pelo ‘povo’ (segundo eles foi o povo que derrubou a Dilma), você saia pela rua e você via a Globo, Época, Veja, Istoé, a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo derrubando o governo da Dilma. Mas segundo eles, quem estava derrubando o governo da Dilma era o povo. E procuraram até se apoiar no pessoal que estava se manifestando com a camisa da seleção brasileira pra dizer que o povo estava na rua. Qualquer pessoa que conhece o Brasil, simplesmente por uma escala cromática da população, poderia chegar a uma conclusão que não tinha povo nenhum naquela rua lá. O Brasil é mais ou menos assim, se você vai no carnaval da Bahia e num cordão lá só tem branco, você pode saber que é uma maracutaia de uma ínfima camada da população. Ninguém vai chegar lá e falar: – Isso aqui é o carnaval do povo. Uns branquelos lá no meio do carnaval, uns negões de segurança, um outro tocando um tamborim lá em cima pra o branco dançar. Isso aí é o carnaval da elite, da elite, da elite. É até espantoso quando você vê. Olha a capacidade da burguesia e da pequena-burguesia de promover um carnaval em Salvador onde os negros estão trabalhando e os brancos estão dançando. É uma ‘proeza’ né, é um ‘feito’. Os atos da (avenida) Paulista também era parecido com isso. Tanto que o movimento todo tem um negro de estimação, que é o vereador com nome de garoto de programa, o Fernando Holiday. Se você tem um negro de estimação, já dá pra perceber que é uma operação escravagista. Em que sociedade democrática o movimento tem um negro de estimação. Só ouvi falar disso daí, na escravidão no Brasil. Então, o pessoal achava que era o povo que estava na rua, que era a revolução russa de 1917 e que a derrubada da Dilma era o primeiro episódio da conquista do poder pelo proletariado. Quando a gente escuta essas coisas hoje, isso tudo parece muito engraçado. Mas na época e até hoje é argumentado seriamente. Quando você vê essas coisas você pensa no mal que ‘uso de determinados entorpecentes faz para a política. A pessoa deveria estar com a cabeça mais clara.”

“Então uma parte da esquerda achou que era uma grande conquista social. E outra parte achou que não iria acontecer nada e que era uma manobra de tipo parlamentar. Daí, em grande medida, a falta de reação. Uma vantagem que nós tivemos aqui é que se abriu um debate intenso sobre a questão do golpe. Na qual nós tivemos uma participação de destaque. O que alertou determinados setores que começaram a reagir. Principalmente determinados setores ligados à ala lulista do PT, que eram da ala diretamente afetada pelo golpe e que começaram a reagir. Muita gente fala que o golpe só foi vitorioso porque não houve reação o suficiente. O que é uma verdade. O que não é uma verdade é que os setores que falam isso aí tenham feito parte dessa mobilização. Porque a maioria inclusive apoiou o golpe. Se você apoiou o golpe, como é que você pode acusar o outro de não ter mobilizado o suficiente. Nós que participamos da mobilização, vimos que quem estava presente era nós e uma ala do PT. O PCdoB participava um pouco como figurante. Agora vendo o desenvolvimento da situação, nós conseguimos perceber por que eles tiveram essa atuação. E nós tínhamos uma esquerda atuando exatamente no sentido contrário. Por exemplo, o ‘grande Guilherme Boulos’, que alguns dizem até que seria o ‘novo Lula’, pouco tempo antes do golpe foi visto organizando os protestos contra a copa. Ele era o grande líder do movimento do “Não vai ter copa”. E durante toda a luta contra a derrubada do governo, ele levava adiante uma política divisionista. Formou-se uma frente única pra levar a luta contra o golpe, que era a “Frente Brasil Popular” e ele formou uma outra frente, que era o “Povo sem medo”. Então, você chamava o ato pra um lugar e ele chamava o ato pra outro lugar. Aí você ia no ato dele, aí como era um ato ‘muito democrático’, aí não deixava ninguém falar. Inventavam essas histórias que são típicas da esquerda ‘ultrademocrática’. – Não aqui só pode falar sindicatos, aí você ia com sindicatos e eles falavam que só poderiam falar organizações de mulheres. Aí você ia com organizações de mulheres e eles falavam que tinha que estar registrada não sei onde (risos). E aí você registrava e eles falavam que você não participou