Resistência

Como os colombianos formaram grupos de autodefesa nos atos

Mobilizados há quase 60 dias, os colombianos devem servir de exemplo para a esquerda brasileira

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Jovens usam escudos improvisados para se defender da repressão policial na Colômbia – Foto: Ernesto Guzmán Jr – EFE

A Colômbia atualmente conta com quase 60 dias seguidos de mobilização da população. Com protestos em todas as regiões do país, nossos irmãos latinos tomaram uma decisão necessária frente à alta repressão da polícia e os ataques constantes do governo de Iván Duque: a formação de grupos de autodefesa.

Esses grupos têm a juventude como linha de frente e seu principal objetivo é resistir aos ataques da polícia na manifestação. De acordo com os dados completos mais recentes do Observatório de Direitos Humanos, o número de feridos atinge cerca de 2 mil, sendo 50 assassinados e 84 pessoas desaparecidas — esses números, entretanto, são maiores visto que, até o fechamento desta matéria, foram noticiados pelo menos mais dois manifestantes mortos durante as manifestações. Uma reportagem da correspondente do Brasil de Fato no país noticia que o número de mortos passa de 70 e que cerca 2800 pessoas foram presas arbitrariamente — ainda existem as dezenas de denúncias de estupro e de lesões oculares sofridas pelos manifestantes e causadas pela polícia.

Escudos Azuis nasceu há mais ou menos um ano e meio, durante a outra paralisação nacional, no dia 21 de novembro de 2019. Nasce como uma chama que vinha sendo gestada há muito tempo, com as greves camponesas, indígenas, sindicais e populares. Tomamos a decisão depois da morte de Dilan Cruz, que foi como um símbolo muito importante no território colombiano, que nos leva a ir às ruas, a organizar espaços de resistência”, relata Juan Gonzáles, da organização Escudos Azuis, que resiste à repressão policial nas manifestações colombianas.

Temos esperança com o fato de que a juventude começou a ocupar as ruas, acredito que a juventude sempre esteve muito presente. A juventude sempre foi precursora de movimentos sociais que impactaram o poder que se instituiu na Colômbia”, afirma.

A manifestação começou contra as decisões do governo de Iván Duque, até passar a ter o caráter contra seu governo como um todo, com as exigências de estabelecimento de um governo popular. O dito estouro da manifestação ocorreu após a morte de Dilan Cruz, assassinado pelo Esquadrão Móvel Antimotim (Esmad), principal responsável pela repressão das manifestações até os dias de hoje.

O controle militar dos protestos foi focado nos jovens. Não é qualquer jovem, é o jovem pobre. São os moradores das comunas, dos bairros pobres que sofreram a maior repressão militar contra os atos”, relata o psiquiatra e membro da Rede Popular de Primeiros Socorros Juan David Páramo.

Recentemente vimos uma tentativa de frear os atos por parte das centrais sindicais que afirmaram que iriam abandonar a mobilização. Entretanto, seguindo a política aguerrida que vimos até agora, a população colombiana rejeitou esta ação e formou assembleias populares e decidiu pela continuação da mobilização, algo que efetivamente está sendo cumprido.

Exigimos uma reforma policial e o desmonte do Esmad. Quando estou frente a eles sinto temor, mas não posso me render, porque sinto que o que estamos fazendo é histórico, estamos conquistando muitas coisas. Ainda que muitos nos chamem de vândalos, que não nos escutem, que nos tratem mal, eu não me importo. Sinto que estamos fazendo o que é certo, estamos construindo assembleias populares, estamos falando com as comunidades […] As instituições não devem decidir pelo povo, o povo deve decidir pelo próprio povo. Esse é o horizonte popular pelo qual lutamos.”, relata o manifestante da linha de frente, Luis Artigas.

As ações tomadas pelo povo colombiano devem servir de exemplo para nós. São quase dois meses seguidos de manifestações e os relatos acima são a prova de que o povo tem total capacidade de se organizar para se defender contra os órgãos repressores do Estado e as milícias paraestatais da extrema-direita.

Essas manifestações ocorrem em um cenário de crise em toda América Latina, quase todo o país do continente está convulsionado por algum motivo e isso foi agravado com o aprofundamento da crise causado pela pandemia, jogando esses países numa espiral de miséria, fome, desemprego e catástrofe.

A mobilização no Brasil está só começando e deve ter diversos destes aspectos em mente. Bolsonaro, assim como o resto dos golpistas e da burguesia, não vão ficar assistindo as mobilizações crescerem de braços cruzados — a repressão do povo pobre é diária, assim como pode ser vista no massacre do Jacarezinho e nas tantas outras vítimas da repressão espalhadas pelo Brasil, e tende a crescer com a radicalização da população.

É por isso que a esquerda deve ter como pauta a questão do armamento amplo e irrestrito. Além disso, é também necessário pedir o fim de todas as polícias — a população precisa ter o direito de se defender contra as forças de repressão, sendo ela responsável pela sua própria segurança por meio da criação de comitês de autodefesa, seguindo o exemplo dos colombianos. Assim como eles, é preciso formar esses grupos nas manifestações, para impedir a infiltração de elementos desestabilizadores da extrema-direita, os quais a burguesia tentar infiltrar nos atos para destruí-los.

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A burguesia já pressentiu o perigo. As revoltas populares no Equador, na Bolívia e na Colômbia mostraram para onde o continente caminha. Além da repressão pura e simples, uma das armas fundamentais dos grandes capitalistas na luta contra os operários e o povo é a desinformação, a confusão, a falsificação e manipulação dos fatos, quando não a mentira nua e crua. Neste exato momento mesmo, a burguesia se esforça para confundir o panorama diante do início das mobilizações de rua contra Bolsonaro e todos os golpistas. Seus esforços se dirigem a apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe, substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular. O Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra a burguesia, sua política e suas manobras. 

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