─ Katelijn van Bentum, especial para o Internacionalismo ─
A última crise política no Peru, que começou na verdade com o impeachment do ex-presidente Martin Vizcarra em outubro de 2020, está longe de ser resolvida. E tudo indica que o novo gabinete, anunciado na última terça-feira, 2 de fevereiro, pelo atual presidente Pedro Castillo, apesar de ser uma equipe “conciliadora” e bem mais à direita, se aprovado, também não vai trazer estabilidade. Após ter obtido o maior número de mortes por 100.000 habitantes do mundo como consequência da pandemia, e no meio de uma guerra psicológica promovida pela imprensa completamente parcial e preconceituosa, além dos ataques e ameaças diárias provenientes do congresso, o poder executivo agora tem mais um problema para resolver, com mais de 100 quilômetros do litoral peruano afetados pelo maior derramamento de petróleo ocorrido na história do país.
Em 15 de janeiro 2022, a empresa Repsol reportou o vazamento de 6 barris de petróleo de um barco operado pela multinacional espanhola. O navio era de origem italiano e transportava petróleo brasileiro, para a refinaria La Pampilla, vendida nos anos ’90 pelo então presidente Fujimori para a Repsol por um preço simbólico. O Peru também possui petróleo. No entanto, nas últimas três décadas, a administração da empresa estatal Petroperú tem sido amplamente negligenciada, e hoje o preço da gasolina no Peru está entre os mais altos da América Latina.
Após o derrame, a empresa Repsol rapidamente responsabilizou a erupção do vulcão em Tonga, no outro lado do mundo, pelo ocorrido, qualificando-o como um “desastre natural”, do qual eles não se consideravam responsáveis, por não ter recebido nenhum alerta de tsunami da Marinha Peruana. Após alguns dias, surfistas que estiveram presentes no momento do acontecimento, informaram não ter notado ondas anormais naquela hora. Duas semanas depois, ficou comprovado que na realidade não se trata de 6 ou 600 barris derramados, nem de 6.000, e sim de quase 12.000 (!) barris que carregavam mais de 150 litros de petróleo cada um.
A quantidade exata provavelmente nunca será esclarecida, mas não há dúvida de que a empresa petroleira responsável tem sido negligente desde o primeiro momento. Em uma clara tentativa de minimizar a crise, a imprensa, dentro e fora do Peru, não tem dado a atenção necessária ao evento. Durante um primeiro encontro com representantes do governo, a multinacional ofereceu uma cesta de alimentos para cada família afetada, e comunicou que consideraria contratar os milhares de pescadores agora desempregados por tempo indeterminado, para o trabalho de limpeza das praias.
De fato, atualmente diversos pescadores artesanais encontram-se agora retirando o petróleo do mar, de maneira informal ou terceirizada, executando um trabalho pesado e de alto risco para a saúde e sem as indumentárias adequadas para a tarefa. Não é a primeira vez que esse tipo de derrames tem acontecido no Peru e no mundo, mas atividades de limpeza profissionais e efetivas ainda não foram iniciadas, provavelmente porque a empresa não contava com um plano de contingência para esse tipo de acidentes, e sim, com cláusulas dentro do precário contrato assinado 30 anos atrás, que a protegem neste tipo de situações. Na época, o presidente autoritário e ultra neoliberal Fujimori também garantiu que boa parte dos cargos da diretoria empresarial seriam ocupados por representantes do seu partido. Em 2013, a filha do ex-presidente, Keiko Fujimori, defendeu a Repsol com unhas e dentes, quando o presidente Ollanta Humala quis comprar a Refinaria para devolvê-la ao estado. A modo de lhes retornar o favor, a empresa Repsol foi uma das principais financiadoras da campanha eleitoral da candidata Keiko Fujimori nas eleições presidenciais de 2021.
Hoje, o governo do presidente eleito Pedro Castillo está sendo pressionado pela parte da população que já tomou consciência, e que além da saída da Repsol do país, está exigindo a reestatização das principais empresas estratégicas. Ao mesmo tempo, a imprensa e os representantes da direita no Congresso não demoraram para jogar a culpa da crise no presidente, e também aproveitaram o pânico para continuar com as suas próprias reivindicações, que incluíam a votação de uma lei que limita ainda mais a participação popular, fazendo com que uma eventual nova constituição agora não poderá ser obtida apenas por meio de um referendo, pois agora o resultado haverá de ser primeiro aprovado pelo Congresso.
