Quem são os Bolsonaristas? Olavo de Carvalho, o intelectual da extrema-direita

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Uma breve caracterização

Olavo Luiz Pimentel de Carvalho (Campinas, 1947), é tão intelectual quanto Jair Bolsonaro é patriota. Como tudo no mundo da direita recente, a fama de Olavo de Carvalho é uma fabricação à base de prestígio comprado, que encontra campo fértil em algum território situado entre a insegurança dos paranóicos e a iconoclastia dos adolescentes. Tornou-se célebre por mera manipulação editorial e mercadológica, que impulsionou seus relinchos como se fossem opinião, seu desatino como se fosse lógica, suas invenções como se fossem história. Não vale a pena traçar aqui uma biografia dessa figura bizarra: isso já foi bem feito recentemente por vários periódicos: desde a revista Época, da Globo, até a Carta Capital e o The Intercept. Cabem apenas breves caracterizações, uma política e outra intelectual, ilustradas pelo que declarou em sua última entrevista.

Para caracterizá-lo politicamente, basta deixar clara a sua base social fundamental: o imperialismo. Toda sua ação propagandística é fundamentada na defesa intransigente dos interesses de grandes corporações – quer seja para confundir e desinformar (sua especialidade), quer seja para indicar os ministros da Educação e das Relações Exteriores de Jair Bolsonaro.

Para qualificá-lo intelectualmente, é suficiente ressaltar que na verdade Carvalho é obscurantista, anticienficista e mistificador. Tendo iniciado sua carreira na década de 1970 como astrólogo, talvez possa se gabar apenas de jamais ter produzido sequer um pensamento intelectualmente honesto. A mentira, a desinformação, o alarmismo irracional, a paranóia constituem elementos comuns em seu discurso, cuja base metodológica é a falácia. Uma demonstração objetiva de tal procedimento: a obra de Arthur Schopenhauer, Eristische Dilalektik (38 estratagemas retóricos, dentre os quais, sofismas clássicos) foi recentemente traduzida e publicada no Brasil com comentários, notas e introdução do Astrólogo, sob o título Como vencer um debate sem precisar ter razão. Evidentemente, detratores profissionais como Olavo de Carvalho, praticam tudo aquilo de que acusam seus adversários.

 

Diz-se que Olavo de Carvalho seria um continuador do legado de outros polemistas como José Guilherme Merquior ou mesmo Roberto Campos. Trata-se de evidente injustiça com os diplomatas. Merquior de fato travou debates com os pensadores de seu tempo – como Michel Foucault (quer apreciemos ambos ou não) – e Roberto Campos era agente do imperialismo muito antes de publicar suas ideias no campo meramente teórico. Já Olavo de Carvalho e seu estilo trêfego e histriônico está mais próximo de figuras como Reinaldo Azevedo ou Diogo Mainardi. É um cão raivoso a serviço do capital – longe de qualquer elaboração mais profunda – que usa sua verve e arrogância para seduzir ou inibir os incautos. Platitudes de sua lavra como o “conceito da Paralaxe Cognitiva” – definido como “o afastamento entre o eixo da construção teórica e o eixo da experiência real anunciado pelo indivíduo” – mostram que seu pensamento filosófico é tão profundo quanto um pires.

Numa época em que o que outrora se chamava de debate intelectual se expressa por meio de textos telegráficos em caixas de comentários de redes sociais, esse tipo de tática argumentativa arrevesada encontrou amplo público e muitos admiradores. Grande parte do prestígio granjeado por Olavo de Cavalho vem da empatia com seu estilo tanto iconoclástico quanto obscurantista. Afinal, quem nunca desejou ter seus professores (ou chefes) “desmascarados” por alguém supostamente superior? Se a universidade – sobretudo no Brasil – é o lugar de produção da distinção social, que outro alvo preferível que não o arrogante professor que só escreve em jargão acadêmico? Não apenas se trata de um anseio compreensível como até desejável. Ocorre que a arma de Olavo de Cavalho contra nossos políticos e intelectuais não é o conhecimento, a argumentação lógica, mas a generalização, a falácia, a confusão. Para nosso Astrólogo, todos os intelectuais e políticos brasileiros são esquerdistas, pois teriam sido doutrinados desde os bancos escolares segundo o marxismo cultural de natureza gramsciana. Como, na verdade, a maior parte de nossa esquerda de fato não é marxista, procura desvencilhar-se da pecha, sem dar-se conta de que o tal marxismo cultural já é uma contradição em termos. Afinal, a base do marxismo é a prevalência do avanço das forças produtivas sobre as formas de produção.

