Cavalo de Tróia
A política de Frente Ampla na Espanha leva toda a esquerda a apoiar a monarquia fascista e o capital financeiro
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Dia Nacional da Catalunha (em catalão Diada Nacional de Catalunya ou Diada de l'Onze de Setembre) | Quique García (EFE)
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Dia Nacional da Catalunha (em catalão Diada Nacional de Catalunya ou Diada de l'Onze de Setembre) | Quique García (EFE)

A monarquia parlamentar espanhola, após um longo e desgastante período de governo da direita com o PP (Partido Popular) de Mariano Rajoy, supostamente se encontra agora sob uma extrema polarização política entre a oposição da extrema direita radicalizada sob a liderança do VOX de Santiago Abascal (que é seguida pelo PP e Ciudadanos e que conta com o apoio de toda a grande imprensa, do Judiciário e atualmente inclusive dos militares da reserva) contra a “Frente Ampla” liderada pelo PSOE de Pedro Sánchez religiosamente seguido por praticamente todos os partidos de esquerda e independentistas com os quais compõem o atual governo do país.

O toque mágico da liderança de Pedro Sánchez para concretizar a tão sonhada “unidade completa de todas as esquerdas” é obviamente o gerenciamento do multibilionário pacote de ajuda para a crise do COVID-19 a ser liberado a toque de caixa pela Comunidade Europeia no valor de 750 bilhões de euros (metade do PIB da Espanha)  e que vai ser destinado para as grandes empresas e bancos a fim de estabilizar o mercado financeiro.

O rei, na Espanha, cumpre o papel constitucional de “símbolo da unidade e permanência do Estado” como “arbitrador e moderador do regular funcionamento das instituições” e tem a prerrogativa de inviolabilidade absoluta (não pode ser julgado ou investigado) bem como o comando supremo das Forças Armadas, sendo como tal capitão-general dos Exércitos. Na verdade ele foi uma exigência da ditadura franquista durante o período de “democratização” da Espanha em 1978, na prática a monarquia pode ser considerada como a última vontade do ditador moribundo. 

Atualmente Sua Majestade o Rei Emérito Juan Carlos de Borbón se encontra  auto-exilado em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, apesar da sua inviolabilidade absoluta perante a lei da Espanha (legalmente até o dia da sua abdicação em 2 de junho de 2014). Pesam sobre ele inúmeras denúncias e reportagens jornalísticas que levaram o judiciário a abrir processos nos três casos mais graves de corrupção que afetam o ex-monarca, a primeira pela arrecadação de comissões pelas obras faraônicas do trem de alta velocidade de AVE a Meca na Arábia Saudita, a segunda pela rede de empresas em paraísos fiscais descoberta em decorrência do rompimento com sua amante Corinna que embolsou os 65 milhões de euros generosamente depositados pelo monarca em sua conta na Suíça, e a terceira, pelas doações feitas por Sanginés-Krause que por muitos anos foi representante na Europa do Goldman Sachs, o 5º banco mais importante dos Estados Unidos, e que agora é CEO do banco de investimento RLH, CEO da empresa de telecomunicações Millicom International Cellular, membro do conselho de administração da empresa sueca AB Investment Kinnevik e presidente do conselho de administração da RLD, o principal fundo de investimento da empresa de capital de risco BK Partners.

Mesmo diante de uma investigação criminal na Suíça (onde o rei supostamente não gozaria da impunidade absoluta), que o obrigou a abdicar em favor do seu filho Filipe VI e partir para o exílio, tudo indica que ele pretende retornar à Casa Real, provavelmente com o intuito de ajudar os seus súditos do capitalismo franquista espanhol a gerenciarem os fundos europeus para o COVID-19.

Apesar das tentativas de salvaguardar a figura de seu filho e atual rei Felipe VI, a monarquia deveria se desmoronar quando se descobriu recentemente que não somente Juan Carlos desfrutou de seu dinheiro sujo, mas também o seu clã, incluindo os seus queridos netos, Froilán e Victoria Federica de Marichalar.

A mesma frente ampla que aprovou o orçamento do atual governo de Pedro Sánchez (PSOE) composta também pelo PODEMOS, pelo Partido Socialista da Catalunha e Esquerda Unida/PCE e que contou com o apoio de praticamente toda a esquerda e dos independentistas -menos a CUP (com 2 deputados), o Bloco Galego (1 deputado) e o JxCat (4 deputados)-, acabou literalmente se decompondo diante da tarefa histórica de finalmente desferir o golpe final na monarquia espanhola, já em estado de completa decomposição.

Enquanto o PSOE descaradamente se uniu ao bloco fascista do VOX, PP e Ciudadanos para defender diretamente a inviolabilidade da monarquia, os demais partidos se limitam unicamente a apresentar propostas de comissões parlamentares de investigação que são invariavelmente bloqueadas pela mesa do congresso com a maioria do novo bloco monarquista. 

Ao mesmo tempo em que o rei prepara as malas para voltar ao El Palacio Real de Madrid depois de pagar 678.300 euros para regularizar a sua situação com a Agencia Tributaria e não correr mais o risco de um processo criminal, 200 pessoas estão sendo despejadas a cada dia na Espanha pela ausência da lei de proteção habitacional que foi retirada consensualmente da votação do orçamento de uma das mais amplas maiorias parlamentares das “esquerdas” de todos os tempos.

Diante da completa inércia das esquerdas e dos independentistas, vergonhosamente acorrentados com a política capituladora da frente ampla e rebocados pelo PSOE, os ratos fazem a festa e pavimentam o caminho para que a extrema direita assuma a liderança política da legítima mobilização popular. Nas ruas e não no parlamento burguês é que se resolvem os problemas da população trabalhadora. O fascismo se combate nas ruas, com organização e luta e não com a hipocrisia dos discursos parlamentares.

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