Quem é Hamilton Mourão, o propagandista-chefe do golpe militar?

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Avante irmãos! Avante heróis! Voltar não desejamos Lutando sempre, fugindo nunca Viver não imploramos Unidos, coesos, marchando Soldados da velha Brigada! O gosto da morte lembrando Aos novos que chegam do nada.

Um grupo de militares entoa essa velha canção de guerra, hino da brigada paraquedista. Entre eles, o general Antônio Hamilton Martins Mourão. A cada refrão, todos desferem socos nas mesas, marcando o ritmo. A melodia da música Dragões do ar é a de SS marschiert in Feindesland [A SS marcha em território inimigo] – nada menos que o hino da Waffen Schutzstaffel, a brigada mais cruel das tropas de Adolf Hitler. Se a letra original fala que “os vermelhos não terão mais descanso”, a tradução brasileira faz questão de lembrar o “gosto da morte aos novos que chegam do nada”.

É exatamente o papel que Mourão vem desempenhando na política nacional nos últimos anos, ao tornar-se o porta-voz daqueles que defendem o golpe militar e a volta de uma ditadura sangrenta ao Brasil. Em setembro de 2017, Mourão anunciou que o golpe estava em fase de preparação, “por aproximações sucessivas”. E assim vem acontecendo desde o impeachment de Dilma Rousseff – que não teria acontecido sem o apoio das Forças Armadas, que não garantiram a permanência da presidente legitimamente eleita.

Desde então, o general Sérgio Etchegoyen instalou-se no Palácio do Planalto, como Ministro do Gabinete de Segurança Institucional, comandando nos bastidores o débil governo de Michel Temer: indicando ministros e cargos de segundo escalão, definindo os rumos da política. Dentro da política de “aproximações sucessivas”, foi decretada intervenção militar no Rio Grande do Norte em dezembro, no Rio de Janeiro após o Carnaval. O comandante-geral das Forças Armadas, general Eduardo Villas-Boas pressionou abertamente o Supremo Tribunal Federal a negar o habeas corpus a Luiz Inácio Lula da Silva, e sabatinou diversos presidenciáveis.

Os militares contam com candidatos ao governo em diversos estados – inclusive no Distrito Federal – e, claro, o capitão Jair Bolsonaro (PSL) à Presidência da República, tendo como seu vice o próprio Mourão. Desde então, o general voltou à berlinda, sobretudo após o suposto atentado que Bolsonaro sofreu em Juiz de Fora no dia 6 último, deixando-o hospitalizado. Mourão não se fez de rogado: deu um “golpe militar” no capitão e rumou ao TSE para pedir o direito de falar como candidato a presidente na campanha. Desde então, vem proferindo barbaridades à imprensa diariamente. Vale tudo: misoginia, racismo, obscurantismo. A visão de mundo do general é sombria.

Mas quem é essa figura que agora emerge dos mais profundos rincões da caserna? De onde veio sua representatividade junto aos militares direitistas?

Da ditadura ao serviço imperialista

Porto-alegrense, filho de general, o General Antônio Hamilton Mourão, ingressou aos 18 anos, em plena ditadura, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) em 1972, onde se formaria três anos depois. Fez diversos cursos típicos do alto oficialato, tendo se tornado instrutor da própria Academia. Comandou o 27° Grupo de Artilharia de Campanha em Ijuí (Rio Grande do Sul), a 2.ª Brigada de Infantaria de Selva em São Gabriel da Cachoeira (Amazonas), a 6.ª Divisão de Exército e o Comando Militar do Sul, tendo sido adido militar na Embaixada da Venezuela.

Participou da Terceira Missão de Verificação das Nações Unidas em Angola (UNAVEM III) – entre 1995 e 1998. Eram forças imperialistas encarregadas de administrar a relação com a UNITA – grupo armado pelos norte-americanos que fez frente aos socialistas durante após a independência de Angola. A missão fracassou, e os conflitos se intensificaram após a intervenção da ONU.

O envolvimento com corporações internacionais não pára por aí. Segundo o coronel da reserva Rubens Pierrotti, Mourão estaria envolvido no favorecimento da Tecnobit – uma empresa espanhola contratada pelo Exército para fornecer um simulador de fogo ao Exército Brasileiro em 2012. A participação de oficiais em missões da ONU parece ser a senha para demonstrar o seu envolvimento com o imperialismo.

Porta-voz do golpe militar

Já dentro do processo do atual golpe de Estado, Mourão “queimou a largada” em 2015. Então à frente do Comando Militar do Sul, o general criticou Dilma Rousseff, homenageou o torturador da ditadura Brilhante Ustra, e convocou os militares ao “despertar de uma luta patriótica”. Foi transferido então para a Secretaria de Economia e Finanças do Exército em Brasília.

