Oportunismo sem limites

PSOL, o bastião lavajatista na esquerda brasileira

Em uma política oportunista até o talo, PSOL foi um dos grandes defensores da golpista Lava Jato. Partido, agora, se faz de coitado e finge que não apoiou Moro e seus comparsas.

Tempo de Leitura: 8 Minutos

Luciana Genro, a capitã da esquerda lavajatista. – Foto: Reprodução

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A recente suspeição do juiz golpista Sérgio Moro, bem como a anulação das sentenças contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fizeram a esquerda brasileira de conjunto contrair um mal. Não a COVID-19, que mata a população como moscas, mas uma doença de memória, que faz os elementos defensores da Lava Jato e de Sérgio Moro na esquerda esquecerem do que dizem em defesa da farsesca operação e do juiz ladrão.

Esta doença do esquecimento parece ter infectado muita gente no PSOL. Dentre os quadros mais importantes do Partido, quase todo elogiaram uma ou mais vezes a operação imperialista. Para um Partido tão “anti-imperialista”, como o PSOL, sempre haverá a dúvida de como não viram o que estava na frente dos seus olhos, completamente desnudo.

O Partido parece ter uma sanha agressiva, quase patológica, com o tal “combate à corrupção”. Apesar de que muitas de suas tendências (partidos dentro do partido) se digam marxistas, parece que não possuem a concepção do que lêem. Ao mesmo tempo que criticam o Estado burguês, defendem mais e mais leis e apoiam os chamados circos criados por elementos do judiciário (do Estado burguês), em conluio com a imprensa golpista, para perseguir um ou outro.

Quando é lembrado que alguém do PSOL defendeu a Lava Jato, utilizando-se de toda malandragem possível e imaginável, os quadros do Partido correm para dizer que foi “alguém de outra corrente”. Mais precisamente, justamente por ser a defensora mais ardorosa da Lava Jato, Luciana Genro tem levado a culpa sozinha por algo que foi feito por todo o partido.

Neste artigo, vamos falar dos mais importantes quadros do Partido (alguns nem tanto) e lembrar como eles tão bem defenderam a fraudulenta Lava Jato.

Luciana Genro, Roberto Robaina e o MES

A musa da Lava Jato na esquerda é Luciana Genro.

Apesar das fortes críticas de Luciana Genro ao PT no que diz respeito às relações deste com a burguesia, Luciana aceitou financiamento de campanha de capitalistas como Gerdau e Taurus (fabricante de armas) e Zaffari (rede de supermercados). Sem contar que a mesma tem uma organização não-governamental (ONG), chamada Emancipa, que contou com financiamento de diversos capitalistas. Para quem gosta de “denunciar” o PT por sua adaptação ao regime burguês, Luciana fica atrás apenas pelo fato de que tem menos poder de atração de capitalistas do que o PT, natural para um partido que foi governo federal por quatro mandatos.

Mas o assunto aqui não é a política de conciliação de classes do PT e do PSOL, mas a política levada adiante por esse último no que diz respeito ao golpe e à ofensiva da direita.

Em mais um daqueles “tweets que não envelhecem bem”, Luciana Genro ao comemorar a prisão de Eduardo Cunha, saudou a Lava Jato. Para ela, uma “queima de arquivo” da direita golpista é o combate à corrupção.

Luciana Genro, porém não foi a única a derreter-se pela Lava Jato e seus procuradores. Pelo contrário, observando em perspectiva, há muitos outros nomes tão lavajatistas quanto.

Apesar de menos conhecido nacionalmente, Roberto Robaina (RS) mostrou que não faz ideia alguma do que diz, especialmente em política.

Em artigo para a revista Movimento, a revista da tendência Movimento Esquerda Socialista (MES), a mesma de Luciana Genro, Robaina e o coautor Israel Dutra elogiaram a bancada do PSOL por ter votado contra a emenda que limitava o poder de investigação de juízes e promotores (PEC 37). Polêmicas à parte, a queda da PEC 37 garantiu que o trabalho da chamada “república de Curitiba” continuasse a pleno vapor.

