Mesmos métodos
Zombar da morte de revolucionários nos campos de trabalho soviéticos é o mesmo que zombar das vítimas judias das câmaras de gás nazistas ou dos torturados na ditadura militar
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Postagem nas redes sociais de Breno Altman | Foto: Reprodução/Twitter

Recentemente, o jornalista Breno Altman publicou um meme em sua conta no Twitter com a legenda “Dica pra juventude comunista: após mandar um trotskista pro Gulag, se hidrate (sic) bem!” e o comentário, para indicar que trata-se apenas de uma piada: “rir é preciso.”

Para uns jovens desmiolados que acreditam que Stálin foi um lutador de MMA, tais colocações são apenas a expressão da sua falta de senso, mas um dirigente petista dar divulgação a tais absurdos é uma coisa muito grave, porque serve como orientação política: reprimir pessoas que estão com você dentro do movimento de luta popular é o seu objetivo! E isso em pleno avanço dos militares e da extrema-direita no País!

Este tipo de “humor” revela, no entanto, o caráter reacionário e direitista dos chamados stalinistas (melhor seria dizer, saudosistas do stalinismo). Enviar pessoas, ou “um trotskista”, para campos de concentração e trabalho forçado não parece ser algo minimamente engraçado. Seria engraçado para um bolsonarista: “depois de matar um esquerdopata, hidrate-se”. Mas o bolsonarista é aquele tipo de ser humano bárbaro que conhecemos.

Eis o método stalinista de combater os adversários. Enquanto Stálin os combatia enviando-os para o Gulag ou diretamente para o cemitério ou mesmo valas comuns, suas viúvas glorificam tamanha ação contrarrevolucionária fazendo troça daqueles que tombaram lutando contra a reacionária burocracia stalinista.

Mas isso não é tudo. Trata-se de uma ameaça velada e de uma maneira reacionária de conduzir a luta política: com um trotskista, não se discute, se reprime.

A burguesia e a esquerda pequeno-burguesa identitária gostam de comparar o stalinismo ao nazismo, exagerando nos números da repressão soviética ao mesmo tempo que retiram o caráter de classe dessa repressão. No entanto, uma coisa pode ser comparável entre os stalinistas e os fascistas: são adeptos da supressão dos adversários políticos. Um stalinista acredita que a divergência ideológica é motivo para a repressão e que isso seria a revolução. É falso: os marxistas, como os dirigentes da Revolução Russa de 1917, usaram a repressão apenas como uma arma política, não como uma inquisição ideológica.

Fazer propaganda da cruel repressão contrarrevolucionária de Stálin contra militantes comunistas é o mesmo que um bolsonarista adorador de Brilhante Ustra dizer: “após mandar um esquerdista para o pau-de-arara, hidrate-se bem!” Ou ainda, para um nazista: “após mandar um judeu para uma câmara de gás, hidrate-se bem!”.

O stalinismo, não sendo uma ideologia, não sendo uma teoria política, não tendo um programa definido, no final das contas não passa de uma mitologia. É por esse motivo que os que se dizem stalinistas não conseguem elaborar nenhuma argumentação e partem para tais tiradas das mais reacionárias possíveis, tais como zombar da repressão de milhares de militantes, caluniá-los ou adorar o próprio Stálin como se fosse um deus. Exatamente como os bolsonaristas em relação a Jair Bolsonaro. São duas coisas ridículas na sua semelhança.

O stalinismo, como fenômeno próprio da burocracia soviética, foi (disparado) o maior promotor de derrotas e do refluxo do movimento operário de toda a história humana, o maior sabotador da revolução, não apenas na União Soviética mas em todo o mundo. Como disse Trótski: Stálin foi o coveiro da revolução.

A chamada teoria do socialismo em um só país, por exemplo, significou a derrota sangrenta das revoluções na China, na Inglaterra, na França e na Espanha, quando a classe operária desses países estava a ponto de tomar o poder e foi impedida por causa da política deliberada de colaboração de classes promovida por Stálin.

Mas isso tinha um motivo bastante concreto. O “socialismo em um só país” não era, na verdade, a proteção da revolução russa, como afirmava a propaganda stalinista. Era, pelo contrário, a proteção da burocracia que se encastelou no Crêmlin após a morte de Lênin, burocracia essa que se transformou em uma camada parasitária que tratou de retirar conquistas da Revolução até, finalmente, restaurar o capitalismo e dissolver a União Soviética.

