O seguidismo de setores da esquerda pequeno-burguesa nacional à posição do imperialismo mundial em questões decisivas tornou-se, no Brasil, uma espécie de tradição. Tão logo forma-se o consenso entre a burguesia imperialista e a máquina de propaganda entra em cena, esses setores da esquerda aparecem para apoiar a mesma posição, de maneira aberta ou dissimulada. Como não podem justificar sua política com a mesma argumentação que a imprensa capitalista, criam novas teorias, novos conceitos. Não é que uma teoria equivocada levou-os a adotar uma posição também equivocada, mas sua vinculação política e ideológica com o capitalismo e com o imperialismo os impele a criar uma teoria que para justificar ante a esquerda sua posição pró-imperialista.
Podemos citar como exemplo desse fenômeno o golpe de Estado no Brasil em 2016, a esquerda pequeno-burguesa em peso apoiou o golpe de Estado uma de maneira mais aberta como o PSTU, com seu fora todos, o PCB das lutas interburguesas, aos grupos do PSOL, que tinham uma posição que ia do apoio aberto como a CST e o MES, a posições mais dissimuladas. Muitos outros exemplos poderiam ser citados sobre complementariedade da posição da esquerda pequeno-burguesa com a do imperialismo.
Nos momentos decisivos, esses setores sem base social real, acuados, pressionados, fracos são incapazes de levantar uma política independente da burguesia, que vá de encontro com toda a ideologia e a propaganda da burguesia imperialista; resta apenas traduzir a orientação da burguesia para uma linguagem esquerdista. Passam por cima do marxismo, que lhes é estranho como concepção de mundo e teoria científica, usam apenas como slogan, criam novas teorias e conceitos para se justificar para o público pelo fato de defenderem a mesma posição da burguesia imperialista.
A crise entre a Rússia e a Ucrânia, um dos acontecimentos-chave de nosso tempo, que mobiliza toda a opinião pública, onde a burguesia imperialista em guerra contra a Rússia, montou uma verdadeira máquina de propaganda e falsificação anti-Rússia, a esquerda pequeno-burguesa, o que não surpreendeu, em bloco condena a Rússia, assim como faz a propaganda da imprensa capitalista.
Valério Arcary, dirigente do grupo Resistência/PSOL e ex-PSTU, que apoiou o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff e gravou um vídeo icônico afirmando que não haveria golpe, publicou um artigo no sítio do Brasil 247 em que sintetiza um pouco das maluquices da esquerda pequeno-burguesa usa para justificar sua posição reacionária contra a Rússia e em favor da OTAN.
No artigo intitulado “Putin contra Lenin”, Arcary condena a ação militar da Rússia contra o expansionismo da OTAN, que usa o governo fantoche da Ucrânia para ameaçar a Rússia. Na visão de Arcary, não se pode considerar o movimento de Putin como uma guerra defensiva e sim uma guerra de agressão. Segundo Arcary o arsenal nuclear do país já lhes garante autodefesa contra qualquer país, o que é uma bobagem, desde 1991 que o território da antiga URSS vem sendo retalhado pelo imperialismo, também é do interesse do capital internacional dividir o território russo. Também é sabido que o imperialismo financia movimento dentro do país para desestabilizar governos e derrubá-los, levando ao poder governos fantoches.
Ademais, embora seja a Rússia uma potência militar, está longe de a capacidade econômica, produtiva, do imperialismo, fundamental para uma guerra de grandes proporções, isto é, a capacidade de produzir e suprir os exércitos do material necessário, no menor tempo possível.
Mas a grande questão que faz Arcary deplorar, assim como faz a ONU, a ação militar de defesa da Rússia é a tese, tão inovadora, quanto falsa e ridícula defendida por parte esquerda: a Rússia é uma potência imperialista. Para o dirigente do resistência PSOL: “trata-se de uma guerra de conquista e pilhagem”.
E ainda:
“A Rússia não está somente se defendendo da Otan, mas estendendo a sua área de influência. Não precisamos ser “campistas” e escolher um dos dois campos em luta. A URSS não existe há mais de trinta anos. A sua defesa contra o imperialismo foi durante setenta anos uma questão de princípio para marxistas. Mas a Rússia de Putin não é somente um país em que capitalismo foi restaurado com aberrações selvagens e monstruosas e um regime bonapartista ultra-autoritário. Muito pior e mais importante, é uma potência imperialista, ainda que em lugar subalterno. Tanto a russofilia como a russofobia são nocivos para esquerda”.
Alguém poderia se questionar com afirmação tão espantosa, quando foi que a Rússia entrou para o clube seleto de países imperialista, teria sido 1917 na Revolução Russa? Durante a era stalinista? Após a queda da União Soviética? É possível que um país possa chegar a ser imperialista depois do desenvolvimento econômico alemão, tido como último país a chegar atrasado nessa condição? Nem uma palavra é dita sobre tal mudança tão fundamental na economia de um país.
Outros poderiam ainda achar curioso que um país imperialista tenha como base de seu comércio internacional commodities e ainda, que sua participação no mercado internacional de produtos industrializados seja minúscula, embora a vodca e o AK47 sejam produtos conhecidos no mundo inteiro, mas não são exemplos de produtos industrializado e alta-tecnologia, típicas mercadorias exportadas pelos imperialismo.
É evidente que se trata de ridículo, que é levantado para justificar o não apoio a um país atrasado, que acossado pelo imperialismo se defende. O artigo condena a legitimidade da ação russa, não questiona em nenhum momento a legitimidade do regime de Kiev imposto depois do golpe de 2014, que todos eles apoiaram, incluindo o próprio Arcary, que levou a extrema-direita fascista ao poder na Ucrânia. E nem a ação deste governo fascista e dos bandos paramilitares que estão em guerra contra a população russa do Donbass desde 2014 e que já assassinaram milhares de pessoas.
Na luta de um país atrasado como a Rússia contra o imperialismo, que usa a Ucrânia como bucha de canhão para agredir a Rússia, os revolucionários se colocam do lado do país atrasado contra o imperialismo, que se colocou a tarefa de não apenas derrotar os planos imediatos da OTAN, como libertar o povo ucraniano da ditadura nazista estabelecida pela mesma OTAN em 2014.