Pior ainda. Mostrando que não apenas o mundo dá voltas, como parece girar loucamente, parafrasearam Caetano Veloso, com a frase “não estão entendendo nada”, ao criticar a posição acertada de setores da esquerda que começavam a perceber que a Lava Jato era uma operação golpista para destruir a esquerda. O tempo mostrou quem estava “entendendo nada”.

Não cansados deste festival de besteiras, eles continuam sua fantasia ao dizer que se “a esquerda seguir insistindo na tecla de opor-se ao discurso anticorrupção vai se isolar cada vez mais do povo”.

O que Robaina chama de povo é, na verdade, parcelas mais direitistas da classe média:

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Foto: Revista Movimento

Em outro artigo para a Movimento, Robaina é citado dizendo que a Lava Jato serviu para expor as entranhas do sistema político brasileiro. Isso não é uma mentira completa. Entretanto, já foi dito aqui que Robaina parece ter “nascido ontem” e entende muito pouco do mundo. A Lava Jato foi uma operação do imperialismo, justamente para tanto arrasar com o PT quanto para domar parcelas da burguesia que toparam acordos com a esquerda.

Fica óbvio que Robaina e Dutra pouco sabem sobre corrupção e muito menos sobre o povo. Claramente perderam a chance de ficar calados.

Babá e sua CST

Outro figurão do PSOL que se lambuzou no mar de lama da Lava Jato foi Babá, atual vereador no Rio de Janeiro, e sua corrente morenista CST (Corrente Socialista de Trabalhadores e Trabalhadoras). Também em nome do “combate à corrupção”, o ex-vereador do Rio de Janeiro e sua corrente defenderam a derrubada do governo do PT em um momento que Dilma estava para cair.

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Foto: CST/PSOL

Enquanto Lula era levado a depor em uma das infinitas fases da Lava Jato, a CST já colocava sobre Lula e Dilma o rótulo de corruptos. Para eles apenas o fato de ter sido alvo da Lava Jato já era a prova definitiva de que Lula era ladrão.

A CST chegou a negar que a prisão de Lula fosse arbitrária. Pelo contrário, justificou a prisão como justa pela “falta de mobilizações”. Se as mobilizações foram pequenas, não se deve à falta de carisma de Lula, mas à incompetência e à preguiça do PT em organizar os trabalhadores. O que a CST fez é um truque argumentativo bastante velho, o chamado falsa causa. Basicamente, é como dizer que refrigerantes são saudáveis porque três dos países que mais consomem refrigerante estão na lista de países mais saudáveis. Assim, a CST coloca que uma eventual justiça na prisão de Lula se dê pela falta de mobilização das massas. Fosse isso verdade, a própria CST não faria campanha contra os atos em defesa de Lula.

A tendência psolista ainda defendeu, com unhas e dentes, que Lula não era um preso político. Um tremendo absurdo.

Pior ainda, Adolfo Santos, da Coordenação Nacional da CST/PSOL, chegou a escrever um artigo, em 2018, onde diz, abertamente que não há perigo de fascismo:

“Centrar esforços na luta contra o fascismo e em atos em defesa de Lula como nos propõem algumas correntes e dirigentes de esquerda é um grave erro que nos retira o foco.”

Uma verdadeira pérola da bem confusa esquerda morenista.

Chico Alencar

O ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro, Chico Alencar, também protagonizou episódios que, assim como os tuítes de Luciana Genro, não envelheceram muito bem. Ele foi o principal personagem da campanha sem-noção (como todas do PSOL) “Dê os nomes, Teori”.

Ainda em 2015, a Procuradoria Geral da República (PGR) apresentou 54 nomes de autoridades que estariam envolvidas, de alguma maneira em esquemas “investigados” pela Lava Jato. O ministro Teori Zavascki pediu abertura de 28 inquéritos.

O PSOL, que tem uma tara insaciável por fazer pedidos inócuos ao Judiciário, apenas para dizer que está fazendo alguma coisa, resolveu, através de seus parlamentares, por uma campanha que não tem poder nenhum junto às massas ao pedir a publicação dos nomes dos “investigados”.

O objetivo do PSOL era, na verdade, queimar nomes do PT que viessem a estar na lista. Chico Alencar disse que os nomes deveriam ser publicados para que os parlamentares e membros do executivo (na época era governo do PT) fossem afastados dos seus cargos durante as “investigações”.

