Queda do governo austríaco: vale tudo do imperialismo para ganhar as eleições europeias

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Segunda-feira (27) o governo da Áustria foi destituído pelo Parlamento, que aprovou uma moção de desconfiança contra o jovem primeiro-ministro Sebastian Kurz. Com isso o governo do Partido Popular Austríaco (Österreichische Volkspartei, ÖVP) terminou seu governo depois de apenas 525 dias. Uma estranha frente se formou para derrotar o governo: de um lado, a extrema-direita, com o Partido da Liberdade da Áustria (Freiheitliche Partei Österreichs, FPÖ); de outro, a esquerda tradicional do regime burguês austríaco, o Partido Social-Democrata da Áustria (Sozialdemokratische Partei Österreichs, SPÖ).

Com a união do SPÖ e do FPÖ, formou-se a maioria necessária para derrubar Kurz. Ao todo, 110 dos 183 parlamentares votaram pela destituição. Agora o presidente Alexander van der Bellen (dos Verdes) terá que formar um gabinete para governar provisoriamente até as eleições antecipadas, que deverão acontecer em setembro. Antes desse desfecho, no entanto, o FPÖ estava dentro do governo, em coalizão com a direita tradicional.

A queda do FPÖ

Pouco antes das eleições para o Parlamento Europeu, o vice-primeiro-ministro da Áustria, Hans-Christian Strache anunciou em uma coletiva de imprensa que estava renunciando ao cargo, no último dia 18. Um dia antes, a imprensa alemã (o jornal Süddeutsche Zeitung e a revista Der Spiegel) divulgaram um vídeo em que Strache aparece negociando com uma suposta sobrinha de um “oligarca” russo em Ibiza, na Espanha. Diante de uma câmera escondida, Strache negocia apoio à campanha eleitoral de 2017.

Depois da renúncia de Strache, Kurz demitiu o ministro do Interior, membro do FPÖ. Depois disso, os demais ministros do FPÖ que faziam parte da coalizão também se demitiram em solidariedade, e a coalizão desmoronou. O primeiro-ministro pediu então ao presidente que antecipasse as eleições, mas esperava ficar no governo até setembro. Com a moção votada na segunda-feira, esse plano foi frustrado.

A manobra

A manobra de usar denúncias de corrupção para derrubar políticos é um mecanismo já bastante conhecido de quem acompanha a política. No caso da Áustria, o alvo foi a extrema-direita. O problema para o regime burguês em todo o bloco da União Europeia é que seus partidos tradicionais estão desintegrando, e a extrema-direita está crescendo diante dessa crise política do regime burguês.

No caso austríaco esse processo já estava bastante avançado. A direita tradicional, ÖVP, não tinha cadeiras o suficiente para governar sozinha, tendo que fazer coalizão com a extrema-direita, o FPÖ. Isso demonstra que a deterioração do regime já tinha chegado a um ponto alarmante do ponto de vista da manutenção de um governo “democrático”. Foi nesse quadro que surgiram as providenciais denúncias de corrupção contra Strache. Com essa manobra, a extrema-direita foi tirada do governo, justamente às vésperas das eleições.

O fracasso da manobra

As manobras do regime político para conter a extrema-direita na Europa serviram para impedir que a extrema-direita se tornasse uma força predominante no Parlamento Europeu. Olhando-se unicamente para os números pode dar a impressão de que a extrema-direita é bem menos ameaçadora do que parecia. No entanto, deve-se considerar que, na Itália, Matteo Salvini e sua Liga venceram as eleições, assim como Marine Le Pen e o Reagrupamento Nacional na França. Enquanto a desagregação social na Europa persiste, a extrema-direita continua sendo o elemento dinâmico no quadro eleitoral.

Nas eleições austríacas o sucesso da manobra eleitoral contra o FPÖ também não parece ter surtido o efeito esperado. A direita tradicional venceu as eleições europeias na Áustria, com os 34,6% de votos do ÖVP de Sebastian Kurz, seguida pelo SPÖ, que ficou com 23,9%. No entanto, o FPÖ continuou tendo um desempenho alto, chegando a 17,2%, incluindo a eleição do próprio Hans-Christian Strache para o Parlamento Europeu…