Menu da Rede

A farra das empresas de ônibus com dinheiro público

Lina Noronha

Trabalha no serviço público como músico-instrumentista (toca oboé). É professora doutora em música. Militante da solidariedade à Cuba e do PT, apresenta o programa semanal Cubanias, na Kotter TV. Mãe de um rapaz PCD, atua também na formação de professores para educação especial e inclusiva

Repertório sinfônico

Por que ignoramos a música latino-americana?

No cenário da música de concerto brasileira, o que se pode observar é o quanto a música de compositores latino-americanos é sistematicamente ignorada

A Camerata Romeu – Foto: Reprodução/Camarata Romeu

Receba o DCO no Email

Hoje, quero tratar sobre o repertório das orquestras sinfônicas e o quanto se reflete aí a dominação cultural sob a qual vivemos.

As orquestras são uma criação europeia e seu repertório reflete essa origem. A música dos compositores europeus, sobretudo do universo germânico, domina o conjunto de obras consideradas canônicas no repertório não apenas orquestral, mas de toda a música de concerto. Nossa cultura é eurocentrista e a música de concerto não foge à regra.

Sempre ouvi reclamações sobre a pouca execução de peças brasileiras pelas nossas orquestras. Mas nunca ouvi qualquer comentário sobre a ausência de obras de compositores de outros países latino-americanos. Esse repertório é completamente ignorado pelas orquestras brasileiras em geral. E eu diria que na música de concerto em geral, no Brasil.

Não só na música de concerto, mas também na música popular, o Brasil vive de costas para os países vizinhos. No caso da música popular, é possível considerar, talvez, a língua como um limitador ao acesso dos brasileiros à música de outros países da América Latina. O Brasil é muito centrado em si mesmo no que diz respeito à canção. Os povos vizinhos nos conhecem muito mais do que nós a eles, quando se trata de música.

Na música de concerto brasileira, raramente se ouve falar algo sobre compositores latino-americanos e mais raramente ainda se pode ouvir alguma peça desse repertório

Ver e ouvir o outro, na sua alteridade, é uma forma de enxergar a si mesmo e de se dar conta de suas características próprias. Foi o que aconteceu comigo ao assistir pela internet uma transmissão ao vivo da Camerata Romeu, uma orquestra de câmara cubana.Não foi o primeiro concerto em que pude ouvir um programa orquestral com obras latino-americanas. Isso já tinha acontecido no começo de 2020, quando estive presencialmente em um concerto de outra orquestra cubana, por ocasião de um colóquio de musicologia, na Casa de las Américas, em Havana.

Ouvir um repertório para mim desconhecido, diferente do habitual e com esse recorte latino-americano, me fez refletir no quanto fui privada de ter acesso a esse material, enquanto instrumentista e enquanto ouvinte. Por que não temos acesso a esse repertório? Se essas peças não chegam até nós, nem mesmo temos a opção de gostar ou não, ou de procurar conhecer mais da produção dos compositores latino-americanos. Para as orquestras brasileiras e, consequentemente, para o nosso público, esse repertório não existe. Somos todos privados dele.

A musicóloga Eliana Monteiro da Silva narra, em uma pesquisa sobre a pianista Beatriz Balzi e repertório por ela escolhido, a atuação de uma instrumentista no Brasil, no final do século XX, e seu esforço no sentido de trazer à luz obras de autores de países latino-americanos, então ignorados por aqui. De lá para cá, o cenário mudou muito pouco. Se agora encontramos algumas pesquisas sobre autores de países vizinhos, o repertório praticado nas nossas escolas de música e salas de concerto segue ignorando os compositores latino-americanos. Eliana fala da pianista “Beatriz Balzi e sua militância pelo piano da América Latina”. Parece que ainda é preciso contar com a presença de músicos “militantes” para que olhemos em direção à produção musical latino-americana.

A música não é algo que possa ser estudado como um objeto isolado. Para a compreensão de qualquer fato entendido como música é preciso considerar o contexto sociológico, histórico, político e cultural em que ele se insere. Podemos entender a situação de invisibilidade da música latino-americana no Brasil como um traço da condição de subserviência e subalternidade cultural do país em relação à cultura hegemônica. Ao que parece, os responsáveis pela escolha do repertório de nossas orquestras não se preocupam com essa atitude.

