Leste Europeu

O asfixiamento econômico em nome da “democracia”

Covarde para atacar frontalmente Rússia e China, o imperialismo tenta asfixiar a Bielorrússia

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Alexander Lukashenko, presidente da Bielorrússia – Foto: Reprodução

Redação do DCO

(*) Por Tiago Carneiro, correspondente para assuntos europeus. Vive entre Luxemburgo e Minsk.

A Bielorrússia, desde os anos noventa, sofreu diversas tentativas de golpe por parte do imperialismo, a mais atual em 2020, no período que antecedeu e sucedeu as eleições presidenciais realizadas no dia 9 de agosto, na qual Alexander Lukashenko foi reeleito presidente do país. Tudo foi tentado, de “manifestações” orquestradas de fora do país a tentativas frustradas de tomar o poder através do assassinato do presidente. O esquema golpista foi gradativamente desmantelado e, no fim do outono, já não tinha mais força. Entretanto, isso não significa que o imperialismo desistiu. Com a política de Biden de pressão contra Rússia e China, tomar a Bielorrússia torna-se um objetivo a ser perseguido. 

Mesmo após a crise de 2020, não foram aplicadas sanções contra setores da economia. As medidas se deram apenas contra funcionários do governo. Parecia que o ocidente queria apenas um “pretexto” para voltar a atacar com toda a força esse país aliado da Rússia e China. Nesse sentido, o “pretexto” foi exatamente um pouso de emergência de um avião da empresa Ryanair em Minsk devido a uma ameaça de bomba. O avião ia de Atenas a Vilnius, capital da Lituânia, e a bordo estava Roman Protasevich, mantenedor do canal Nexta, que recebe dinheiro do imperialismo para organizar protestos “coloridos” na Bielorrússia.

O caso Ryanair

No que pode ser visto nos monopólios da imprensa capitalista, o presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, teria “ordenado que um avião da Ryanair descesse no aeroporto de Minsk para prender o jornalista Roman Protasevich” (CNN, 23/05/21). A história seria um tanto estranha, como um avião iria descer só porque alguém assim o quer? Viu-se, em seguida, a fantástica história do “sequestro”, onde um avião de combate MIG 29 teria forçado o avião da Ryanair a descer no aeroporto de Minsk.

Automaticamente o “mundo civilizado” mostrou-se indignado e, nas primeiras declarações, já se falava em sanções econômicas contra esse país bárbaro! Quanta coincidência, não? Investigações? Esperar o pronunciamento do lado Bielorrusso? Claro que não. Por sua vez, a imprensa progressista falava sobre a hipocrisia do imperialismo, que fez algo nessa mesma direção, mas com uma petulância ainda maior – em 2013, mandaram descer na Áustria o avião do presidente boliviano Evo Morales pois pensavam que a bordo estava Edward Snowden.

Acontece que dois dias após o incidente, o governo da Bielorrússia disponibilizou o diálogo com os pilotos, publicado pela Sputnik, onde a torre informava sobre a ameaça de explodir o avião sobre Vilnius. De acordo com o portal SB.by, não foi concedida ao avião permissão de pousar em Vilnius, Varsóvia, Lviv e Kiev, e o avião pousou em Minsk. Ameaças de bombas parecidas ocorreram no dia seguinte em um voo da Lufthansa que ia de Minsk para Frankfurt e no aeroporto de Varsóvia, dez dias depois (Sputnik BR, 04/04/21). Mas, claro, a imprensa ocidental não deu importância e continuou martelando a história do “sequestro”.

É importante mostrar o que foi divulgado pelo Ministério de Assuntos Estrangeiros da Bielorrússia: “nenhum país da União Europeia, nem mesmo um único país do oeste pediu informações sobre o incidente até o momento”. 

Por que mesmo? Claro, já estava decidido – sanções econômicas contra o “regime de Lukashenko”. Só faltava um motivo, qualquer um serviria.

Fechamento do espaço aéreo para a Belavia

Minsk é um importante hub de passageiros vindos de diversos países da Ásia e da Europa do Leste. Utilizar a Belavia, companhia aérea bielorrussa, era uma das formas mais baratas e rápidas de se atingir diversas capitais europeias através de voos diretos. Esse foi o primeiro ativo a receber as sanções. 

