Brasília
A tentativa da direita de despolitizar o movimento antifascista poderá levar as manifestações a um esfacelamento total
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Torcedores em ato na cidade de Brasília | Foto: Divulgação/YouTube

Ontem (21) foi mais um dia de mobilização nacional pelo Fora Bolsonaro. Desde o dia 7 de maio, cidades nas cinco regiões do País têm organizado manifestações aos domingos contra o presidente ilegítimo. O ato que aconteceu em Brasília, contudo, chamou bastante atenção por um aspecto muito perigoso para o desenvolvimento da luta política: a tentativa da burguesia de despolitizar o movimento antifascista e expulsar das ruas os partidos políticos.

Como pode ser visto pela própria cobertura que a imprensa burguesa deu ato, há uma clara tentativa de mostrar que os atos contra o governo Bolsonaro são atos convocados por “torcedores”, e não por partidos políticos:

Liderados por torcedores do Vasco e do Corinthians, torcidas de vários clubes brasileiros e movimentos sociais fizeram protesto pela democracia hoje (21), em Brasília. O grupo, que ainda ainda conta com a presença de movimentos sociais, critica o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) pelo enfrentamento da pandemia de covid-19 (Uol, 21/06/2020).

Esse tipo de falsificação por parte da imprensa burguesa é mais do que comum. Afinal, a última coisa que a burguesia quer é que a polarização política aumente e que as manifestações contra o presidente ilegítimo se transformem em movimentos de massa e com um programa político bem definido. No entanto, é preciso alertar que, como em todos os momentos, a campanha da burguesia contra a polarização política acaba exercendo uma pressão sobre a esquerda. E essa pressão, a depender de como se desenvolve a luta política, pode levar setores da esquerda, em geral os mais pequeno-burgueses, a servirem de porta-vozes para uma política reacionária.

Nas reuniões que prepararam o ato do dia 21 em Brasília, essa pressão da burguesia podia ser vista de maneira bem clara. Por mais de uma vez, setores da esquerda defenderam a posição de que, como o ato seria dos “torcedores”, as bandeiras de partidos políticos deveriam ser proibidas. Na prática, se um partido político não leva suas bandeiras, ele não está verdadeiramente presente no ato. Sem os partidos, os atos se tornam facilmente manipuláveis: em uma manifestação em que todos vistam preto e não levem bandeiras partidárias, a imprensa burguesa pode facilmente aparecer e inventar que o ato é a favor de suas pautas, e não as da população. Em 2013, quando essa manobra foi utilizada largamente pela burguesia, a imprensa falsificou em todos os momentos as informações sobre as “lideranças” dos atos e sobre as reivindicações do povo.

A ideia de que seja possível excluir os partidos políticos dos atos é, além de direitista, completamente falsa. No fim das contas, o que acontece quando se proíbe as bandeiras dos partidos é que os partidos mais atuantes, os partidos que marcham junto ao povo e que, por serem apoiados pelos trabalhadores, expõem claramente sua política, sumam dos atos. E como não existe vácuo em política, esse vazio é preenchido por aqueles que não podem mostrar sua cara: a direita e a extrema-direita bolsonarista. Neste momento, a proibição das bandeiras corresponde a um ataque direcionado ao PCO, que é o único partido que está impulsionando os atos. Em 2013, essa política foi direcionada sobretudo ao maior partido de esquerda do País, o PT, e poderá ser novamente direcionada a esse, uma vez que sua base se mostra cada vez mais disposta a sair às ruas.

A discussão na organização do ato em Brasília foi completada com a ação da polícia na própria manifestação. Em sintonia fina com a propaganda da imprensa burguesa e com os interesses da direita, a polícia proibiu que os manifestantes levassem mastros para o ato. Ou seja, encontrou um pretexto para fazer exatamente o que pregava a burguesia: proibir que houvesse bandeira.

É preciso denunciar a manobra que foi realizada em Brasília — e que também tem sido realizada, em menor proporção, em outros lugares do País, onde a luta política ainda não se mostrou tão intensa. É o caso, por exemplo, de Recife, onde a Frente Povo sem Medo, em uma clara tentativa de enterrar a perspectiva de que os atos contra o governo Bolsonaro crescessem, tentou organizar um ato “secreto”, sem divulgação pública alguma, e apenas com a permissão para que os líderes das “torcidas antifascistas” falassem. Essa tentativa acabou fracassando e o PCO, junto com outros setores mais combativos do movimento antifascistas, divulgaram o ato e levaram bandeiras e faixas.

“Torcedores antifascistas” em ato no da 07 de junho no Recife.

Apesar de ser uma manobra comandada pela direita, é preciso compreender, por outro lado, que esse aspecto do movimento tem um caráter temporário. Não há qualquer definição nesse sentido. É preciso, portanto, comparecer aos atos e quebrar, por meio da mobilização, a ditadura contra os partidos políticos.

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