Banqueiros e comerciantes
As grandes fortunas nacionais mostram não só a cara miserável da burguesia brasileira, como a decadência da indústria e agricultura
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Desigualdade no Brasil | Foto: Reprodução

A revista Forbes Brasil publicou, no dia 16 de setembro, a lista das maiores fortunas do Brasil com 238 nomes. A soma das fortunas dos 238 bilionários brasileiros é de R$ 1,6 trilhão. Mas apenas os 10 maiores já somam R$ 472,92 bilhões.

A lista dos 10 maiores é formada, em ordem decrescente, por Joseph Safra (banqueiro, dono do Banco Safra), Jorge Paulo Lemann (bebidas e investimentos, patrocinador de alguns deputados, que elegeu via a Fundação Lemann), Eduardo Saverin (internet, foi sócio minoritário do Facebook), Marcel Herrmann Telles (bebidas e investimentos – sócio de Jorge Paulo Lemann), Carlos Alberto Sicupira e família (bebidas e investimentos – sócio de Jorge Paulo Lemann), Alexandre Behring (investidor, sócio de Jorge Paulo Lemann), André Esteves (banqueiro, um dos donos do BTG Pactual, onde foi sócio do atual ministro da Economia Paulo Guedes), Luiza Trajano (dona da Magazine Luiza ente outras empresas), Ilson Mateus (dono de supermercados no Maranhão), Luciano Hang (bolsonarista dono de lojas de quinquilharias).

A lista dos mais ricos tem a cara do Brasil. A maioria é formada por banqueiros e investidores. Fora banqueiros e grandes comerciantes não há ninguém. Nenhum industrial ou oriundo do agronegócio. Os grandes industriais brasileiros, assim como os gigantes da produção agrícola, passaram a ser bilionários de segunda ou terceira linha. Empresários e empresas seguiram o mesmo caminho de decadência que é imposta ao país pelo mundo das finanças que subordina o capital produtivo e liga o capitalismo brasileiro ao capital financeiro internacional. A operação Lava Jato, comandada pelo Departamento de Estado norte-americano e executada por procuradores e juízes brasileiros, deu uma boa mão nesse processo, liquidando com áreas inteiras da capitalismo brasileiro, empreiteiras, indústrias do setor naval, indústrias de tecnologia e de aviação.

A decadência das fortunas industriais também ocorreu em quase todos os países capitalistas. Os industriais perderam o topo das fortunas para banqueiros, comerciantes e donos de empresas de tecnologia da informação ou de comunicação. A maioria das indústrias e empresas comerciais estão hoje nas mãos de investidores que nada mais são que banqueiros e financistas que controlam empresas junto com fundos de pensão ou fundos de investimentos.

No quadro brasileiro, antes de representar uma trajetória do capitalismo à maioridade, é um retrato de subordinação ao capital internacional e de fraqueza do capitalismo industrial. De certa forma, as maiores fortunas nacionais sempre estiveram nas mãos de comerciantes e banqueiros, justificando, por laços empresariais, a subordinação política das elites nacionais aos interesses das metrópoles (Reino Unidos e EUA), contrariando a crença quase religiosa do antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB) que nos anos 1950 acreditava que os empresários nacionais iriam ser a força política da revolução burguesa, que os stalinistas defendiam como etapa necessária da revolução socialista no Brasil.

O golpe de 1964 mostrou que esse empresariado se contentava em ser sócio minoritário do imperialismo norte-americano. Tirando o caricato vendedor de quinquilharias e os dois grandes comerciantes, os demais podem em poucos minutos mudar de país e continuar com suas fortunas negociadas nas bolsas internacionais. Nada os prende ao país. Um deles inclusive, o Eduardo Saverin, já reside em Singapura. Renunciou à cidadania norte-americana para economizar US$700 milhões em impostos em 2009.

Foi nos dois governos de Luiz Inácio Lula da Silva que o Brasil experimentou um grande salto no sentido de internacionalizar empresas nacionais a partir de outro enfoque, por meio da ação financeira do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Além de empresas estatais como Petrobras e Eletrobrás, o país começou a contar com empresas privadas com capacidade de operar no mercado global: AmBev, Vale do Rio Doce (privatizada por ninharia por Fernando Henrique Cardoso), Embraer (antiga empresa estatal), Gerdau e outras que passaram a crescer por meio do suporte financeiro (e sociedade) do BNDES, como JBS-FriBoi, Fibria Celulose (fusão da Votorantin Papel e Celulose e Aracruz Celulose).

Na época o BNDES era o maior banco de financiamento do mundo, hoje é uma sobra disso.

Esse impulso inicial dado pelo BNDES na primeira década do século, não conseguiu sustentação para seguir adiante, a crise de 2008 provavelmente foi o estopim de uma virada na própria postura dos empresários nacionais (que passaram a investir – o dinheiro captado no BNDES – menos em suas empresas e mais no mercado financeiro) e mostrou o início de uma guerra econômica que acabaria culminando, como vimos, com o golpe de 2016.

Foi a mudança de postura dos empresários que justificou a afirmação de Lula de que “empresas nunca ganharam tanto como no meu governo” (FSP, 22/5/2009), quando, em uma viagem a Turquia, chamou de “trambique” o que os empresários estavam fazendo com o dinheiro que o governo transferia para eles de várias formas para minimizar os efeitos da crise de 2008.

O empresariado brasileiro hoje é diferente daquele que estava à frente da economia privada nacional, mas ainda é cedo para saber se a esquerda aprendeu a lição, talvez a milésima lição, que a burguesia nacional deu ao período de governo do PT. Se não aprendeu, certamente a frieza e a ganância dos atuais banqueiros e investidores bilionários, que estão enriquecendo na pandemia, faça os trabalhadores compreenderem que não serão nunca seus aliados, quer na economia, quer em frentes políticas.

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