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Dominação imperialista
O ataque ao futebol brasileiro é a colonização do País
A ideologia do “futebol moderno”, controlado pelo imperialismo nos domina culturalmente para nos dominar política e economicamente
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Dominação imperialista
O ataque ao futebol brasileiro é a colonização do País
A ideologia do “futebol moderno”, controlado pelo imperialismo nos domina culturalmente para nos dominar política e economicamente
Pelé (Santos) e Píter (Comercial-RP), considerado pelo Rei como seu melhor marcador, nos anos 60.
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Pelé (Santos) e Píter (Comercial-RP), considerado pelo Rei como seu melhor marcador, nos anos 60.

Se é fato que o brasileiro forma sua personalidade aprendendo a chutar uma bola, a torcer para um time de futebol ou na hipótese menos intensa olhando os adultos mais próximos envolvidos na emoção desse esporte, é fato também que entre as camadas médias da população, normalmente aquelas que têm maior acesso à informação, há uma propaganda ideológica que diz que o futebol seria um mal, um elemento de “alienação” do povo. Tal ideologia chega inclusive ao ponto de atribuir ao esporte bretão a culpa pelas mazelas do País. Quem nunca ouviu ou até mesmo repetiu as frases: “o povo só pensa em futebol” ou “enquanto os políticos roubam, o povo só se preocupa com futebol” ou “futebol é a política do pão e circo”? A esquerda pequeno-burguesa, acostumada com as discussões vazias dos círculos acadêmicos e sem dar importância para as coisas genuínas do povo, acaba sendo um importante meio de transmissão dessa ideologia.

O objetivo dessa coluna não é tanto revelar o absurdo de tal ideologia mas mostrar que na atual etapa do capitalismo internacional e especificamente no Brasil ela não é apenas uma ideia equivocada mas uma ideologia reacionária a serviço dos interesses dos mais obscuros interesses imperialistas.

Um produto genuíno da cultura nacional

O futebol é o esporte mais popular do mundo, não há dúvida disso. O Brasil tem uma importante parcela de culpa nessa popularização. O esporte veio da Inglaterra, trazido por Charles Miller, e como resultado de uma intensa luta social que não nos cabe pormenorizar aqui, acabou se transformando num esporte do povo, praticado pelo povo, pelos trabalhadores, pelos negros.

O resultado dessa luta, que de certa forma acontece até os dias de hoje, foi que os trabalhadores, em particular o povo negro, conseguiu se apropriar do esporte vindo da Inglaterra e mais do que isso conseguiu transformar o esporte dando novos contornos, introduzindo novas habilidades que foram exportadas para o resto do mundo. O povo brasileiro recebeu um esporte importado da Europa e exportou para os europeus um novo esporte, uma nova forma de jogar e compreender o jogo. O brasileiro engoliu aquele esporte, mastigou, deglutiu, digeriu e produziu algo completamente novo, que partia das características iniciais, mas que não é o futebol como se conhecia antes.

Nesse sentido, é correto afirmar que o futebol brasileiro é um produto genuíno da cultura nacional. Ou seja, o futebol é parte indissociável da formação da cultura e da sociedade brasileiras.

Apenas por esse fato já é possível perceber que os ataques contra o futebol, mesmo quando aparecem com verniz pseudo-esquerdista como no caso do “futebol é alienação”, são na realidade um ataque profundo ao povo brasileiro. Atacar o futebol é como atacar o samba, a música caipira, o baião etc, é como atacar os movimentos literários nacionais, é como atacar nossa história.

Agora, parênteses: a colonização de um povo passa por colonizar sua cultura para desmoraliza-lo, convencê-lo que é inferior e assim facilitar o roubo de suas riquezas. Dito isso, fica óbvio que o futebol é um alvo preferencial dos nossos colonizadores. E ainda há um agravante nisso tudo.

Um grande negócio para os monopólios capitalistas

O futebol não é simplesmente uma expressão cultural. É um gigantesco negócio capitalista que envolve milhões e milhões todos os anos, seja nas transações dos jogadores, seja nas definições dos campeonatos. Grandes monopólios que patrocinam os clubes e jogadores, os especuladores que ganham com as ofertas dos passes dos atletas, os direitos de transmissão e outras movimentações financeiras que fazem desse esporte mais popular do mundo, também o mais rico do mundo.

E aí existe um problema, uma contradição. Um país atrasado economicamente como o Brasil não pode dominar o esporte mais popular do mundo. É aí que está a necessidade do imperialismo atacar o futebol brasileiro. É preciso garantir o predomínio dos monopólios europeus no esporte mais lucrativo do mundo.

