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Contra a cultura nacional

Falar em “paulistocentrismo” é atacar o modernismo Brasileiro

Campanha da burguesia procura demonstrar que a Semana de Arte Moderna seria um acontecimento para defender uma suposta "Supremacia Paulista"

Anúncio no jornal da Semana de Arte Moderna de 22 – Foto: Reprodução

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O ano de 2022 tem uma importância grande por marcar, entre outras datas, o bicentenário da Independência do Brasil, o centenário da fundação do Partido Comunista Brasileiro e o centenário da Semana de Arte Moderna, também conhecida como “Semana de 22”.

Este acontecimento é o marco do início do movimento modernista no Brasil. Um movimento artístico com uma estética própria e com uma produção de altíssimo nível, que elevou a arte no Brasil a um novo patamar. Nomes como Tarsila do Amaral, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Heitor Villa-Lobos, Di Cavalcanti, Victor Brecheret, Graça Aranha e muitos outros, são relacionados, direta ou indiretamente, com o evento.

A semana de Arte Moderna ocorreu entre os dias 13 e 18 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, que esteve aberto para visitação durante o período, e foi um divisor de águas na cultura nacional. Durante o evento, apresentações de música e conferência se intercalavam com a exposição de escultura, pintura e arquitetura.

Os artistas fizeram parte do evento eram todos influenciados pelas vanguardas europeias e conseguiram, de forma “antropofágica”, como colocaria Oswald de Andrade, criar um modernismo totalmente brasileiro. Um feito de proporções gigantescas e que vem em um momento histórico e político marcado por um grande desenvolvimento das forças produtivas do país, que procurava sair de sua situação de um país rural e atrasado e caminhava para uma industrialização e modernização cada vez maiores. Um país que se desenvolve também produz uma cultura que se desenvolve.

Os modernistas defendiam a “supremacia paulista”?

No entanto, há pessoas que procuram manchar e menosprezar com considerações absurdas este que foi um dos mais importantes acontecimentos da cultura mundial no Século XX. No caso da matéria saída na edição do dia 27 de junho do jornal Folha de São Paulo, o ataque à cultura e a história nacional vem recoberto de uma demagogia identitária. O título “São Paulo vê Semana de 22 sob novas perspectivas” esconde o conteúdo do texto, o qual procura desqualificar e relativizar a importância do evento, sob o ângulo absurdo de que esse seria “paulistocêntrico”.

O resumo da matéria diz:

“No centenário da Semana de 22, exposições, livros e série de TV contestam a supremacia paulista e comprovam que inúmeras expressões modernistas aconteceram pelo Brasil, antes e depois de 1922. Levantamento da Folha apresenta 169 expoentes do modernismo nas cinco regiões do país”

A notícia é que há diversas exposições em São Paulo procurando demonstrar que a Semana de 22 teria sido algo feito intencionalmente para ofuscar os artistas de outras regiões do Brasil. A matéria cita algumas, como “Raio-que-o-parta: Ficções do Moderno no Brasil”, que, para polemizar com a Semana de 22, apresenta outros artistas da mesma época, provenientes de outros estados do país e que não teriam sido, supostamente, contemplados pelo movimento.

A matéria da Folha de S. Paulo também cita a exposição chamada “Modernos”, que mostra artistas de “Antes de 22” e “Depois de 22”, considerados por seus curadores tão importantes quanto os mais conhecidos da Semana de 22, mas relegados ao ostracismo por não se encaixarem no dito “paulistocentrismo” dos modernistas de São Paulo.

A colocação é absurda. A utilização de termos como “supremacia paulista” indica algo aparentemente sinistro, macabro e de cunho quase nazista. No entanto, não se trata de nada disso. A Semana de Arte Moderna de 1922 ocorreu na Capital Paulista simplesmente por esta ser o centro do desenvolvimento do país. Vários dos artistas que participaram da Semana de 22, e do movimento modernista como um todo, eram nascidos em outros estados do Brasil. Heitor Villa-Lobos e Di Cavalcanti eram do Rio de Janeiro, a pintora, desenhista e ceramista Zina Aita era de Minas Gerais, o escritor Graça Aranha era maranhense, Manuel Bandeira era pernambucano, apenas para citar alguns dos mais conhecidos.

Todos esses artistas brasileiros (e alguns até estrangeiros radicados no Brasil, como o suíço John Graz) se encontraram na cidade brasileira de maior desenvolvimento econômico, onde também ocorria toda uma efervescência cultural, e se propuseram a organizar o que seria um dos movimentos artísticos de maior influência da história do país. Em nenhum momento deste importante acontecimento foi colocada a questão de que há uma superioridade nos paulistas e nem nada do tipo.  Além disso, não havia a intenção de realizar um evento municipal ou estadual, era algo de alcance nacional.

