Programa de Temer: imprensa golpista avisa Bolsonaro qual política ele deve seguir

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A burguesia nacional e o imperialismo vêm atuando para retomar o controle total do Estado, desde que a Assembleia Nacional Constituinte (ANC), de 1987/88, palco de um experimento que assustou os donos do poder, com a presença quase diária de movimentos sociais, sindicatos, donas de casa, meninos de rua, Igreja Católica, camponeses, negros, indígenas, além dos lobbies pesados do empresariado, dos bancos, da mídia, das Forças Armadas etc.

A despeito de o resultado final, a Constituição de 1988, ter sido mal um espectro do que desejava a esquerda e a sociedade civil organizada, com suas emendas e sugestões, não restava dúvidas de que o próximo governo, escolhido pelo voto, corria o risco de não ser o de sua preferencia, um governo confiável, tutelado.

De fato, não foi.

Assim como hoje, o povo estava decidido a escolher um novo presidente com quem se identificasse e que não lembrasse em nada o regime militar que se estava aparentemente superando.

Os candidatos da direita, por isso, não pareciam palatáveis, então inventaram um. Tonificaram um partido nanico para tentar garantir o apoio necessário no parlamento, mas, mesmo esse candidato feito sob encomenda, Fernando Collor de Mello, estava destinado a ser vencido pelo candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) que saia engrandecido da ANC e que tinha, já naquela época, um líder popular com o qual a população mostrava identificação e confiança.

Assim como hoje, naqueles idos de 1989, o papel da imprensa foi fundamental para retirar Lula do jogo e dar a vitória ao ‘caçador de marajás’, um jovem adocicado pela Rede Globo e transformado numa espécie de herói, um presidente galã, lutador de caratê, novo, diferente de ‘tudo que está aí’, com uma pauta de combate à corrupção, e que estava disposto a ‘cortar’ na carne entre outras baboseiras.

Mesmo assim, a Globo somente conseguiu colocar a faixa presidencial do playboy das Alagoas aplicando um golpe nos expectadores, nos eleitores. Alem da propagação de mentiras e boatos sobre o candidato sindicalista, editou o ultimo debate entre Collor e Lula, mostrando somente o melhor de um e o pior de outro. Naquele tempo, não havia debate ao vivo.

Collor foi orientado, lhe foi apresentada a política economica que deveria seguir e o modo de se comportar, mas ousou querer alçar voos solos, e altos. Foi um desastre na economia, mesmo que parte do que fez fosse do receituário liberal, meteu os pés pelas mãos. A burguesia o dispensou rapidamente. Inventou um pretexto para o impeachment e Collor foi chutado para bem longe.

Ora, Bolsonaro não era o candidato favorito, nem da burguesia nem do imperialismo, mas ele vinha se preparando fazia alguns anos e, desde pelo menos 2017, investiu pesado na construção de sua imagem e em projetar-se como alternativa junto à população.

Hoje sabemos que isso custou milhões e provavelmente parte do que foi gasto veio de ajuda estrangeira.  O fato é que, quando os candidatos da direita não decolaram, a extrema-direita já tinha seu candidato pronto e muito à frente dos demais da direita.

Não havia alternativa para os golpistas, ou, se havia, era muito onerosa. Bolsonaro foi incorporado, mas a um custo que ainda não é totalmente conhecido. Esse cálculo pode ser complexo. Ele, o candidato neofascista, tenta convencer os donos do poder, a burguesia nacional e o imperialismo, com sua política claramente entreguista, mas a aposta é a de que será um governo muito instável.

Como se tem visto, registrado em centenas de matérias, Bolsonaro e seus apoiadores são de extrema-direita e não hesitam em soltar os cachorros raivosos sobre quem bem entendem, incitam a violência e  não conseguem ficar um dia sem ameaçar alguém, geralmente a tudo e todos, porque é de sua natureza. O problema é que normalmente, depois que os cachorros são soltos, não se consegue mais controlá-los.

O imperialismo tem todo interesse em controlar os cachorros, pois necessita estabilizar o regime político, porque a crise e o caos têm um teto que, depois de ultrapassado, cria condições  que tornam difícil, senão impossível, manter um ambiente favorável para melhor explorar a economia.

Está mais que claro, e o futuro Ministro da Fazenda do governo de extrema-direita, Paulo Guedes, colaborador do ditador chileno, Pinochet, não cansa de afirmar, a receita é neoliberal, visando permitir a super exploração econômica.

Essa política é a mesma que o desgoverno golpista adotou, com Temer golpista, Henrique Meirelles et caterva: austeridade com entreguismo acelerado.

Ora, essa receita, agora mais acabada, é a que já começam a detalhar os órgãos de imprensa. A Folha de São Paulo, mesmo tendo investido contra o candidato fascista, já pronta para lidar com a fera, adequou-se rapidamente para fazer o que a imprensa faz de melhor: mandar recados dos donos do capital.

Esse recado foi objeto de editorial da Folha nesta segunda-feira, dia 29 de outubro de 2018, no qual inclui a reforma da previdência, a privatização, ataque ao serviço público e facilidade para a importação, entre outros itens do receituário neoliberal.

É o que esperavam de Golpista, é o que esperam sempre de qualquer um que assuma o governo. O recado está dado, em reforço ao que a revista The Economist já havia indicado, também em editorial, na semana passada. Ali está o verdadeiro programa de governo que a burguesia e o imperialismo querem ver implantado, não o power point do PSL.

Não é uma sugestão, é uma ordem.

Bolsonaro, para se manter na presidência, vai ter que cumpri-la. O programa é nitidamente neoliberal, é bom repetir, e não inclui recuos nas políticas anti-trabalhador de Temer Golpista, nem mesmo uma revisão no teto de gastos, mas uma ampliação da política de precarização do trabalho e de retirada de recursos de políticas sociais.

Bolsonaro, se não quiser ser descartado, ou, como diz a Folha, “devorado”, terá que ser melhor que Collor, obedecendo aos patrões sem criar muita dificuldade.

Em 1962, o dono do jornal O Estado de S. Paulo, Julio Mesquita Filho, escreveu uma espécie de roteiro do golpe, que foi destinado aos conspiradores, militares e civis, que levaram a cabo o golpe de 1964.

Orgulhoso de si, o dono do Estadão tornou pública a “carta” (publicada no Estado de São Paulo em 12 de abril de 1964) em que desenhava o golpe, mostrando que advertia-se o presidente João Goulart sobre o que aconteceria, e o como, no caso de que não correspondesse ao que as elites, em particular a paulista, consideravam o melhor para o país.

Derrubaram João Goulart, derrubaram Fernando Collor de Mello, derrubaram Dilma Rousseff, assassinaram Juscelino Kubitschek, e Getulio Vargas se matou antes de ser cassado.

O recado foi dado: enquadre-se ou será devorado.