Baleia Rossi, Maia e Temer
Introdução do livro do ex-presidente da Câmara, disponível ao público, reforça a participação de toda a direita nacional em uma conspiração podre contra o povo brasileiro
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Eduardo Cunha | Foto: Reprodução
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Eduardo Cunha | Foto: Reprodução

Na última segunda-feira (25), Mônica Bergamo, uma das colunistas da Folha de S.Paulo que mais detém informações privilegiadas da política nacional, revelou ao público a introdução do livro que Eduardo Cunha pretende lançar sobre os bastidores do processo que levou ao impeachment de Dilma Rousseff. O livro inteiro deverá estar disponível ainda no primeiro semestre de 2021 e levará o nome de “Tchau, Querida”.

Na introdução divulgada, não há coisa alguma que possa ser considerada uma grande novidade. Contudo, uma vez vinda de alguém da própria burguesia, que participou diretamente do golpe, a conspiração contra o povo se torna ainda mais escancarada, bem como a participação de atores fundamentais na trama.

Logo no início, Eduardo Cunha denuncia Michel Temer como alguém pessoalmente empenhado em derrubar o governo do qual fazia parte:

“Relataremos também a participação do então vice presidente Michel Temer, com detalhes inéditos e minuciosos, para demonstrar que o principal beneficiário do processo foi sim o militante mais atuante e importante. Sem essa sua atuação não teria havido o impeachment”.

Sem Temer, haveria, de qualquer maneira, o golpe de Estado. Afinal, o golpe era uma necessidade de uma força poderosíssima — o imperialismo. Se não fosse possível derrubar o governo por dentro, corrompendo diretamente o vice-presidente, a burguesia encontraria outra forma depor Dilma Rousseff. Uma possibilidade seria a cassação da chapa Dilma-Temer, que esteve em pauta no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Mesmo assim, a afirmação de Cunha é importante porque deixa claro que havia uma conspiração contra o governo — se não dermos a isso o nome de golpe, o que será então um golpe? Durante o impeachment, um dos argumentos bestas utilizados pela direita, incluindo aí os jovens fascistas do Movimento Brasil Livre (MBL), era o de que não havia golpe porque Temer teria sido eleito junto com o PT…

Segundo Mônica Bergamo, o alvo principal do livro de Eduardo Cunha será o próprio Michel Temer — coisa que a introdução já permite especular. Provavelmente, as denúncias contra Temer são uma espécie de reação de Eduardo Cunha diante do fato de que, dentre a camarilha que organizou o golpe, ele foi um dos únicos — senão o único — que acabou na prisão. Temer, tido como o maior “militante” a favor do golpe, presidiu o Brasil por dois anos, não foi derrubado e, embora tenha sido preso por um período muito curto, está sendo protegido pelo governo Bolsonaro.

Em outro trecho da introdução, Cunha volta a culpar Temer pelo seu empenho no golpe:

“Não foi apenas o destino, ou simplesmente a previsão constitucional, que fizeram Michel Temer presidente da República. Ele simplesmente quis e disputou a presidência de forma indireta”.

Embora denuncie Temer em várias oportunidades, Cunha, político malandro que é, também decidiu se voltar contra outras duas figuras que estão bem acomodadas no regime político atualmente: Baleia Rossi (MDB), possível futuro presidente da Câmara, e Rodrigo Maia (DEM), atual presidente da casa.

Sobre Maia, disse Cunha:

“Ele era um dos principais militantes, articuladores e buscava os holofotes dessa participação. Foi no apartamento de Rodrigo Maia, em São Conrado, no Rio de Janeiro, em 10 de outubro de 2015, em uma reunião articulada por ele, com o então líder do PSDB, Carlos Sampaio, e o então líder da minoria Bruno Araújo, que se decidiu a mudança, exigida por mim, do pedido de impeachment, que tinha sido apresentado na Câmara. (…) Foi essa mudança que levaria a minha decisão, de aceitação do impeachment“.

Segundo Cunha, no mesmo momento em que Rodrigo Maia ajudava a articular o impeachment, ele também já se preparava para assumir um papel significativo no governo golpista:

“Nós vamos mostrar também que Rodrigo Maia não tinha limites para a sua ambição e vaidade. Na busca do protagonismo do impeachment, ele quis forçar ser o relator da comissão especial do impeachment. Eu tive que vetar essa sua pretensão, preferindo indicar o então líder do PTB, Jovair Arantes. Nós não venceríamos na comissão especial, se a relatoria ficasse com Maia. Depois, já com o impeachment aprovado na Câmara, Rodrigo Maia quis de qualquer forma ser o líder do governo Michel Temer na Câmara. Ele já estava oficialmente convidado pelo novo governo, quando atendendo a pressão dos líderes dos partidos de centro, que ajudaram no impeachment, eu interferi junto a Michel Temer, alterando a decisão”.

Já sobre Baleia Rossi, Cunha o descreve como um afilhado político de Michel Temer:

“Baleia, vereador em Ribeirão Preto, deputado estadual em São Paulo, que sempre votava em Michel Temer para deputado federal, acaba ascendendo a presidência do PMDB em São Paulo e a deputado federal em 2014 com o apoio de Michel. Com o impeachment em andamento, contrariando o que Baleia diz, que era um personagem irrelevante no impeachment, Michel Temer nomeia o então líder do PMDB Leonardo Picciani para o Ministério dos Esportes, para que vagasse o cargo de líder e assim Baleia pudesse assumir a liderança com o seu apoio. (…) A força de Baleia Rossi junto a Michel Temer é de tal ordem, que depois em 2019, Michel patrocina e o elege presidente do PMDB nacional, o deixando acumular um poder de líder da bancada e de presidente do partido”.

A participação de Maia, Temer e Baleia Rossi na derrubada do governo Dilma Rousseff põe abaixo qualquer discurso de que haveria, na direita, pessoas “democráticas”. Há, pelo contrário, um bloco de conspiradores inescrupulosos que se aproveitaram da ofensiva do imperialismo para tramar um golpe que lhes parecia conveniente.

O mais irônico de tudo isso é que hoje, quando Cunha não está arrependido, mas suficientemente rancoroso para cuspir verdades na cara da direita da qual faz parte, o ex-presidente da Câmara demonstra maior consciência da situação política que a esquerda nacional:

“No momento em que assistimos ao PT apoiar Rodrigo Maia e Baleia Rossi, como se eles não tivessem tido protagonismo no impeachment, não podemos de deixar de registrar essa posição, que chega a ser hilária, para quem viveu aquele processo. Essa aliás é, uma das razões da situação do PT, ter chegado aonde chegou. Os seus erros políticos e de avaliação são tão grandes que será muito difícil o PT se levantar, se não tiver uma grande mudança de ventos. O apoio do PT a Rodrigo Maia e a Baleia Rossi nos leva a sensação de que o partido está acometido da síndrome de Estocolmo”.

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