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Polêmica com Eduardo Guimarães
Quem destruiu o Brasil?
Um comentário feito por Eduardo Guimarães em seu Blog da Cidadania revela que os acontecimentos de 2013 não foram ainda devidamente compreendidos por um setor da esquerda nacional.
black bloc
Polêmica com Eduardo Guimarães
Quem destruiu o Brasil?
Um comentário feito por Eduardo Guimarães em seu Blog da Cidadania revela que os acontecimentos de 2013 não foram ainda devidamente compreendidos por um setor da esquerda nacional.
Black Block em manifestação no ano de 2013.
black bloc
Black Block em manifestação no ano de 2013.

No dia 20 de dezembro, o jornalista Eduardo Guimarães reproduziu, no Blog da Cidadania, uma matéria do golpista Estado de S. Paulo tratando do aumento das tarifas do transporte público na capital paulista. Ao fazer isso, Guimarães acrescentou ao texto um título que revela uma série de preconceitos e incompreensões acerca da luta de classes no Brasil:

Após destruir o país por 20 centavos, paulistanos se calam sobre R$ 4,40.

1 – A direita não iniciou os protestos de 2013

O então governador Geraldo Alckmin mandou reprimir brutalmente as manifestações.

A associação entre os vinte centavos, citados por Eduardo Guimarães, e a destruição do Brasil remonta à seguinte tese absurda: as manifestações contra o aumento da passagem em 2013 se transformaram nas manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff e, deste modo, foram responsáveis pela ascensão da extrema-direita ao poder. Essa tese, que é defendida por alguns outros setores da esquerda pequeno-burguesa além do próprio Guimarães, considera, portanto, que as manifestações de 2013 partiram da iniciativa da direita.

Isso, no entanto, não tem qualquer fundamento. Na verdade, corresponde ao exato oposto dos fatos. As manifestações contra o aumento das passagens já vinham ocorrendo havia muitos anos, e sempre arrastavam consigo uma parcela da juventude e das organizações de esquerda. O que fez com que os atos crescessem ao ponto de se transformarem em uma explosão social foi a reação dos participantes à duríssima repressão promovida pela Polícia Militar.

O gatilho das manifestações foram, portanto, a revolta da população contra o aparato de repressão do Estado, sobretudo em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro – os dois primeiros então comandados pelo PSDB e o último comandado pelo MDB. A explosão não tinha como motivo a insatisfação com o governo Dilma Rousseff ou com o Partido dos Trabalhadores, mas sim com os velhos representantes do regime político burguês.

É fato que, a partir de um momento, os atos passaram a ser controlados pela direita, que impôs pautas reacionárias e excluiu as reivindicações populares. No entanto, isso se deve à falta de iniciativa da esquerda, que, capitulando, permitiu que a extrema-direita crescesse nas ruas.

O golpe dado contra Dilma Rousseff em 2016 – tendo como consequências a prisão do ex-presidente Lula e a vitória eleitoral de Jair Bolsonaro – não foi resultado dos atos contra o aumento das passagens. Foram, portanto, resultado da política extremamente defensiva e conciliadora das direções da esquerda nacional, que se recusaram a enfrentar a direita golpista e tiveram de assistir a uma sucessão de ataques por parte da camada mais reacionária da sociedade.

2 – Paulistas versus brasileiros

Flávio Dino, governador do Nordeste que vem seguindo o programa da direita.

Outra tese célebre da esquerda pequeno-burguesa que aparece no comentário de Eduardo Guimarães é a de que os paulistanos seriam um setor da população diferente dos demais. Isto é, além de considerar que os protestos contra o aumento da passagem seriam promovidos pela direita, Guimarães também destaca a participação dos moradores de São Paulo no que chama de destruição do Brasil.

O destaque aos paulistanos parte da tese profundamente reacionária de que os paulistanos seriam um povo mais direitista do que o restante do país. O paulistano, por algum motivo inexplicável, odiaria o Nordeste, votaria sempre na direita e seria contra qualquer progresso.

Os defensores dessa tese se apegam a algumas impressões de pouco valor. Uma delas é a de que os paulistas e paulistanos sempre votariam no PSDB – ou seja, são um eleitorado cativo da direita. De fato, o PSDB vem dominando há muito tempo o estado de São Paulo, mas isso não quer dizer que fascistas como João Doria Geraldo Alckmin ou José Serra sejam populares: tais vigaristas só venceram as eleições por causa das sucessivas capitulações e acordos empreendidos pela esquerda parlamentar e por causa de uma série de manobras fraudulentas.

Regiões como o Nordeste, frequentemente apresentadas como progressistas em relação aos paulistas, sofrem do mesmo mau: seu povo é castigado por vigaristas da pior espécie, que tomam de assalto o poder por falta de uma iniciativa firme por parte das direções da esquerda. Até mesmo os governadores que fora eleitos por partidos de esquerda, como é o caso de Flávio Dino (PCdoB) e Camilo Santana (PT-CE), estão se mostrando incapazes em enfrentar a direita, aplicando o mesmo programa dos golpistas aos seus estados.

3 – O povo está calado?

Enfrentamento entre ambulantes e a Polícia Militar no bairro do Brás, em São Paulo.

Ao contrário do que Eduardo Guimarães declara em seu comentário, o povo não está calado. O povo, tanto o paulistano, como em todo o país, está sendo pisoteado pelo governo Bolsonaro e está se mostrando disposto a reagir. Na própria São Paulo, há alguns dias, ambulantes se enfrentaram com a polícia, expressando a revolta com a política repressiva da direita.

Assim como os povos do Chile, do Equador e de Honduras se levantaram contra a política neoliberal, o povo brasileiro deverá se levantar a qualquer momento. O que falta não é disposição, mas sim que as direções da esquerda nacional tomem a iniciativa de organizar a revolta já existente contra o governo Bolsonaro e canalizem para um levante decidido.