“Revolução sem Partido”: o antibolchevismo da esquerda pequeno-burguesa acadêmica

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Em “ comemoração” ao centenário da Revolução de 1917, aconteceram diversos eventos nas universidades ao redor do mundo, bem como a publicação de mais de uma centena de livros sobre o tema. Em geral, a esquerda pequeno burguesa acadêmica a pretexto de “comemorar” a data procurou atacar a revolução, em especial o papel do Partido Bolchevique.

O livro A sombra de Outubro. A Revolução Russa e o espectro dos Sovietes dos franceses Pierre Dartot e Christian Laval lançado em 2017 na França e publicado agora no Brasil pela Editora Perspectiva expressa de maneira cabal a “ nova” velha tendência de esquerdistas  (no caso em questão de marxianos convertidos em seguidores de Foucault) contra os fundamentos da política revolucionária.

Os autores Pierre Dartot e Christian Laval são conhecidos do público acadêmico brasileiro pela obra A nova razão do mundo. Ensaio sobre a era neoliberal, publicada pela Boitempo. Ocorreu uma intensa badalação dos autores nas universidades brasileiras, inclusive devido ao contexto pós golpe de Estado em 2016 no Brasil. Não é nosso objetivo criticar essa obra, neste artigo, salientamos que o texto  tem o mérito de apresentar uma resenha interessante sobre as teorias neoliberais, entretanto  apresenta uma conclusão controversa sobre o sentido do “neoliberalismo” na atualidade, pois segundo os autores, o neoliberalismo não se resume simplesmente a uma política ou o conjunto de medidas econômicas, mas representa uma nova “ razão do mundo”.

Mas, voltemos ao texto sobre a Revolução Russa, que por sinal,  não apresenta em si nenhuma novidade, sendo tão somente a repetição de um amontoado de preconceitos pequenos burgueses e lugares comuns contra os bolcheviques, e em particular contra o revolucionário russo Vladimir Lênin.

Neste sentido, antes mesmo de analisar o conteúdo do Livro, é preciso justificar qual a importância de criticar posições que já foram fartamente e cabalmente criticadas pelo próprio Lênin e por Leon Trotsky em polêmicas historicamente mais relevantes.

Um aspecto saliente é que os autores são representativos da nova coqueluche da esquerda pequeno burguesa no século XXI, a construção de “movimentos” contrários  a “ forma-partido” a partir da conjugação de uma “ horizontalidade” do “ comum”.

Na conclusão do livro A Sombra de Outubro, é acentuado “performances”  pela “ base” como a “Reunião das cidades sem medo” na Europa, e  as articulações pela “Municipalização – direito a cidade, para além da esfera estritamente política”, valorizando  “ espaços coletivos” que supostamente  não tem a “ ilusão sobre a “ tomada do poder”. São ilustrativos exemplos dessa “ nova esquerda”  o Podemos na Espanha e o PSOL no Brasil.

Neste sentido, a polêmica sobre o livro A Sombra de Outubro   não é uma querela histórica  sobre um acontecimento de um século atrás, mas diz respeito sobre os desdobramentos na atualidade do balanço da Revolução Russa e do papel do partido na luta pelo poder.

Os autores, inclusive, indicam claramente que o próprio título do livro ( A sombra de outubro), é revelador do principal objetivo da obra, a saber, combater a “ sombra de outubro”( a tomada do poder pelo Partido Bolchevique) : “O lugar que continua a ocupar outubro de 1917 no imaginário de boa parte da esquerda hoje que constitui um obstáculo ao entendimento do presente.”

O desdobramento histórico da crise revolucionária russa que desemboca em Outubro é vista como uma “artimanha” bolchevique para conquistar o poder, algo que por sinal, na visão dos autores deve ser abandona pela esquerda, “ o modelo de tomada do poder  estatal por um partido com uma “ ciência da história e da sociedade” não funciona mais”.

Revolução de Fevereiro x Golpe de Estado de Outubro

Uma questão salta aos olhos logo na introdução, que continua em todo o texto, os autores utilizam como estratagema na sua argumentação, o farto uso de depoimentos contra os bolcheviques para justificar que a Revolução Russa foi deturpada pelo noção equivocada de “ tomada do poder” pelo partido.

Essa maneira de fazer a polêmica parece a primeira vista algo rigoroso e impressiona pela quantidade de referências citadas. Mas é melhor não se impressionar com esses truques dos Doutores universitários, em especial os esquerdistas, pois  nada mais é do que a forma enfadonha e academicista( no sentido pejorativo do termo) de apresentar um ponto de vista. A esquerda acadêmica, em especial a francesa, utiliza-se fartamente do “ uso da autoridade”. Enumera-se um elenco  de autores, na maioria das vezes, com posições incongruentes, para reforçar uma determinada  visão, construída pela hermética do autor, que combina textos, autores e escolas de pensamento ao seu bel prazer para produzir um discurso ” interpretativo”.