Após o ocorrido, Inglaterra e França proibiram que os aviões da Belavia cruzassem seu espaço aéreo. Durante a semana do dia 23 de maio, podia ser observada a pressão desses dois países imperialistas para o isolamento aéreo da Bielorrússia. Lituânia, o cachorrinho mais obediente do Báltico, foi o primeiro a banir voos da Belavia, atitude essa seguida pelos demais marionetes dentro e fora da União Europeia nas duas semanas seguintes. 

Os ataques contra a Belavia contaram com uma provocação francesa: um avião que partiu de Minsk para Barcelona no dia 26 de maio vagou pelo espaço aéreo bielorrusso por quase três horas sem conseguir entrar na União Europeia. Por fim, acabou desistindo e retornando para Minsk. De acordo com o site da Belavia, “a aviação francesa manualmente desativou o  plano de voo sem notificar a companhia aérea” e que esse ocorrido foi uma “ordem verbal do primeiro-ministro francês”. 

O país agora voa com rotas alteradas e precisa de rotas alternativas através, por exemplo, dos aeroportos da Rússia ou da Turquia. Para se defender financeiramente do ataque, o número de voos para a Rússia e para a Ásia foi consideravelmente aumentado. 

Sanções no mesmo dia da invasão nazista à URSS

De um acontecimento com um avião de uma empresa irlandesa, sem qualquer investigação, o democrático imperialismo passou a impor sanções justamente contra empresas bielorrussas que são estratégicas, lucrativas, de altíssima tecnologia e estatais. Após o primeiro ataque à Belavia, a UE proibiu a venda, fornecimento e transferência de equipamentos, tecnologias ou software para Minsk, incluindo as mais importantes empresas do país: MAZ, Grodno Tobacco Factory, BelAZ, BelOil e Belaruskali, o maior produtor de fertilizantes a base de potássio do globo (Ria, 12/08/21). Vale ressaltar que as empresas citadas concorrem diretamente com suas contrapartes imperialistas. 

Claro, as intenções da mui civilizada União Europeia são sempre “as melhores”: sanções “em resposta às sérias violações dos direitos humanos, à repressão à sociedade civil, oposição democrática e jornalista, assim como ao pouso forçado do avião da Ryanair” (Conselho Europeu, 24/06/21) – mas investigaram o incidente com o avião? Muita hipocrisia…  

Outra “grande coincidência” é que essas sanções foram impostas justamente no dia que o país relembra o covarde ataque à fortaleza de Brest, na Bielorrússia, primeiro ponto atacado na União Soviética pela Alemanha nazista, sem declaração de guerra, no dia 22 de Junho de 1941. Sabendo que os países utilizados pelo imperialismo para atacar a Bielorrússia estão hoje, em sua maioria, sob governos com inclinações fascistas, contendo diversos monumentos dedicados a oficiais nazistas (The Forward, 26/01/21), isso não é nenhuma coincidência. 

A Bielorrússia vem tentando reagir, fazendo acordos fora da Europa, como na União Econômica da Eurásia e aumentando a cooperação com a Rússia, uma vez que o país comandado por Putin depende fortemente de vários produtos vindos da Bielorrússia. Por sua vez, os Estados Unidos e o Canadá prometeram medidas semelhantes. Mas eles esperaram até 9 de agosto, quando as eleições de 2020 completam um ano. 

Bom menino! Um biscoitinho para você

Nesse mesmo esforço conjunto do Ocidente contra a ex-república soviética, a “Juan Guaidó” bielorrussa, Svetlana Tikhanovskaya, fez uma volta ao mundo (financiada por quem?) agindo como um “mascate às avessas”. O objetivo dessas viagens era “convencer” os maiores consumidores de fertilizantes a base de potássio a desistir de fazer negócios com Minsk. Seus dois alvos principais: a Inglaterra e a Noruega, que possui presença na Bielorrússia através da companhia Yara, que atua no ramo dos fertilizantes. 

As visitas culminaram em um encontro da marionete com seu mestre, Joe Biden, na Casa Branca. Nessa oportunidade, Tikhanovskaya entregou a Biden “uma lista de alvos a serem sancionados por Washington” (CNN, 07/08/21). Após o encontro, como um cachorrinho que aprende uma pirueta nova, Tikhanovskaya foi presenteada por seu mestre Biden com um pacote de biscoitos da Casa Branca (Lenta.ru, 29/07/21). Diga que as eleições foram fraudadas – isso! Bom cachorrinho! Tentativa de golpe. Muito bem! Agora… viaja pelo mundo pedindo sanções! Muito bem! Muito bem! Um pacote de biscoitinhos da Casa Branca para você. 

