Dissipando o “pum do palhaço”
Tendo ocupado o papel de continuar o apelo bolsonarista ao fechamento do congresso enquanto gestava o esquecimento do discurso de seu antecessor, tornaria-se ela agora descartável?
Foto: Palácio do Planalto |

A “namoradinha do Brasil”, que ao tomar posse da secretaria da Cultura, pouco mais de um mês atrás, foi celebrada pela Bancada da Bala e diversos setores fascistas do governo e do bolsonarismo, não parece estar suficientemente à direita para seguir compondo o quadro de desmonte cultural no Brasil.

Sob o guarda-chuva já furado do Ministério do Turismo – no comando de Marcelo Álvaro Antônio, conhecido pelo envolvimento no escândalo criminoso do “laranjal do PSL” –, a pasta da Cultura contava antes com Roberto Alvim, que, alinhado à tática fascista de ataque frontal seguido de recuo aparente, precisou ser posto à retaguarda por produzir seu vídeo propagandístico evidentemente inspirado no famoso discurso de Göebbels, notório ministro da propaganda na Alemanha nazista, falando acerca dos “rumos da arte no Brasil” como fez e fazia o conhecido facínora e ideólogo do terceiro Reich.

A tática parece já ter cumprido seu papel, que parecia consistir em inserir temporariamente uma figura mais “íntima” do imaginário artístico brasileiro, mas não menos alinhada com a marcha fascista, com intuito de produzir o esquecimento pontual da recente ameaça explicitamente autoritária sem abrandar os efeitos ideológicos de apelo sobre os apoiadores e terror sobre os opositores.

A mesma tática havia se dado quando da aceitação pela ala ideológica da exoneração do maestro Dante Henrique Mantovani – que ficou conhecido por associar o rock ao satanismo – por parte de Regina Duarte, ato que seguiu imediatamente sua posse. Considerando então o contexto da publicação de Alvim, o breve desvio era necessário. Consistia em fazer parecer, e apenas brevemente, que havia algum tipo de “pluralidade” verdadeiramente preocupada com a arte (ou, como dizem o neofascismo brasileiro, com uma “verdadeira arte brasileira”), que colocaria agora, após “pequenos exageros”, alguém que representasse “melhor” os “verdadeiros” artistas nacionais. Em prática, nada diferente. A nova secretária representava, em realidade, muito melhor a classe militar (Regina Duarte é pensionista militar desde 1999) e ruralista (ela e o marido são criadores de gado, tendo demonstrado apoio total à classe contra os indígenas e quilombolas), do que a artística propriamente dita.

Ela podia não ser a personagem que alegava fanaticamente que o rock era satânico, ou ter o olhar ameaçador e cadavérico de Roberto Alvim “Goebbels” (estes, instrumentos para excitar a ala mais evangélica fundamentalista e as mais nuclearmente fascistas naquele momento), mas cumpria muito bem seu papel de apoio ao projeto bolsonarista, se valendo de sua imagem de intimidade televisiva para buscar levar as massas às ruas em favor da intervenção militar e pelo fechamento do congresso e STF. Ao invés de falar explicitamente contra uma “arte degenerada”, ela limitou-se a falar em favor da volta do “pum do palhaço”. Aquele que distraiu muito bem toda a nação presa à tela da TV, com muito riso, enquanto torturas e execuções ocorriam dentro e fora do DOI-CODI. Como em qualquer fascismo, a ela coube agora o papel breve e alternante da face cômica da violência bruta.

Seu papel, contudo, já foi cumprido. E rápido. Metros adiante na marcha fascista, e em terreno de COVID-19, visto que Bolsonaro foi forçado a conter os ataques ao congresso nas ruas conter (novamente, apenas de forma breve – e isto também já parece estar mudando) e que agora as alas da direita conservadora buscam disputar o espaço do topo autoritário contra a ala mais ideologicamente frontal e se enxergam em pé de disputa, outros apelos (alguns em ritmo de resgate) são novamente necessários por parte de Bolsonaro. O mesmo maestro Dante Henrique Mantovani, “um bandeirante de cristo contra satanás”, surge da retaguarda para possivelmente somar forças para maior reforço da ala fundamentalista evangélica. A tática foi a mesma que na demissão de diversos ministros: ameaça, sinaliza, volta atrás, confere os efeitos, age. O jogo não é essencialmente diferente, mas tem taticamente uma mudança de semblante, que é sintoma do desespero de Bolsonaro e seu “tudo ou nada” frente ao contexto da pandemia.

Para corroborar, podemos ver como ele insiste, justamente na pandemia de COVID-19, em buscar conceder tudo prioritariamente às igrejas evangélicas e à bancada dos “bons cristãos”, seus velhos aliados – talvez seus principais no momento, junto da corja miliciana e baixa patentes do exército – para levar adiante a radicalização da qual ele necessita. Não vamos nos esquecer, apenas a título de exemplo, de sua convocação a um jejum nacional na páscoa, durante a qual era possível testemunhar centenas de fundamentalistas nas ruas realizando o tal jejum em público . O ponto invariavelmente é este: não se tratou de um ato religioso, mas de um ato político; assim como não se trata de uma pasta de Cultura, mas de domínio violento – e mordaça – do território cultural para a destruição de uma nação.

Regina Duarte, que havia mantido absoluto silêncio diante das mortes de diversas personalidades importantes ocorridas no meio artístico (desde Tom Jobim a Moraes Moreira e Rubem Fonseca), e que já havia sido cobrada pela comunidade artística acerca de seu silêncio de cumplicidade fascista, surge apenas agora. Diante das reclamações de Bolsonaro acerca de sua distância com o planalto, tendo sido convidada pelo presidente para um encontro e já sabendo que será provavelmente descartada, ela repentinamente busca demonstrar alguma solidariedade à morte de Flavio Migliaccio, importantíssimo ator da tradição do teatro, cinema e televisão brasileira, que se suicidou recentemente, deixando uma carta em que lamenta toda a circunstância política de nosso país e os retrocessos frente sua memória de toda a luta, da qual participou.

Suas homenagens chegam tarde e não passam de oportunismo. Muito mais importante que a sua homenagem ao inesquecível ator de Terra em Transe, clássico de Glauber Rocha, é refletirmos sobre a despedida de Lima Duarte, dedicada à tragédia do mesmo colega. Repitamos aqui sua citação do dramaturgo alemão Bertold Brecht ao final do vídeo, quando saúda o suicídio do amigo, mas saúda a coragem que sempre teve: “os que lavam as mãos o fazem numa bacia de sangue”.

Regina Duarte lavou suas mãos e está tentando lavá-las mais uma vez. Seu descarte não será sentido com lamento.

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