“Luta contra a corrupção”
Desde o julgamento do mensalão, partido está envolvido com todo tipo de arbitrariedade da ofensiva golpista

Por: Redação do Diário Causa Operária

Imagine um partido de esquerda que tenha celebrado o surgimento da Operação Lava Jato, cujo dirigente tenha beijado a mão do mui honesto Aécio Neves e que seja o signatário número um do manifesto pelo fim do foro privilegiado. Esse partido, caro leitor, existe. E tem, no seu próprio nome, a bizarrice e a contradição de uma legenda de esquerda que procura fazer média com uma classe média conservadora: o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), socialista para quem se acha esquerdista e liberal para quem odeia a cor vermelha.

Embora tenha sido uma operação conspiratória e podre, a Operação Lava Jato ganhou, nas mais diversas instituições, algum corajoso que se apresentasse como seu representante. No STF, figuras como Edson Fachin, Luis Roberto Barroso, Carmen Lúcia e Luiz Fux procuraram se apresentar como os ministros que mais “combatiam a corrupção”. Nas ruas, a extrema-direita fascista tomou para si tal “luta”, pedindo a prisão de todos os perseguidos pelo regime. No jornalismo, figuras execráveis como Joice Hasselmann, hoje deputada, procuraram faturar sobre a operação. E, no meio da esquerda, quem cumpriu esse papel vergonhoso foi ninguém menos que o PSOL.

Julgamento do mensalão

No ano de 2012, quando a burguesia se tornava cada vez mais consciente de que precisaria dar um golpe de Estado no País, veio a público o julgamento do mensalão. O mensalão, em si, não passou de um esquema tradicional de compra de deputados e tráfico de influência, que existe desde que nasceu a República brasileira. No entanto, a direita utilizou o fato para desgastar o governo Lula à época, bem como para controlar ainda mais José Dirceu, um dos mais ambiciosos quadros do governo petista. Com o passar do tempo, a direita foi transformando o julgamento do mensalão em uma oportunidade para mudar a relação entre o Judiciário e as demais instituições, preparando o País para uma ditadura, e para perseguir os principais dirigentes do PT.

A maior vítima do julgamento do mensalão foi José Dirceu, condenado pela então inédita “teoria do domínio do fato” — uma das várias “teorias” que seriam utilizadas para incriminar inimigos políticos, mesmo na ausência de provas. O petista acabou indo parar na cadeia, o que serviu para começar um desmonte de todo o quadro dirigente do PT e para que o Judiciário avançasse como uma força incontestável da burguesia para seus próprios interesses.

Nesse episódio absurdo, o PSOL e seus satélites se dividiram em, basicamente, duas posições. A maioria do partido apoiou abertamente a condenação de José Dirceu e toda a pirotecnia do Supremo Tribunal Federal. A outra fração do partido, contudo, se manteve calada — o que, na prática, seria o mesmo que apoiar tal abuso.

Em nota oficial do seu diretório de São Paulo, o Partido clamou pela punição dos supostamente envolvidos no mensalão:

“Como resultado da opção política por uma governabilidade baseada em relações políticas e alianças espúrias, o PT e seu governo promoveram um profundo rebaixamento programático. Transformado em aliado do capital financeiro e do agronegócio, o PT não teve pudores em usar dos métodos historicamente rechaçados pelo próprio partido para assegurar apoio a suas medidas. Este processo simbolizou um retrocesso nos valores democráticos e republicanos, reforçando um sentimento de negação da política e da ação dos partidos. Por isso, o PSOL expressa seu repúdio à corrupção e exige a punição de todos que, comprovadamente, tenham utilizado recursos públicos para corromper ou que foram corrompidos, cedendo seu apoio ao governo em troca de dinheiro”.

O dever de qualquer organização de esquerda seria o de apontar que não havia prova e que, portanto, a prisão de José Dirceu era uma ilegalidade total. Independentemente do PSOL achar o governo do PT bom ou ruim, apoiar a ofensiva da direita é apoiar que a burguesia estabeleça uma ditadura.

Operação Lava Jato

Depois que Joaquim Barbosa entregou a cabeça de José Dirceu no julgamento do mensalão, o apetite da burguesia só cresceu. Entrou em cena, então, a Operação Lava Jato, que nunca escondeu seu maior objetivo: a cabeça do maior líder popular do País, Luiz Inácio Lula da Silva.