da última reunião que definiu quem ia falar e no final das contas você não falava nunca. E depois também o ato não serve pra nada e toda essa microditadura é só pra o cidadão se lançar candidato depois e ganhar um cargo parlamentar. E a história foi assim, enquanto uns tentavam impedir o impeachment, outros tentavam fazer a própria fama com uma política ambígua. A hora que o Boulos percebia que o público dele era crítico ao governo Dilma, ele falava que o governo era indefensável. E assim foi o negócio o tempo todo. E o governo Dilma e foi uma grande derrota. E a esquerda até não entendeu… Porque eu frequentemente vejo pessoas criticando o PCO falando que nós estamos a reboque do PT. O que é uma crítica curiosa. Uma vez perguntaram pra um dirigente do PSOL o que eles achavam do PCO e ele disse que achava o PCO ‘um puxadinho do Lula’. Quer dizer, você ser um partido que identifica que um golpe de Estado da direita precisa ser combatido, o torno alguém a reboque do partido que está pra ser derrubado. Quer dizer, você identifica a mentalidade política da esquerda em geral. Pra eles tudo é uma competição eleitoral. Não existe nenhuma política de caráter estratégico. Pra gente a derrota do golpe seria algo extremamente benéfico pra toda classe operária brasileira. Pra eles, a derrota do golpe seria algo que favoreceria o PT. O que é logicamente uma avaliação totalmente equivocada.”

“O grande problema do PT é justamente isso. Se o golpe sai vitorioso eles são desfavorecidos, se o golpe é derrotado pelas massas, eles também são desfavorecidos. É por isso que a maior parte do PT, não moveu uma palha pra impedir a derrubada do governo Dilma Roussef. Inclusive procuraram atribuir ao governo as razões pelo qual ele foi derrubado e não à direita. Bom, derrubado o governo nós tivemos aí um grande esforço de toda esquerda e, uma boa parte que não tinha participado da luta contra a derrubada do governo, de acabar a luta contra o golpe. Mais ou menos assim: – Derrubou, derrubou! – Vamos deixar isso aí do jeito que está. – Vamos abandonar esse negócio de golpe. – Já aconteceu, já foi! – Vamos ‘virar a página do golpe’. Que foi a palavra que ficou famosa naquele momento. Aí uma parte da esquerda lançou a brilhantíssima palavra de ordem “Eleições diretas”. No final de 2017. Isso aí, lógico que confundiu a cabeça de muita gente. E isso aí foi uma política meio idiota, que confundiu a cabeça de muita gente. Porque se você lança em setembro ou Agosto de 2017, o que você está colocando é uma antecipação disso daí. Ninguém estava colocando em questão, a realização das eleições, pelo menos por desse pessoal. Nós chegamos a aventar a possibilidade de que as eleições não acontecessem. Mas se reivindica que ocorram eleições no final de 2017. A campanha eleitoral começa efetivamente, digamos assim, na melhor das hipóteses no começo do ano. O que você está reivindicando é que as eleições que seriam em outubro, ocorressem no começo em setembro, em agosto? Quer dizer, seria uma todo um esforço colossal pela antecipação das eleições e o que você teria obtido. Adiantar dois meses das eleições, o que efetivamente adiantaria? No final das contas essa é uma proposta para encobrir o fato de que estávamos diante do golpe e canalizar forças que lutavam contra o golpe para dentro do cenário eleitoral. O Lula por exemplo, foi muito mais honesto nesse sentido que outros setores da esquerda e colocou diretamente o problema das eleições de 2018. Não colocou o problema do adiantamento, nem nada.  Isso aí ficou pra ala menos objetiva da esquerda pequeno-burguesa. A partir daí, esqueceram completamente o problema da derrubada do governo, como se isso aí fosse um problema menor e, lançaram nas eleições como se elas fossem redimir o país. Quer dizer, qual era o raciocínio? Você tem um conjunto de direitistas e trogloditas que derrubam o governo. Através de uma complexa e caríssima operação política. Aí, o que que eles fazem com o governo. Pegam o governo e um ano e pouco depois devolve o governo de volta para o mesmo partido que eles haviam derrubado. Essa era a ideia vigente. Uma coisa interessante é que muita gente que é reputada como sendo inteligente e conhecedora da política nacional nunca criticou que isso aí era um contrassenso.”