Logo após o derrame, Pedro Castillo visitou uma das praias afetadas e expressou sua indignação e seu apoio ao povo peruano. Falou que “isso não podia ficar assim”, exigindo que a Repsol repare os danos ocasionados. Quando isso não aconteceu, o governo peruano passou a “proibir as atividades de carga e descarga na área da refinaria La Pampilla”. Apesar de parecer uma medida ameaçadora, no curto prazo não vai resolver os problemas, e ao longo prazo não será sustentável, pois poderia levar à escassez de combustível no país.
Enquanto isso, representantes políticos da esquerda estão analisando a possibilidade de que La Pampilla seja reestatizada para que volte a ser operada pela empresa estatal Petroperú. Ao mesmo tempo, partidos da direita estão tentando criar leis para que os contratos assinados com as empresas privatizadas possam ser renovados automaticamente, sem que precisem ser devolvidas para o estado na hora do vencimento do contrato de licitação, como é o caso hoje.
Pouco mais de três semanas depois do derrame, biólogos informam que mais e mais animais mortos estão aparecendo nas praias. E, segundo eles, é apenas o começo. A grande imprensa já está informando que “logo logo” vai ficar tudo limpo, e que os peruanos podem continuar comendo peixe sem problema. Porém, especialistas afirmam que o petróleo que não for removido logo, afundará para o fundo do mar, e seus elementos tóxicos provavelmente estarão presentes nas espécies marinhas por muito anos.
É uma trágica notícia para uma população que vem sofrendo com problemas de inflação nos alimentos e outras consequências da ausência de um estado forte, com a segunda maior dívida externa do mundo após a Argentina, e uma economia de “livre mercado” levada ao extremo, onde só algumas grandes empresas na verdade possuem essa tal de liberdade. Quando a quinoa virou moda no mundo, em nenhum momento o governo pensou que talvez seria uma boa ideia reservar parte deste alimento, uma importante fonte de proteína para os peruanos, para o povo. Não colocou freios na exportação, e hoje os peruanos pagam até quatro vezes mais por quilo. Além do mais, parte dos agricultores, ao descobrir que a quinoa dava mais lucro do que outros cultivos, deixaram que plantar outros produtos para dar lugar à quinoa para exportação.
Resumindo, além da constante crise política e a tensão que isso traz, o Peru agora também precisa resolver uma crise ecológica, econômica e de alimentação, pois o peixe representa um elemento básico do cardápio peruano. Ainda não é possível avaliar quais serão os efeitos de meio e longo prazo desta última crise, mais um triste episódio na história do Peru.
Fato é, que graças ao poder das redes sociais, o desastre não ficou invisível. Milhares de peruanos têm expressado sua indignação e desprezo pelos acontecimentos, através de atos, filmagens, debates presenciais e virtuais e longas programações ao vivo. Com um governo enfraquecido, com problemas comunicativos e sem um rumo claro, atualmente parece que a única esperança está no poder do povo. No entanto, a força popular também vem sendo limitada a cada dia por medidas autoritárias e demagógicas, como é a declaração do estado de emergência nas regiões de Lima Metropolitana e El Callao por 45 dias a partir de 27 de janeiro, supostamente por causa de um “incremento da insegurança”.
Finalmente, na quinta-feira, 3 de fevereiro, como parte de um giro de confraternização com os líderes da região, o presidente Castillo encontrou-se com ninguém menos do que o próprio Jair Bolsonaro, na cidade de Porto Velho. Fontes afirmam que os dois líderes conversaram sobre assuntos como uma possível integração dos seus respectivos sistemas públicos de saúde e o cuidado da sua extensa fronteira compartilhada, “apesar de suas diferenças ideológicas”. Além do fato de o Peru ter passado a reconhecer Nicolás Maduro como presidente legítimo da Venezuela, e o apoio do governo Castillo à obrigatoriedade da vacinação, na realidade fica cada vez menos claro quais exatamente seriam essas diferenças. Podemos ter certeza, no entanto, que sobre limpeza de praias, o presidente do Brasil não deve ter podido ensinar muito ao seu parceiro peruano…