Um marco histórico de impacto nacional

A matéria continua, desta vez citando seus especialistas contratados:

‘”Encontraremos incontáveis evidências de que a Semana faz parte de um amplo (e descontínuo) processo que a extrapola, tanto temporal quanto territorialmente”, escrevem as curadoras Aracy Amaral e Regina Teixeira de Barros no principal texto do catálogo da exposição “Moderno Onde? Moderno Quando?”, apresentada no MAM-SP (Museu de Arte Moderna) de setembro a dezembro de 2021.’

Qualquer pessoa que conhece o funcionamento de grandes movimentos de qualquer tipo compreende que marcos como a Semana de 22 não são acontecimentos inéditos, que vêm do nada. Trata-se da culminação de toda uma tendência cultural. É semelhante à história do Romantismo, por exemplo. Os autores mais lembrados dessa escola são os franceses, mas o movimento não se iniciou lá. Ele apareceu na Alemanha, muitos anos antes. No entanto, essa escola artística alemã não teve o desenvolvimento ideológico, político e literário quando comparado ao romantismo francês.

O mesmo ocorre com a Semana de 22. É evidente que já havia artistas a aderirem à estética modernista em todo o país, mas o evento em São Paulo teve um impacto muito grande, foi a explosão do movimento, o estabelecimento de sua presença e existência no Brasil.

A campanha organizada contra o Modernismo brasileiro

A matéria da Folha de S. Paulo não é um fato isolado. Foram divulgados inúmeros textos em outros jornais burgueses, como O Globo e no Estado de São Paulo, além de palestras ministradas na própria Universidade de São Paulo e outras instituições acadêmicas, procurando atacar a Semana de Arte Moderna, através da tese de que essa teria um caráter até negativo, cuja função seria a de ofuscar os artistas modernos de todo o Brasil para defender uma “supremacia paulista”. É um movimento orquestrado e incentivado pela burguesia que defende os interesses do imperialismo.

O ataque à cultura nacional vem junto com o ataque à história nacional, como no caso dos bandeirantes. Esse movimento é liderado por setores que querem passar todo o país para as mãos de capitalistas estrangeiros. Ele também aparece na ofensiva imperialista sobre a floresta Amazônica, pela campanha contra a construção de hidrelétricas (e, consequentemente, a privatização da Eletrobras), além da polêmica levantada por elementos do PSOL com o programa apresentado pela equipe da candidatura de Lula, defendendo que deveria constar neste programa uma diminuição na extração de petróleo.

É preciso denunciar essa tentativa de entregar o Brasil de mão beijada ao imperialismo. O ataque à Semana de Arte Moderna é parte de uma falsificação generalizada da história do país, inclusive culturalmente. Com a ajuda da demagogia ecológica e com os índios, a campanha procura fazer a defesa de um Brasil rural, desindustrializado e atrasado. Deve-se combater duramente essa ideia e todos os entreguistas, representados pela política da Terceira Via e da burguesia golpista.

A você que chegou até aqui,

agradecemos muito por depositar sua confiança no nosso jornalismo e aproveitamos para fazer um pequeno pedido.

O Diário Causa Operária atravessa um momento decisivo para o seu futuro. Vivemos tempos interessantes. Tempos de crise do capitalismo, de acirramento da luta de classes, de polarização política e social. Tempos de pandemia e de política genocida. Tempos de golpe de Estado e de rebelião popular. Tempos em que o fascismo levanta a cabeça e a esquerda revolucionária se desenvolve a olhos vistos. Não é exagero dizer que estamos na antessala de uma luta aberta entre a revolução e a contrarrevolução. 

A burguesia já pressentiu o perigo. As revoltas populares no Equador, na Bolívia e na Colômbia mostraram para onde o continente caminha. Além da repressão pura e simples, uma das armas fundamentais dos grandes capitalistas na luta contra os operários e o povo é a desinformação, a confusão, a falsificação e manipulação dos fatos, quando não a mentira nua e crua. Neste exato momento mesmo, a burguesia se esforça para confundir o panorama diante do início das mobilizações de rua contra Bolsonaro e todos os golpistas. Seus esforços se dirigem a apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe, substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular. O Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra a burguesia, sua política e suas manobras. 

Diferentemente de outros portais, mesmo os progressistas, você não verá anúncios pagos aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos de maneira intransigente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Trabalhamos dia e noite para que o DCO cresça, se desenvolva e seja lido pelas amplas massas da população. A independência em relação à burguesia é condição para o sucesso desta empreitada. Mas o apoio financeiro daqueles que entendem a necessidade de uma imprensa vermelha, revolucionária e operária, também o é.  

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