Somente por esse aspecto, a luta contra a Lava Jato deveria ser uma obrigação de toda a esquerda e de todo o movimento operário. Seu objetivo, finalmente, é o de destruir o patrimônio da luta da classe operária, uma liderança construída em meio ao maior movimento revolucionário visto no Brasil nas últimas décadas, que foi a derrubada da ditadura militar. No entanto, houve quem fizesse questão de apoiar a operação golpista…

Sim, o PSOL apoiou, apaixonadamente, a Operação Lava Jato. Várias foram as suas demonstrações. No entanto, de maneira incontestável, Luciana Genro, candidata à presidência da República pelo partido em 2014, levou para casa o título de “musa” da conspiração golpista. Em vários artigos — “É hora de defender a Lava Jato”, “Sobre defender (ou não) a Lava Jato” etc. —, a psolista se coloca abertamente em defesa de Sérgio Moro, Deltan Dallagnol e todos os bandidos corrompidos pelo departamento de Estado norte-americano. Luciana Genro chegou a chamar de “ladainha” a tese, posteriormente comprovada, de que a Lava Jato era seletiva e tinha como alvo o PT, comemorou a prisão de Eduardo Cunha e defendeu todo tipo de arbitrariedade da operação, como a delação premiada. 

Para fazer par com Luciana Genro, os parlamentares Marcel Freixo e Chico Alencar se esforçaram bastante para alcançá-la. Em uma festa organizada pela Rede Globo, Chico Alencar não só beijou a mão de Aécio Neves (PSDB) como disse que o PSDB seria muito mais honesto que o MDB. Seu critério, obviamente, era a Operação Lava Jato, que nunca colocou um tucano na cadeia.

Impeachment

Uma das consequências da Operação Lava Jato foi o golpe de Estado de 2016, concretizado a partir do impeachment de Dilma Rousseff. É verdade que os parlamentares do PSOL votaram contra o impeachment (algo que eles mesmos sabiam que era inútil, pois a esmagadora maioria do Congresso já estava comprada para derrubar Dilma), mas não fizeram coisa alguma além disso. Nas ruas, o PSOL formou uma frente com seus satélites para protestar contra o governo Dilma Rousseff, em vez de lutar contra sua derrubada.

Uma ala do partido, contudo, foi ainda mais além e defendeu o impeachment. Após a queda de Dilma Rousseff, a CST escreveu:

“De nossa parte, queremos que Dilma saia definitivamente pela mobilização popular, (igualmente Temer) pois não podemos esquecer que foi no seu governo que começaram a discutir e aplicar as medidas neoliberais que Temer retoma e reforça, como a Reforma da Previdência (sendo que Lula votou ela pela primeira vez contra os servidores públicos em 2003, comprando os votos através do mensalão). Além de Dilma ter sido eleita através de um estelionato eleitoral, afirmando por ex. que não iria mexer com direitos dos trabalhadores nem que ‘a vaca tussa’ e acusando os tucanos de querer aplicar uma política econômica que foi a que ela tentou aplicar assim que assumiu”.

Lei da Ficha Limpa

Outra consequência da Operação Lava Jato foi a inelegibilidade do ex-presidente Lula, o que acabou levando o fascista Jair Bolsonaro ao poder nas eleições de 2018. Embora cassar seus direitos tenha sido inconstitucional, a burguesia utilizou como pretexto a Lei da Ficha Limpa. Como um partido moralista, que se coloca na linha de frente da “luta contra a corrupção”, o PSOL não poderia se eximir…

Marcelo Bretas

No Rio de Janeiro, a burguesia decidiu levantar a bola do juiz Marcelo Bretas como o grande paladino da “luta contra a corrupção”. Entre um e outro, há pouca diferença. Bretas cometeu uma série de ilegalidades para colocar na prisão aqueles que o regime decidiu perseguir, sobretudo os setores do MDB mais ligados ao governo Lula.

Se o PSOL não conseguiu tirar uma foto com Sérgio Moro, seja porque ele estaria “muito ocupado” prendendo Lula, seja porque pegaria muito mal, o partido decidiu participar de um “ato” com Bretas e com Caetano Veloso no Rio de Janeiro. O ato seria contra Gilmar Mendes, um direitista do STF, mas que acabou se tornando um dos que mais denunciam os arbítrios da operação…

Uma política para sua base

Em toda essa defesa da “luta contra a corrupção”, o PSOL não estava defendendo um programa político bem definido. Até porque, se quisesse combater de fato a corrupção, seria necessária uma política diametralmente oposta à de apoiar o imperialismo, a Rede Globo e a direita nacional.

O PSOL, como um partido da pequena burguesia — e de um setor muito conservador, que costuma votar no PSDB em São Paulo e no MDB e DEM no Rio de Janeiro —, faz da moral a sua política. O que, no fim das contas, lhe leva tão somente a ter como política central a defesa da ideologia, da política e dos costumes da própria burguesia. Na Lava Jato, que foi uma peça-chave para uma operação da burguesia em um dos momentos de maior crise no País, o PSOL esteve alinhado com os maiores inimigos dos trabalhadores.

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