Chega de morte no campo b
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Um grupo ameaçado de despejo no Projeto de Assentamento Flor do Amazonas, em Candeias do Jamari-RO, recebeu também ameaças de morte através de carta anônima. As informações são da CPT (Comissão Pastoral da Terra).

A área do projeto contém 104 lotes de produção familiar, com uma média de 80 famílias morando desde 2017, cultivando a terra e com abundante produção de macaxeira, banana, abacaxi, batata-doce, abóbora, mamão e criação de pequenos animais, que abastecem as cidades de Candeias e de Porto Velho.

No local moram cerca de 30 crianças, destas, 10 estudam e são atendidas por transporte público do município de Candeias. Na área também tem idosos, cerca de 15 pessoas, e pessoas portadoras de deficiência física.

Os sem-terra já sofreram vários ataques de pistoleiros, prisões irregulares e duas reintegrações de posse. A violência dos latifundiários chegou a ceifar a vida de um dos dirigentes do acampamento. Atualmente estão sob nova ameaça judicial despejo, após a justiça estadual transformar um interdito proibitório em reintegração de posse, no processo 7042089-97.2018.8.22.0001. O mandado de reintegração foi entregue pelo oficial dia 17 de julho, com a informação de que a decisão deveria ser cumprida até 24 de julho.

Ataques aumentaram nos últimos anos

Em 2016 um grupo armado atacou os camponeses, homens e mulheres, que iam pescar no Rio Candeias. O tiroteio ocorreu na manhã de 15 de outubro no Ramal Taboca, Igarapé Taboca, Km 114, nas proximidades do Acampamento Boa Sorte.

Em 2017 o acampamento Boa Sorte já foi atacado em julho de 2017, quando foi relatado que constantemente os assentados estavam sofrendo ameaças, em que homens encapuzados em uma caminhonete chegaram a disparar tiros de espingarda calibre 12 e vários disparos de pistolas calibre 38.

Novamente em 2017, em novembro, as famílias sofreram o segundo despejo e ficaram por 10 dias num ginásio de Candeias. Como se não bastasse o despejo, enquanto montavam um novo acampamento num local autorizado pelo proprietário nas proximidades, as famílias foram surpreendidas, primeiramente pela Polícia Ambiental e em seguida pela Polícia Militar. Dez pessoas foram detidas e outras foram agredidas pelos policiais, que utilizaram cassetetes e balas de borracha, ferindo diversas pessoas.

Ainda em 2017, em dezembro, pistoleiros armados feriram diversas pessoas e mataram uma das lideranças do Acampamento Boa Sorte, Hugo Rabelo Leite. O homicídio nunca foi apurado.

As famílias receberam uma carta anônima avisando de que há dois pistoleiros, a mando de um dos antigos envolvidos no conflito, que foram contratados através de um consórcio de grileiros para matar as lideranças do acampamento. Segundo os acampados, as ameaças foram denunciadas e a polícia apreendeu armas e pessoas num flutuante indicado pela carta anônima.

Ainda nas proximidades do Acampamento, um acampado do local foi ameaçado diretamente com uma arma na cabeça. A situação é de grande tensão e medo.

A violência parece motivada pelo interesse que um poderoso grupo de plantio de soja – que recentemente se instalou na região de Candeias do Jamari e já está provocando graves problemas a outros posseiros e assentados da região do Rio Preto – tem pela área de Assentamento do Flor do Amazonas, também dentro da área pública do PA Flor do Amazonas.

Com todos estes antecedentes de violência na região, existe muito temor de que novos atos de violência possam acontecer. Os acampados denunciaram esta situação ao Ministério Público Federal, e foi solicitada, também, intervenção da Defensoria Agrária e do Conselho Estadual de Direitos Humanos, assim como da Comissão de Agricultura da ALE, em defesa do Acampamento.

O grupo protocolou um pedido para que se reúna a Mesa de Negociação de Conflitos do Governo do Estado, presidida pela Casa Civil, para prevenir e evitar mais conflitos. A Mesa foi criada pelo governo de Rondônia em abril de 2017 mas até agora não se reuniu no atual governo. “Se algo pior acontecer será responsabilidade do Governador, coronel Marcos Rocha”, falaram alguns dos presentes numa reunião que debateu a situação.

Isso mostra como o golpe de Estado inaugurou uma era de banho de sangue no campo, com aumento da repressão e omissão por parte do Estado e da violência dos latifundiários através de jagunços e milícias pára-militares. É preciso defender imediatamente o direito de auto defesa dos trabalhadores do campo, pois nenhuma via institucional vai barrar a ofensiva fascista contra a população, sobretudo no campo.

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