Tudo isso para evitar que as revoluções nos outros países gerassem um novo ânimo revolucionário nas massas soviéticas, ânimo esse que levaria a agitações e à movimentação revolucionária na própria Rússia, pondo um fim à estabilidade tão desejada da casta burocrática liderada por Stálin e colocando a possibilidade desta ser engolida pela revolução antiburocrática em defesa do marxismo e do Estado Operário – para o qual a burocracia representava um enorme perigo, tanto é que foi ela mesma que acabou levando-o à ruína décadas depois.

Ao mesmo tempo em que executava a nata revolucionária de 1917 e castrava o Partido Bolchevique dos melhores quadros revolucionários que a classe operária já produziu, Stálin abanava o rabo para as “democracias” capitalistas.

As alianças com a França, a Inglaterra e os Estados Unidos, e mesmo com a própria Alemanha nazista, com o pacto Ribbentrop-Molotov, também constam no pódio das “conquistas” contrarrevolucionárias do stalinismo. Alianças com os maiores inimigos da classe operária não só dentro desses países, mas mundialmente.

A política das frentes populares, deixando o movimento operário a reboque da burguesia para enterrar a revolução em marcha em muitos desses países também é marca registrada da teoria igualmente nefasta da revolução por etapas e da histórica política de organização de derrotas do stalinismo.

Uma política tão contrarrevolucionária a ponto de, com as botas dos soldados do Exército Vermelho, ao invés de libertar países e entregar o Estado para as classes populares que se rebelavam contra os nazistas, instaurar seus fantoches em todo o Leste Europeu para suprimir o levante independente das massas exploradas. E pior: na Grécia, por exemplo, entregou a classe operária, que havia se armado e estava prestes a tomar o poder, para as garras do imperialismo e do fascismo, favorecendo o extermínio de milhares de comunistas na guerra civil que terminou com a vitória sangrenta da contrarrevolução. O stalinismo, a serviço do imperialismo, conteve a revolução também nos demais países europeus fundamentais como a França e a Itália, cumprindo inclusive o papel de absolver os fascistas diante da ira revolucionária.

Uma política tão reacionária que chegou a dividir com o imperialismo um país como a Alemanha, de proletariado industrial tão potente, erguendo um muro para impedir a união do povo alemão. Se a aliança com o imperialismo na II Guerra e com as frentes populares significou “proletários e imperialistas de todos os países, uni-vos!”, a divisão da Alemanha nada mais foi do que “proletários do mesmo país, separai-vos!”. A pá de cal de qualquer perspectiva revolucionária.

Mas mesmo após sua morte, Stálin seguiu fazendo escola. Khruschev culpou seu mestre por todos os males da URSS mas seguiu ao pé da letra a sua política contrarrevolucionária, dando continuidade à teoria do socialismo em um só país ao pactuar a “convivência pacífica” com o imperialismo e, em um momento de intensas lutas revolucionárias pela independência dos países atrasados, impor sua política reformista em todos os lugares onde conseguiu, abortando o desenvolvimento socialista da revolução.

O mesmo se viu com Brejnev, outro herdeiro do stalinismo, tanto no boicote das lutas nos países atrasados como no esmagamento das revoluções antiburocráticas. Enquanto Khruschev sufocou os levantes húngaro e polonês em 1956, Brejnev enviou as tropas soviéticas para suprimirem violentamente a Primavera de Praga em 1968 e esteve por trás da lei marcial instalada no início dos anos 80 na Polônia para destruir o ascenso operário liderado pelo sindicado Solidariedade.

Finalmente, Gorbatchov e Iéltsin foram os protagonistas do gran finale macabro de décadas de contrarrevolução stalinista, abrindo a União Soviética para o capitalismo e, logo em seguida, dissolvendo-a, impondo ao mesmo tempo igual destino a todos os outros Estados Operários que eram controlados pela burocracia soviética.

Diante de um currículo desses, os stalinistas de hoje (que não são, na prática, stalinistas, mas viúvas de alguém que consideram como um ser divino) apegam-se ao mito construído pela propaganda soviética. Mito que não se sustenta perante uma análise minimamente realista. Resta, apenas, a risada infantil. Ou, melhor seria, a risada amarga?

Os verdadeiros marxistas necessitam, ainda hoje, diante da existência dos stalinistas e dos seus gulags, demonstrar à classe operária que o marxismo não é sinônimo de barbárie, mas uma forma de civilização superior ao capitalismo.

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