De qualquer forma, esse “nova” esquerda para negar a necessidade da construção de um partido revolucionário, procura de maneira consciente confundir intencionalmente seu público cativo, procurando “ descontruir” as verdades históricas. Não por acaso, autores anarquistas e reformistas são valorizados para negar o valor do partido na revolução. Assim, já na introdução intitulada “ Luz dos Sovietes, sombra de Outubro” tem como epigrafe uma frase do anarquista russo Kropotkin, que sinaliza bem espirito geral do livro A Sombra de Outubro  “ Os bolcheviques mostram como a revolução não deve ser feita”.

O trajeto inicial proposto por Pierre Dartot e Christian Laval para desmantelar a “ sombra de outubro” é a contraposição da Revolução de Fevereiro a insurreição de Outubro, em seguida a oposição entre Sovietes x Partido. Para os autores, a Revolução de Fevereiro foi minimizada no seu alcance e significado para “ glorificar” a conquista do poder pelos bolcheviques. “ A Glorificação da grande revolução de outubro e a revolução de fevereiro apresentada como episódio preparatório.”

Os autores perguntam “O que realmente ocorreu?”. Respondem   “ Depende do significado do termo “ revolução”.”  Então, indicam que os bolcheviques que conquistaram o poder, não sabiam a “ verdadeira”  definição do que seja uma Revolução.  A resposta correta, foi dada pelo francês, Castoriadis, que por sinal, como  Pierre Dartot e Christian Laval, nunca nem remotamente participou de uma revolução.  “ a melhor definição que podemos dar de uma revolução  nos tempos modernos seria esta : nem aceitação do Palácio de Inverno( que não era senão um “ golpe de Estado”), mas a reconstituição da unidade política da sociedade na ação.”

Assim, de acordo do critério imperioso de Castoriadis, adotado por Pierre Dartot e Christian Laval, a “ verdadeira” Revolução foi a de fevereiro, “O conceito seria aplicado ao período de fevereiro, no entanto não se aplica a outubro. “ a insurreição bolchevique rompeu com a unidade da sociedade, restaurando o principio do Estado contra os sovietes, e essa ruptura ocorreu a partir do momento em que tomou o poder, sem esperar  a vitória de Stálin sobre Trotsky.”

É verdade que a mobilização das massas em Fevereiro  recriou os sovietes, mas o regime que saiu era marcado pela ambiguidade e pelo sistema de duplo poder, tendo a revolução um caráter incompleto.

O paradoxo da Revolução de Fevereiro era que a fissura histórica criava as condições para o aprofundamento da revolução, ao mesmo tempo que através do Governo Provisório  setores da classe dominante, em especial os representantes da burguesia não estavam dispostos a levar adiante a revolução, muito pelo contrário, preparava o terreno para o esmagamento da   revolução. Além do mais, contraditoriamente, o que levou a derrocada do regime de Fevereiro foi a recusa dos partidos conciliadores como os mencheviques e socialistas revolucionários em romper com a burguesia e conquistar o poder, através dos sovietes. Além disso, os fatores que levaram a revolução não foram solucionados,  a Rússia continuava participando da guerra imperialista, não sendo feita  a reforma agraria que agrava a situação do país e levou a uma segunda revolução, sobre isso nenhuma palavra dos autores da Sombra de Outubro.

Além do mais,  “A lenda de outubro afirma que a revolução, a verdadeira, se identifica à tomada do poder pelos bolcheviques … A lenda de outubro  fez esquecer, mas fevereiro foi em primeiro lugar uma prodigiosa liberação do imaginário” ( DARTOT e LAVAL. A sombra de outubro.p.2).

Então, o que seria a “ lenda de outubro” em contraposição a “ prodigiosa liberação do imaginário” de Fevereiro?

“ definitivamente, se houve de fato uma revolução de fevereiro, não houve revolução de outubro. No lugar de uma verdadeira revolução houve ai, por certo, não um simples golpe de Estado, mas uma coordenação entre um golpe de Estado, organizado em nome do soviete pelo Comitê Militar Revolucionário de Petrogrado, e uma insurreição animada pela Organização Militar Bolchevique. Se essa coordenação ente golpe de Estado e insurreição acabou na derrubada beneficiou-se do apoio das massas de Petrogrado.” ( DARTOT e LAVAL. A sombra de outubro)

Para os autores, não houve Revolução de Outubro, mas um golpe de Estado de Lênin em nome dos sovietes. Na segunda parte desta resenha, vamos abordar que o grande pecado dos revolucionários é querer tomar o poder, e a raiz de todo mal da “ sombra de outubro” é o partido.