Na capital, dois anos depois, Mourão seria convidado pelo grupo direitista Terrorismo Nunca Mais (Ternuma) – conhecido por cultuar torturadores – a dar uma palestra na sede da maçonaria. Ali, em meio às crises política e econômica do governo golpista de Temer, o general anunciou as ações do Alto Comando das Forças Armadas no sentido de um golpe militar: “nós estamos numa situação daquilo que poderíamos lembrar lá da tábua de logaritmos, ‘aproximações sucessivas’. Até chegar o momento em que ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos que impor isso”. Ou seja: havia condições materiais, havia planejamento e havia intenção de levar a cabo a imposição de impor pelas Forças Armadas um regime ditatorial no País.

A declaração causou apreensão tanto naqueles que lutam contra o golpe, como nos que acreditam vivermos numa democracia: afinal, seria o retorno aos anos de chumbo que o país atravessou entre 1964 e 1985. O general Eduardo Villas-Boas confirmou tacitamente o que dissera Mourão, ao não recriminá-lo nem puni-lo nos dias seguintes. Limitou-se a afirmar que Mourão é um “bom soldado”. Desde então, a dupla passaria a desempenhar o clássico papel de policial mau e policial bonzinho, em que Villas-Boas pareceria um moderado enquanto Mourão seria o militar “linha-dura”: ambos na verdade parte do mesmo jogo político.

Em dezembro de 2017, o general afirmaria – novamente durante uma seção do Ternuma – que o governo de Temer ia “aos trancos e barrancos, buscando se equilibrar em um balcão de negócios”. A pedido do presidente golpista, Mourão teria sido afastado do cargo por Villas-Boas. Foi um truque. Mourão se aposentaria em 28 de fevereiro desse ano com um raivoso discurso em que tratou Brilhante Ustra por “herói”, declarou apoio a Jair Bolsonaro, qualificou a intervenção federal no Rio de “fajuta” e afirmou que Temer deveria ser “expurgado da vida pública”. Era o início da vida política aberta do general.

Assim como em 1964, os militares nada mais são que o braço armado do imperialismo no Brasil: eles representam o “núcleo duro” do golpe: as corporações que visam a destruir nossa economia e os direitos de nossa população, transformando o País num mero fornecedor de matéria-prima e mercado consumidor. Sua verborragia patriótica nada mais é que uma cortina de fumaça destinada a ocultar seu verdadeiro caráter de lambe-botas da grande burguesia internacional.

Conforme já dito, as “aproximações sucessivas” anunciadas por Mourão consistiram num progressivo avanço de elementos das Forças Armadas no comando da nação, além da aproximação com o Exército dos Estados Unidos em treinamentos realizados na Amazônia em dezembro e, expressão mais palpável, as intervenções militares Rio Grande do Norte e no Rio de Janeiro.

Em março, com Lula já preso, o STF decidiu julgar em plenário o pedido de habeas corpus que poderia dar a liberdade a Lula. Mourão ameaçou: “cuidado com a cólera das legiões”. Em 3 abril, o general Villas-Boas rosnaria candidamente: “Nessa situação que vive o Brasil, resta perguntar às instituições e ao povo quem realmente está pensando no bem do País e das gerações futuras e quem está preocupado apenas com interesses pessoais? Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais”.

Porta-voz do obscurantismo

Mourão avançava em sua carreira política. Após evidente constrangimento por colocar-se abaixo de um oficial de patente muito inferior, acabou por consentir em se tornar candidato à Vice-Presidência da República na chapa encabeçada pelo capitão Jair Bolsonaro em 5 de agosto. Era a candidatura do golpe militar.

Na famosa palestra na maçonaria, há um ano, Mourão já havia demonstrado que entendera a “tese das três raças” original de Karl von Martius por meio de uma leitura enviesada de Gilberto Freire e Sérgio Buarque de Hollanda. Segundo o general: “Carregamos dentro de cada um uma herança cultural tripla: a herança ibérica, do privilégio, todo mundo quer se dar bem; a herança indígena, da indolência e a herança africana, que é a da magia, que tudo vai dar certo (…) Temos que romper este ciclo”.

O que para Martius, Varnhagen e sobretudo para Freire fora um traço distintivo único de nossa cultura, para Mourão é apenas motivo para autodepreciação. Desnecessário dizer que tal visão colonizada de mundo foi apreendida justamente contato com o imperialismo – a que serve a ação política de Mourão.

