Emir Sader publicou uma matéria intitulada “Ser de esquerda hoje”, no portal Brasil 247. O título é um tanto ambíguo, remete a um certo revisionismo, o que não é bom, haja vista a constelação de ‘novas esquerdas’ que vão surgindo com o decorrer do tempo. Todas prometem ‘modernizar o marxismo’ – ainda que a maioria não leia Marx –, mas a coisa descamba de um ‘social-morenismo’ para pior. A esmagadora maioria dos ‘revisionistas’ quase que infalivelmente se aliam à burguesia, gostam de frentes amplas, e são adeptas da política do ‘mal menor’.
O começo do texto diz que o “PT é um partido de esquerda, o mais forte partido de esquerda que o Brasil já teve”. De fato, temos que concordar, pois o PT tem uma grande base popular, controla a CUT, o MST e diversos movimentos sociais, além de ter em suas fileiras ninguém menos que Luiz Inácio Lula da Silva, o principal líder operário brasileiro.
Um pouco a diante, Sader menciona que “sempre houve no PT debates entre posições distintas, daí inclusive a novidade democrática do partido conter presença de diferentes correntes no seu interior”. O PT na sua formação abrigou, sim, várias tendências, mas essa ‘novidade’ não foi assim tão democrática. A Causa Operária, antes de virar um partido, foi expulsa do PT em um processo chamado Regulamentação de Tendências, que configurou uma verdadeira caça às bruxas. Durante o ‘processo’ a Causa Operária, que esteve no partido desde sua origem e durante anos de militância, teve pouco mais de 30 minutos para se defender. O que motivou a expulsão foram as duras críticas à gestão de Luiz Erundina à frente da Prefeitura de São Paulo. Na sequência foi expulsa também a Convergência Socialista, que posteriormente serviu de base para a formação do PSTU.
Direitização
O PT, apesar de ser mesmo esse partido muito grande, também conta com uma ala direita bastante problemática. As gestões petistas sempre foram recheadas de contradições, basta vermos a gestão de Luiza Erundina como prefeita em São Paulo, que perseguiu sindicalistas. Ou Marta Suplicy, que foi apelidada de ‘Martaxa’, em decorrência da enorme quantidade de taxas que acabou cobrando da população em sua gestão.
Nos dias de hoje, temos a situação do governo da Bahia, um dos Estados brasileiros mais importantes, cuja a direitização é acentuada. Apesar de que agora parece terem optado por lançar candidatura própria, os dirigentes estavam a ponto de praticar um suicídio político, pois a ala direita estava a ponto de jogar o governo no colo de ACM Neto. Leia a matéria que publicamos sobre o assunto aqui.
“Os debates internos do PT são sempre saudáveis, colocam as alternativas, obrigam a esclarecer as razões das posições tomadas pelo partido”. Somos obrigados a divergir. A decisão de se colocar Geraldo Alckmin como vice na chapa de Lula não parece ser fruto de nenhum debate. Existe uma grande rejeição ao tucano que é tucano raiz, ligado à repressão brutal contra os trabalhadores. Seu ex-partido, PSDB, esteve no centro do golpe de 2016 que tirou do poder justamente Dilma Rousseff e interrompeu essa série de vitórias do PT nas presidenciais.
Notórias figuras do PT, como os ex-presidentes Rui Falcão e José Genoíno, são publicamente contrários à aliança com Alckmin, bem como amplos setores ─ certamente a maioria ─ das bases petistas, o que pode ser conferido nas manifestações de rua e nas redes sociais. A chapa com Alckmin é, de fato, uma imposição da ala direita do PT sobre Lula e o restante do partido.
Governos petistas
Um dos intuitos do artigo de Emir Sader é fazer um balanço positivo das gestões petistas. Mas antes descreve como, na visão do autor, o PT conseguiu eleger Lula para presidente. As manobras que foram feitas para conseguir votos. E, depois da eleição, teriam sido atacados os problemas das desigualdades sociais: “Lula organizou alianças políticas” e “nunca a esquerda teve tanta força e conseguiu hegemonia no país, como quando o Lula concluiu seu segundo mandato, com 87% de apoio”.

“Uma esquerda que permitiu que o PT tivesse a façanha de ganhar quatro eleições presidenciais seguidas, democraticamente, respeitando os mecanismos republicanos”. Chegou a hora de perguntar; “Sendo o PT um partido tão grande e com tanto apoio, como tomou o golpe tão facilmente?”. Todas as conquistas, extremamente moderadas e escassas, durante os governos petistas, foram devidamente extintas pelo golpe. Os trabalhadores perderam seus empregos, seus direitos trabalhistas, a fome aumenta rapidamente e todos os serviços públicos foram destruídos.
A resposta para a pergunta acima talvez esteja contida na própria frase de E. Sader que diz ‘respeitando os mecanismos republicanos’, ou seja, o PT joga suas fichas na democracia burguesa; é de esquerda, mas não um partido revolucionário. Todo o seu aparato não está direcionado para o debate interno, ao contrário do que menciona Sader, mas sim para a conquista de cargos no parlamento. Isso faz com que no partido não mande a militância, os ativistas, os sindicatos, os movimentos populares, mas sim os burocratas e carreiristas que visam subir na vida.
Finalmente
Depois de muito, eis que quase no final da matéria aparece o ponto principal que Emir Sader está defendendo: os acordos com a direita. “[Lula] se deu conta que, para voltar a colocar em prática essas posições, é condição a derrota do bolsonarismo, para o que é indispensável contar com um amplo marco de alianças políticas, tanto para vencer as eleições, como poder governar”. (grifo nosso)
Toda aquela conversa de debate interno, tendências, não serve para nada: a decisão, segundo Sader, cabe a Lula ─ e, se sua posição for esquerdista demais, cabem chantagens por parte da ala direita. No mais, É notório que a esmagadora maioria da esquerda pequeno-burguesa ─ cujas estruturas partidárias são ainda mais antidemocrática que as do próprio PT ─ quer uma frente com isso que eles chamam de ‘direita democrática’, um nome bonito para ‘golpistas arrependidos’. A diferença da posição com as do PSOL, é que apesar de ser um fervoroso defensor da frente ampla, o PSOL queria isso sem Lula, pois trabalhava para consolidar a terceira-via.
Emir Sader, como tantos outros, não confia na força das ruas para garantir a vitória eleitoral do PT e um mínimo de governabilidade em um eventual governo Lula. Diferentemente deste Diário, que acredita que é justamente a mobilização popular que detém a força para derrotar o golpe. Toda a movimentação é feita de cima para baixo. A ala direita do PT não confia nas massas porque há tempos vem se afastando de sua base social. Formou-se aí uma espécie de camada que vive das eleições, dos cargos parlamentares, portanto é natural que busquem apenas alianças. Ou seja, uma parte do PT vem se integrando não só ao Estado burguês mas ao próprio regime golpista e existe aí uma contradição que o partido não está sendo capaz de superar.
No entanto, o embate das bases e da ala esquerda do partido para que o PT não se subjugue diante das pressões da burguesia (através de sua ala direita) passa exatamente pela luta por transformar a candidatura Lula em um poderoso movimento social de massas, que dê o controle de sua campanha para as bases do partido e para a classe operária. É isso que a burguesia e os partidos golpistas querem impedir.