Nesses encontros, Tikhanovskaya recebeu algumas lições sobre o mundo real. Acontece que os produtos bielorrussos são muito competitivos, e parar de comprá-los é ruim para os negócios. De acordo com a Ria Novosti, Boris Johnson recebeu a oposicionista bielorrussa, mas “tudo não passou de uma conversa. As autoridades acreditam que isso (limitar a compra de potássio) afetaria um setor importante – a agricultura […] o agronegócio americano também ficou preocupado quando Joe Biden se encontrou com Tikhanovskaya” (Ria Novosti, 12/08/21). Por sua vez, os noruegueses apenas prometeram “rever suas posições até dezembro”. 

As sanções dos EUA

Previsivelmente, no dia 9 de agosto, EUA, Inglaterra e Canadá seguiram a União Europeia e também impuseram sanções à ex-república soviética, indo na mesma direção, visando os setores estratégicos da economia bielorrussa. Os motivos? Os mesmos de sempre… “Em relação à próxima rodada de sanções, foi um evento bastante previsível”, declarou o governo através de seu portal Belta

Os capachos suicidas

Por fim, um fato interessante é que o ataque à Bielorrússia, para alguns desses estados capachos, como a Lituânia e a Ucrânia, é quase um suicídio, uma vez que suas economias são muito conectadas a Minsk. Nos deteremos a falar do mais obediente e raivoso bichinho de estimação da OTAN: a Lituânia.  

De maneira geral, os que já viajaram para a capital da Lituânia sabem que são os turistas bielorrussos que aquecem o setor de serviço do pequeno país báltico. De acordo com o Departamento de Estatística da Lituânia, os bielorrussos são a maior comunidade de turistas, seguida pelos russos. O aeroporto de Vilnius, de tão frequentado por turistas do país vizinho, é informalmente denominado de “Minsk 3”. Como ficará esse setor sem os bielorrussos?

Também é válido ressaltar que o país báltico podia comprar energia mais barata da Bielorrússia, mas parou de fazê-lo e atuou fortemente para sabotar o projeto da nova usina atômica, agora em funcionamento. Uma parcela significativa da economia da Lituânia gira em torno da utilização de seus portos pela Bielorrússia. Em 2020, parte desse fluxo de mercadorias foi desviado para a Rússia. 

Agora, a ex-república soviética do báltico, após as sanções dos EUA, ao melhor estilo “o mestre mandou”, quer proibir a passagem de fertilizante bielorrusso exportado para a China, que corresponde a cerca de um terço de tudo que é transportado no minúsculo país. De acordo com a agência governamental Belta, caso o bloqueio se concretize, a carga será prontamente desviada para outros portos na Rússia, como, por exemplo, Murmansk. Um desastre econômico para a Lituânia. Que país! A Lituânia “dará a vida” por algo maior – a Democracia! Será que um pacotinho de biscoitos da Casa Branca tampará o rombo?

Por enquanto…

A Bielorrússia já vive sob sanções há quase 20 anos, e o país vem contornando a situação desde então. É positiva a declaração do governo de que estão cientes que o imperialismo não irá recuar. Eles têm noção que o imperialismo deseja colocar o país sob o domínio dos imperialistas, o que levou a ex-república soviética a, desde o ano passado, fortalecer seus laços com a Ásia, África e com a Rússia. 

As tentativas de “manifestações”, como as que aconteceram recentemente em Cuba, esvaziaram-se, e o imperialismo não conseguiu utilizar a crise da Covid-19 contra Lukashenko, uma vez que o país não precisou entrar em quarentena, mitigando o impacto econômico, e o sistema de saúde não entrou em colapso. Diferentemente dos países da União Europeia, não foram tomadas medidas antidemocráticas no que diz respeito à obrigatoriedade da vacina, amplamente disponível, até para estrangeiros. As forças armadas permanecem leais ao governo e todas as tentativas de piquetes nas empresas estratégicas falharam vergonhosamente. 

Por fim, de acordo com Denis Melyantsov, coordenador do programa de política externa da Bielorrússia, “quanto às sanções, até agora não foram sentidas. Além disso, a economia está crescendo, e a moeda nacional se fortaleceu. Os bielorrussos são irônicos sobre isso. Materiais de construção, fertilizantes e alimentos têm demanda no mercado mundial. Após a pandemia, a produção está se expandindo em muitos países e a demanda está aumentando. Mas, é claro, mais cedo ou mais tarde surgirão problemas na economia” (Ria Novosti, 12/08/21).

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