João Jorge Caproni Pimenta é estudante de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Militante do Partido da Causa Operária (PCO) e coordenador da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR).

Iniciou sua militância política e estudantil em Junho de 2013, quando a juventude e os trabalhadores realizaram uma grande mobilização contra o governo do Estado de São Paulo, então liderado por Geraldo Alckmin (PSDB).

Responsável pela Agitação e Propaganda do PCO, João Caproni Pimenta é editor do Diário Causa Operária e da Causa Operária TV. Também é colunista do Jornal Causa Operária e co-autor do livro “A Era da Censura das Massas”, junto com Rui Costa Pimenta, presidente do Partido.

Membro da Direção Estadual de São Paulo do PCO. Jornalista. Membro da Coordenação da AJR, juventude do PCO

Uma lição de anti-imperialismo

Três pessoas e uma arma: uma homenagem ao cemitério de impérios

É preciso defender os povos oprimidos. É preciso saudar a insurreição popular que pôs fim à ocupação americana

Imagine-se na seguinte situação: você está numa sala, há apenas 3 pessoas, cada uma com um revólver, você é uma delas, um soldado Ranger americano é outra, o último é militante Talibã. A sala fica no deserto em volta de Candaar, no Afeganistão. Os Talibã e o americano apontam, um para outro, o revólver e a coisa estabelece-se num impasse. Você é o fiel da balança, o que você faz?

Este exercício mental é interessante, pois reduz o confuso debate que a direita e os seus lacaios dentro da esquerda estão travando contra nós, a esquerda anti-imperialista e revolucionária. O cenário pintado é de uma guerra, é de uma ação concreta: americanos e Talibãs estão se digladiando, o que fazer? Não é possível fazer exercícios retóricos, não é possível atirar em um sem, na prática, apoiar o outro.

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Muitos dirão: violência não é política. Estão errados. Carl von Clausewitz, um dos maiores teóricos da guerra, uma vez disse: a guerra é a continuação da política por outros meios. Não poderia ser diferente, a política é a luta de classes, a guerra civil ou de nações é a forma mais extremada dessa luta de classes.

Setores da direita bolsonarista, da direita tucana, da imprensa incrivelmente vendida ao imperialismo e até da esquerda nacional passaram a semana criticando o PCO por saudar a vitória do Talibã e do povo afegão sobre os EUA. Para criticar-nos, dizem: o Talibã é contra os direitos das mulheres, fez isso, fez aquilo, fez aquele outro. Mas então o que propõem? Qual é o certo? É defender a ocupação americana? Alguns dizem e criam uma forma abstrata de política, pressionados pela pressão imperialista: você tem que ficar contra os dois. Tem que ser a favor da desocupação, mas não pode comemorar. Isso é a praga do centrismo.

Por isso a sala com o Talibã e o Ranger. Como ser contra um se apoiar o outro? Se atirar no americano você está salvando a vida do Talibã, aquele mesmo talibã pode cometer as atrocidades que a imprensa está divulgando. Se matar um soldado americano você está colocando o talibã um passo mais perto do governo. O inverso também é verdade. Atacar os EUA favorece o Talibã, a Al-Qaeda e outros. Atacar os jihadistas favorece os EUA.

A esquerda, até uns que se dizem comunistas, como Jones Manoel e o PCB, decidiram ficar contra o Talebã e criticar o PCO. Mas se estivessem no deserto, ou nas ruas de Candaar, o que fariam no meio da troca de tiros?

No fim a coisa se resume ao seguinte: de um lado temos um governo imperialista que seria, teoricamente, civilizado, respeita os direitos das minorias, do outro, bárbaros que lutam contra o estrangeiro que ocupou sua terra natal. O que valorizamos mais? civilidade ou autodeterminação? Esse é um falso debate, feito sob medida para os identitários de plantão, que receberam uma educação universitária cheia de preconceitos imperialistas.

O Afeganistão é um dos piores lugares do mundo em termos de desenvolvimento humano. A maior parte do país é rural, num deserto, a organização social é majoritariamente formada por Tribos. Essas pessoas não têm acesso à nada, não tem nada. Lutam para sobreviver. Apenas 45% sabem ler. 33% não tem água potável. Apenas 35% tem acesso à energia elétrica. Entre 10% e 20% conseguem acessar a internet. Os capachos da CNN dizem que o Talibã é medieval. Erraram de novo. Ele é está mais próximo do Código de Hamurábi do que da Paris do século XII, curiosamente, o Afeganistão está, também, mais próximo da mesopotâmia do que de uma nação medieval.