Após o lançamento de sua candidatura, o militar atribuiu a Bolsonaro o papel de agitador, e a si o papel de propagandista – ou transmitir muitas ideias para um grupo pequeno de pessoas. Resolveu então compartilhar com o país mais detalhes de sua canhestra visão de mundo. Sempre com ar compenetrado, ele vem expondo um festival de barbaridades em suas entrevistas e palestras. Perto dele, até o tarimbado boquirroto Bolsonaro não parece ser mais que um aprendiz.

Como já mencionado, inclusive, Bolsonaro foi a primeira vítima do golpe militar que tanto apregoa. Tendo sofrido um suposto atentado a faca em Juiz de Fora no dia 6 de setembro, ficou afastado da campanha eleitoral. Mourão dirigiu-se no dia 12 ao TSE com seu correligionário, Levy Fidelix (PRTB). O objetivo era substituir o capitão internado na corrida presidencial.

No dia 13 de setembro, em palestra no Instituto de Engenharia do Paraná, defendeu uma “uma nova constituição para o Brasil”. Criticou a extensão de nossa Carta Magna, e deu sua fórmula legislativa: “Não precisa de Constituinte. Fazemos um conselho de notáveis e depois submetemos a plebiscito”. Evidente: o que Mourão propõe é uma ditadura. Nenhum poder emanaria do povo, mas de juristas. Talvez os mesmos que condenaram Lula sem provas, que perseguem a esquerda nos Tribunais Regionais Eleitorais, que estão extinguindo por acórdão o direito de greve dos servidores públicos. Não custa lembrar, na vilipendiada Constituição de 1988 consta como cláusula pétrea em seu artigo primeiro que “todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente”. Não há risco de mal-entendido: o general repetiria a afirmação cinco dias depois.

Na última segunda (17), elucubrou: “Família sempre foi o núcleo central. A partir do momento que a família é dissociada, surgem os problemas sociais que estamos vivendo e atacam eminentemente nas áreas carentes, onde não há pai nem avô, é mãe e avó. E por isso torna-se realmente uma fábrica de elementos desajustados e que tendem a ingressar em narco-quadrilhas que afetam nosso país”. Ou seja: a causa da criminalidade não é a miséria, a desigualdade social, o regime selvagem de exploração do capitalismo. Para Mourão, a culpa da criminalidade é das mães solteiras, das divorciadas, das viúvas etc. A culpa, claro, é da mulher.

No mesmo dia, de modo servil, atacou as alianças com países como o nosso: “problema da política externa do Brasil é que nós nos ligamos com toda a mulambada, do lado de lá e de cá do oceano, na diplomacia Sul-Sul”. Claro: nada de união entre os povos oprimidos para buscar uma saída em comum para a dominação imperialista. Para Mourão, devemos submeter como escravos aos países do hemisfério norte que sempre dizimaram, escravizaram e relegaram à miséria a África e a América do Sul. Eles hão de conceder-nos um tratamento mais humano.

Na terça (18), em evento da Associação Comercial de São Paulo, o general questionou o ensino de humanidades no país: por que as nossas crianças estariam “estudando filosofia em vez de se dedicar a outras matérias mais importantes”? O graduado e supostamente bem formado general é o exemplo maior do tipo de destruição duradoura que a ditadura militar perpetrou em nosso sistema educacional. É o retrato do que se tornaram nossas Forças Armadas após décadas servindo como mero acessório da política imperialista.

Talvez, se nossos jovens tivessem um mínimo de formação em humanidades, em Filosofia, História, Lógica Formal, Sociologia, não teríamos entre nós os eleitores de Bolsonaro e Mourão: são eles que afirmam que “o nazismo era de esquerda”, que urram “vai pra Cuba” aos socialistas, que vociferam que “bandido bom é bandido morto”, que argumentam que os próprios africanos escravizaram a si mesmos. O remédio para Bolsonaro, Mourão e seus seguidores, foi receitado pelo metalúrgico encarcerado em Curitiba. Na quarta (19) Lula enviou uma carta ao general em que sugere: “não julgue avós e mães pobres pelo seu conceito medíocre da espécie humana. […] Faça um curso sobre o Humanismo”.

O obscurantismo arrogante de Hamilton Mourão é da mesma espécie daquele apregoado por pseudointelectuais como Olavo de Carvalho. Carentes de qualquer fundamento científico e mesmo de uma argumentação minimamente lógica que os sustente, transformam qualquer tese em opinião. Contrabandeiam nada mais que a barbárie sob sua verve empolada.

O tipo de Mourão, na verdade, não tem nada de novo. Esses empertigados propagandistas do imperialismo sempre estiveram de plantão entre nós. Como boa cria da ditadura, apologista de assassinos e torturadores, Mourão cumpre o papel de lembrar “o gosto da morte aos novos que chegam do nada”. A ameaça do fascismo alerta-nos hoje que a civilização requer vigília.