Cuba, ao contrário, é marcada pela grande valorização das artes e da cultura, assim como sua identidade cultural. A raiz da valorização do repertório não apenas cubano, mas latino-americano, naquele país, pode ser encontrada naquilo que embasa as concepções sociológicas, históricas e culturais da Cuba pós-Revolução: o pensamento martiano. Considerado o apóstolo da independência cubana, o intelectual e revolucionário José Martí (1853-1895) foi quem concebeu a ideia de unidade entre os povos da América Latina, a partir do conceito exposto sob o rótulo “Nossa América”. Conforme José Rodrigues Máo Júnior expõe, em seu livro “A Revolução Cubana e a questão nacional”:

A partir de suas observações e experiência vividas nos países latino-americanos, Martí percebeu a existência de características comuns a estas sociedades, o que mais tarde tornou possível que ele vislumbrasse não apenas a existência de uma identidade comum a estes países, mas também a existência de uma unidade de naturezas geográfica, histórica e social […]. Martí viria a adjetivar esta unidade com a expressão Nossa América.

A Revolução cubana tem o pensamento de Martí como a base de sua construção um delineador das concepções educacionais e culturais do país até hoje. É nesse contexto de maior sentimento de conexão, no conjunto dos povos da América Latina, que se pode compreender a possibilidade de abertura ao repertório orquestral latino-americano.

Nossa música precisa de renovar e se desvencilhar do tradicional “viralatismo” brasileiro, tão mencionado para falar do complexo de inferioridade e da subserviência cultural, herdados dos tempos do Brasil Colônia. O que José Rodriguez Máo Júnior escreveu sobre a época de Martí se aplica a esse caso.

O sentimento de inferioridade, aliado à ausência de identidade sociocultural mais sólida, fazia com que os elementos das elites latino-americanas se vissem tentados a negar suas origens para incorporar mecanicamente os arquétipos e aspectos exteriores da civilização europeia.

Se as abordagens da musicologia brasileira já assimilam as teorias da decolonialidade, desconstruindo a tradicional produção eurocentrista, o mesmo não se pode afirmar sobre a nossa prática orquestral. Sugiro aos responsáveis pelas orquestras brasileiras que comecem, ao menos, a prestar atenção ao trabalho dos cubanos e de suas orquestras, para talvez algum dia alcançar “um ponto de equilíbrio entre a individualidade da cultura americana [em referência ao nosso continente] e sua integração no seio de um saber universal”, para usar mais uma vez as palavras de José Rodrigues Máo Júnior.

É preciso reconhecer que a atual situação política do Brasil só favorece o isolacionismo em relação à América Latina e a postura subserviente aos países hegemônicos política e economicamente. Mais necessária se faz a atuação de intelectuais e artistas para que possamos reverter esse quadro.

Caso alguém tenha interesse em ouvir o concerto da Camerata Romeu a que me referi, deixo o link.

A posição dos colunistas não reflete, necessariamente, a posição deste Diário.

A você que chegou até aqui,

agradecemos muito por depositar sua confiança no nosso jornalismo e aproveitamos para fazer um pequeno pedido.

O Diário Causa Operária atravessa um momento decisivo para o seu futuro. Vivemos tempos interessantes. Tempos de crise do capitalismo, de acirramento da luta de classes, de polarização política e social. Tempos de pandemia e de política genocida. Tempos de golpe de Estado e de rebelião popular. Tempos em que o fascismo levanta a cabeça e a esquerda revolucionária se desenvolve a olhos vistos. Não é exagero dizer que estamos na antessala de uma luta aberta entre a revolução e a contrarrevolução. 

A burguesia já pressentiu o perigo. As revoltas populares no Equador, na Bolívia e na Colômbia mostraram para onde o continente caminha. Além da repressão pura e simples, uma das armas fundamentais dos grandes capitalistas na luta contra os operários e o povo é a desinformação, a confusão, a falsificação e manipulação dos fatos, quando não a mentira nua e crua. Neste exato momento mesmo, a burguesia se esforça para confundir o panorama diante do início das mobilizações de rua contra Bolsonaro e todos os golpistas. Seus esforços se dirigem a apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe, substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular. O Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra a burguesia, sua política e suas manobras. 

Diferentemente de outros portais, mesmo os progressistas, você não verá anúncios pagos aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos de maneira intransigente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Trabalhamos dia e noite para que o DCO cresça, se desenvolva e seja lido pelas amplas massas da população. A independência em relação à burguesia é condição para o sucesso desta empreitada. Mas o apoio financeiro daqueles que entendem a necessidade de uma imprensa vermelha, revolucionária e operária, também o é.  

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com valores a partir R$ 20,00. Obrigado.

SitesPrincipais
24h a serviço dos trabalhadores

DCO

O jornal da classe operária
Sites Especiais
Blogues
Movimentos
Acabar com a escravidão de fato, não só em palavras
Outros

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.