“Os nomes tornando-se conhecidos oficialmente, defenderemos o óbvio: que cada parlamentar investigado se afaste de suas funções na Mesa Diretora e da presidência de comissões, tanto na Câmara como no Senado, além de acionarmos o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar”, disse Chico.

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Foto: Dilvugação/PSOL

Para os menos atentos, parecerá até correta a posição do PSOL. Todavia, cabe lembrar que (1) a Lava Jato colocava o nome de qualquer pessoa em “investigações” para queimar sua reputação e (2), em 2015, quem controlava pastas do governo e algumas comissões eram aliados do governo. Mesmo que um tanto direitistas, estes aliados ainda eram aliados. Simplesmente afastar esses todos era enfraquecer o já moribundo segundo governo de Dilma Rousseff e permitir que a direita golpista tomasse conta de vez de cargos importantes.

Em resumo, Chico Alencar e o PSOL queriam, no fim das contas, dar uma mãozinha aos golpistas.

Ivan Valente

O deputado Ivan Valente, às vezes visto como um elemento mais próximo do PT (para os padrões do PSOL, é claro), também fez sua inscrição no clube dos lavajatistas. Apesar de ter se posicionado contra o golpe de 2016, que retirou a presidenta Dilma Rousseff do poder e abriu espaço para a direita golpista destruir o País, Ivan Valente não pôde conter seu lavajatismo e brindou a todos com uma defesa da operação que serviu para preparar o golpe de 2016 e a eleger Bolsonaro:

“Agora sim vão querer barrar a Lava Jato. Não podemos aceitar que um governo minado de corruptos notórios gere ainda mais impunidade”.

Mas a lavajatisse de Ivan Valente não começou durante o processo de impeachment. Foi antes. Em 2015, durante a não menos golpista CPI da Petrobrás, Ivan clamou que os denunciados pela Lava Jato tivessem de depor à CPI. Seu objetivo era, obviamente, fritar o PT, já que o delator, Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, citou, em depoimento à CPI, que PMDB, PP e PT foram beneficiários de esquemas de corrupção.

O deputado do PSOL acreditou piamente no depoimento e não levou em consideração, em momento algum que tudo não passava de um grande espetáculo para destruir o governo petista.

Heloísa Helena

É certo que Heloísa Helena não faz mais parte do PSOL. Ela agora está na Rede, mas foi a candidata a presidência pelo PSOL que mais chegou perto (ainda que de muito longe) a ganhar o pleito.

Durante sua estada a frente da Presidência Nacional do PSOL, em 2006, Heloísa Helena disse, com todas as letras, que Lula era o principal nome nos esquemas de “corrupção e o parasitismo da máquina do Estado”. Frase esta, que pareceria estar na boca de qualquer bolsonarista mais afetado, foi proferida por ninguém menos que a presidenta do PSOL.

lula corrupto
Foto: Aquivo PSOL

Já fora do PSOL, em entrevista a Metropole, da Bahia, Heloísa Helena, em novembro de 2016, não poupou elogios ao juiz Sérgio Moro, ao qual chegou a chamar de homem “honrado”. “Mas você não pode esperar que a justiça resolva o que milhões de pessoas fizeram de forma livre nas urnas. Eles fazem cálculos eleitorais e sabem que com o dinheiro do roubo, da propina, vão continuar reinando”, continuou ela.

Heloísa Helena representa o que há de mais contraditório no PSOL apesar de não fazer mais parte dele. Sua dita moral elevada (beatice) e a demagógica luta contra a corrupção são, na verdade, a face mais direitista da esquerda. Revestido de um tom combativo, o discurso, na verdade, é recheado de oportunismo e inveja. O PSOL e o restante da esquerda pequeno burguesa fazem nada diferente do PT. Nada mesmo. Suas posições não passam de um recalque desmedido. O sonho deles é se tornar o novo PT, mesmo que, para isso, tenham de topar toda e qualquer política direitista, como apoiar a Lava Jato.

Eles agora se escondem, uns com a língua amarrada e outros fingindo querer mudar de assunto ou jogar a culpa nos outros, mas, no fim, são todos lavajatistas e logo logo se abraçarão, com um sorriso no rosto, a uma nova maquinação imperialista para destruir o PT.

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