Na atual etapa do capitalismo, de profunda crise econômica, o imperialismo aumenta a carga contra o Brasil. E é aí que entra os atuais acontecimentos envolvendo o futebol brasileiro. Nenhum deles são coincidências, nem acasos. Vejamos:

A CBF, juntamente com os deputados golpistas, Rodrigo Maia (DEM) estando à frente, se apressa em aprovar um projeto de clube-empresa. Caso seja aprovado, tal projeto irá aprofundar o domínio dos grandes monopólios capitalistas no futebol brasileiro. A tendência monopolista do atual estágio do capitalismo se expressa em todos as aspectos da vida social, incluindo aí o esporte e a cultura. Não pode haver dúvida que o objetivo dos grandes capitalistas é transformar o Brasil em um País com poucos times competitivos, como acontece nos países europeus. Logicamente que pela tradição do futebol brasileiro e pelo tamanho do País e da sua população esta não será uma tarefa fácil, mas é esse o objetivo. De certa maneira, nas últimas décadas é isso que vem acontecendo, com a destruição dos clubes do interior ou os chamados “pequenos”. O exemplo da grande e tradicional Portuguesa de Desportos talvez seja o mais dramático, mas há muitos outros casos dramáticos.

Perseguição às torcidas é parte do ataque ao futebol

Fazem parte desse movimento no sentido do clube-empresa as proibições contras as torcidas, a censura e perseguição contra as organizadas e os preços exorbitantes das arenas. Do mesmo jeito que um patrão se esforça para impedir e atrapalhar a organização dos trabalhadores, um empresário não quer que o clube que ele administra seja influenciado pelas pressões de uma massa popular organizada, que são as torcidas.

A prefeitura de São Paulo anunciou esta semana a privatização do Pacaembú, um dos estádios mais tradicionais do mundo. Não bastasse a privatização, o tobogã será demolido para a construção de um prédio comercial. É como se decidissem privatizar o Museu do Ipiranga e demolir alguns de sus cômodos para transformar em Shopping Center.

“Futebol moderno”: ataque é também ideológico

Outro exemplo importante de ataques ao futebol brasileiro é a campanha que tem sido feita contra a Seleção, contra os jogadores – Neymar sendo alvo principal – e contra os técnicos brasileiros. Independente da consideração sobre a CBF e os jogadores milionários (nenhuma diferença em relação aos jogadores estrangeiros e às outras federações pelo mundo), a campanha de que a Seleção não presta e que inclusive o brasileiro deveria torcer contra é muito presente, principalmente na classe média tanto de esquerda e quanto de direita.

Outro aspecto do ataque é que desde que o Brasil se mostrou uma Seleção quase imbatível, os Europeus colonizadores do País buscam influenciar ideologicamente os brasileiros de que seria necessário um esquema tático mais defensivo. É como se o Brasil estivesse moralmente proibido de jogar o seu estilo genuíno de futebol. Essa campanha, reproduzida incessantemente pela imprensa golpista nacional colonizada, ganhou força talvez a partir do início dos anos 90.

Esse futebol controlado pelos monopólios imperialistas, defensivo e de perseguição às torcidas é o chamado “futebol moderno”.

Chamou a atenção essa semana uma pesquisa feita pelo instituto DataFolha sobre o tamanho das torcidas no País, não pelo resultado, já que não há grandes novidades tendo Flamengo, Corinthians, São Paulo e Palmeiras ocupando as quatro primeiras posições, mas pela interpretação dada pela revista Veja, um dos principais veículos golpistas e portanto uma das principais correias de transmissão pró-imperialista. A matéria da Veja decidiu falsificar descaradamente o resultado da pesquisa para questionar se o Brasil é o País do futebol.

Segundo a matéria, os 22% de pessoas que afirmam não torcer para nenhum time mostram que os brasileiros não ligam para o futebol. Uma falsificação grotesca, já que 78% afirma torcer para algum time, ou seja, a esmagadora maioria. O interesse da golpista Veja está claro: procurar convencer o brasileiro, especificamente a classe média que a lê, que o futebol não tem importância para o povo. Se é assim, que venham os europeus, então!

E por fim, fiquei espantado ao conversar recentemente com um jovem amigo que me disse que há colegas de colégio que torcem para times europeus. Esse é um fenômeno recente, mas assustador, do avançado processo de colonização do nosso futebol. O imperialismo procura nos dominar com sua música de péssima qualidade, com seu cinema de péssimo gosto e com seu futebol de pernas de pau. A informação bate com a recente descoberta que tive ao ouvir uma entrevista do representante da La Liga (a empresa que gere o campeonato espanhol) no Brasil. O imperialismo está aqui dentro para nos roubar. Roubar nossos jogadores e roubar nossa alma, destruir nossa cultura e nos dominar culturalmente, politicamente e economicamente. O tal representante espanhol afirmou que em Países da África de menor tradição no futebol a população nutre simpatia para os times da Espanha. Esse é o objetivo aqui no Brasil também!

Os Países atrasados no mundo todo tinham – e de certa forma ainda têm – no Brasil o exemplo de um País pobre e negro que consegue vencer os poderosos no esporte mais popular do mundo. Pelé é um ídolo no mundo todo, na África, na Ásia, na América Latina e o Brasil é a Seleção de todos os oprimidos. O imperialismo não aceita isso e procurar atacar o sentimento nacional do povo, que no caso dos Países explorados é um nacionalismo progressista, libertador e revolucionário.