Na sua crítica do programa de Gotha, Marx dá uma lição aos civilizadores de plantão: o Direito não pode ser maior que a estrutura econômica da sociedade e o desenvolvimento cultural condicionado por essa estrutura. Apliquemos isso ao Afeganistão: Economia com padrão de 5000 mil anos atrás, costumes de 5000 anos atrás, leis de 5000 anos atrás. Não é uma correspondência direta a relação leis/costumes/economia, mas não dá para o Afeganistão de agora virar o Leblon em termos de costumes.

A ideologia Talibã é uma expressão do profundo atraso social daquele povo. O imperialismo é o principal responsável por isso. Essa terra amaldiçoada teve que enfrentar a invasão mongol de Gengis Khan, os persas, depois o imperialismo Britânico, vários governos, fantoches de diversas nações. Em 1969, depois de 2000 anos de luta sangrenta e destrutiva, uma revolução acontece levando um partido comunista ao governo, parecia que uma era de desenvolvimento estava raiando. O mesmo imperialismo que hoje se diz civilizatório financiou grupos guerrilheiros que iriam se tornar o Talibã contra o governo comunista. Os stalinistas invadiram o país para manter o governo apoiado por eles, lutaram por mais de 10 anos, a guerra liquidou o País, o partido comunista local e a união soviética. Ao fim de uma guerra sangrenta, o que sobrou era o Talibã, comando o país.

Querem falar que estes bárbaros eram fantoches dos EUA, isso não é verdade. Eles eram aliados de ocasião dos EUA. No governo, se tornaram inimigos dos EUA, pelo mesmo nacionalismo que os opôs aos russos.

Aquela terra amaldiçoada é apelidada de “O Cemitério de Impérios”, eles passaram milênios lutando contra o invasor estrangeiro, levaram abaixo o Imperío Britânico, faliram a URSS, que não era um império mas tinha porte de um, e agora derrotaram os Estados Unidos, a ditadura global.

A luta daquele povo deveria encher qualquer revolucionário de orgulho. Engels uma vez disse sobre eles: “Os afegãos são uma raça corajosa, dura e independente”. São mesmo, são a prova de que mesmo a menor nação do mundo, a mais fraca, tem o direito de resistir, e pode vencer o maior dos inimigos. O presidente de Cuba felicitou-os, nós também felicitamos, felicitamos todos aqueles que lutam contra o grande mal da nossa época.

Quem oprime as mulheres do Afeganistão? Os EUA ou o Talibã? Os EUA que oprimem as mulheres de lá. Não fosse a destruição desse e de outros que vieram antes deles, eles poderiam ter se desenvolvido, progredido no sentido de um esclarecimento e de uma libertação geral. A chaga daquela região não é o Talibã, o Hamas e o islamismo. A chaga deles é uma bandeira azul, vermelha e branca, um século de bombas e do colonialismo imperialista. O Talibã foi apoiado pelo povo de lá para enfrentar os EUA, só assim se ganha da máquina de guerra imperialista. Foram apoiados por quê uma lição eles aprenderam: é preciso exigir a sua liberdade, a sua autodeterminação. O Talibã é afegão, tem costumes afegãos, os invasores não. Ponto final.

Temos que nos livrar dos americanos e buscar desenvolver a região econômica, social e culturalmente. A colonização imperialista é o principal entrave a esse desenvolvimento.

Eu defendo a liberaçtão da mulher, das nações, da raça humana, defendo o fim da opressão do homem pelo homem. Defendo o progresso humano, ou seja, o fim da sociedade de classes, o socialismo. Quem está do lado da libertação da mulher naquela luta, paradoxalmente, é o Talibã. Ideologia não define o nosso papel na história, o nosso papel na luta de classes define se somos progressistas ou reacionários. Neste caso, os mujahidin são os civilizatórios, e as Hillary Clinton os bárbaros selvagens.

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O Diário Causa Operária atravessa um momento decisivo para o seu futuro. Vivemos tempos interessantes. Tempos de crise do capitalismo, de acirramento da luta de classes, de polarização política e social. Tempos de pandemia e de política genocida. Tempos de golpe de Estado e de rebelião popular. Tempos em que o fascismo levanta a cabeça e a esquerda revolucionária se desenvolve a olhos vistos. Não é exagero dizer que estamos na antessala de uma luta aberta entre a revolução e a contrarrevolução. 

A burguesia já pressentiu o perigo. As revoltas populares no Equador, na Bolívia e na Colômbia mostraram para onde o continente caminha. Além da repressão pura e simples, uma das armas fundamentais dos grandes capitalistas na luta contra os operários e o povo é a desinformação, a confusão, a falsificação e manipulação dos fatos, quando não a mentira nua e crua. Neste exato momento mesmo, a burguesia se esforça para confundir o panorama diante do início das mobilizações de rua contra Bolsonaro e todos os golpistas. Seus esforços se dirigem a apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe, substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular. O Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra a burguesia, sua política e suas manobras. 

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