Polêmica

Olavo de Carvalho concedeu recentemente uma entrevista a Moisés Rabinovici no programa Um olhar sobre o mundo, exibido na segunda (3) na TV Brasil. No programa, deu uma breve demonstração de sua lógica tortuosa ao colocar:

O que você acha melhor se nós estamos numa posição de dependência? O melhor é depender dos Estados Unidos ou depender da China? A China é um país que tem uma prosperidade enorme em cinco cidades. O resto é uma miséria sem fim. É um país que não sustenta nem a si mesmo. Tudo que tem, ele gasta em armas. É o país que tem o maior exército de terra do mundo. Em segundo lugar, a China é obviamente um país imperialista. Vai ver a situação do Tibet. Você prefere ser vizinho dos Estados Unidos ou da China?

São falácias. Primeiro porque o melhor, evidentemente, é almejar a superação da posição de dependência. E não se tem notícia de país central do imperialismo que tenha fomentado a emancipação econômica e social de suas próprias colônias. Em segundo lugar, não se coloca a dicotomia entre Estados Unidos e China, mas entre imperialismo e países atrasados. Em terceiro lugar, salvo no caso da Jangada de Pedra de Saramago em que a Península Ibérica se desprende da Europa e ruma Atlântico adentro, não se tem notícia de países a que seja facultado optar pela vizinhança.

Segundo Olavo de Carvalho na entrevista, vivíamos num país de esquerda “durante 50, 60 anos”. Ou seja: mesmo a ditadura militar – a mesma que fomentou o Brasil: ame-o ou deixe-o, a mesma que torturou e matou militante de esquerda, a mesma que entregou o país às multinacionais e fechou o nosso mercado para o exterior, a mesma que teve o próprio Roberto Campos como ministro, mesmo esse regime teria sido esquerdista. Evidentemente, o ociólogo-mór Fernando Henrique Cardoso, responsável pela retomada neoliberal da década de 1990 no Brasil é considerado por Olavo de Carvalho como praticamente um bolchevique. Em suma: Olavo de Carvalho vê marxismo e comunismo em todas as partes.

Mas que lugar ele próprio reivindica para si? É evidente que alguém tão envolvido com as esferas de poder não poderia deixar de almejá-lo. E se lhe foi possível passar por intelectual até aqui, por que não passar-se também por estadista? Na entrevista, Olavo de Carvalho mostra que sua ambição é modesta, um sacrifício. Afinal, para que ser ministro como Roberto Campos se ele pode ser diplomata como Campos e Merquior?

O que aconteceu foi o seguinte: o Bolsonaro, em discursos, duas vezes disse que me ofereceu dois ministérios, o da Educação ou da Cultura. Eu informei que não aceitaria nenhum. Então para não dizer que a minha má vontade é total eu disse que, em hipótese, eu aceitaria, a de embaixador nos Estados Unidos. Aceitaria por um motivo muito simples. A coisa que o Brasil mais precisa é dinheiro. E onde está o dinheiro? Está aqui. Então eu posso fazer algo útil para o Brasil. Vou lá e pego os US$ 267 bilhões que o Trump diz que tem para investir no Brasil. Mas isso não quer dizer que eu queira ser embaixador, nunca quis. Não quero mesmo. Acho um horror essa perspectiva. Seria um sacrifício. Se fosse, quero que seja temporário

Seria de fato um sacrifício. Para todos nós.