Produtores cearenses avaliam como o corte de verbas da Ancine prejudica a cultura local

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A Ancine (Agência Nacional do Cinema) está enfrentando um severo estrangulamento financeiro durante o governo direitista de Jair Bolsonaro. Tribunal de Contas da União está questionando a metodologia que a agência usa para financiar projetos e os recursos estão represados. No Ceará, foram afetados diretamente realizadores audiovisuais como Rosemberg Cariry, Suzana Costa, Allan Deberton e Mariana Medina – que são referências no setor.

O governo fascista de Bolsonaro tem demonstrado repetidas vezes total desprezo por qualquer manifestação cultural, artística de intelectual brasileira. Orientado na área “cultural” desde fora do Brasil pelo astrólogo Olavo de Carvalho, o presidente golpista repete sem entender bem os chavões do guru, que incluem ataques às comunidades artísticas e acadêmicas nacionais. Somasse a isso a pressão gigantesca do obscurantismo neo pentecostal da base de apoio do presidente e a sanha privatista dos neoliberais da esquipe de Paulo Geudes, sempre dispostos a direcionar o dinheiro do país para o bolso dos banqueiros apenas.

Especialistas tem se manifestado e alertado para o risco que o sufocamento econômico da Ancine representa para a cultura brasileira. “Todo setor precisa de financiamento e proteção do governo, basta ver o que a bancada ruralista faz na Câmara e no Senado. Audiovisual, além de cultura e arte, é também gerador de emprego e renda. Com a suspensão de repasses de novas verbas da Ancine, teremos uma menor produção de conteúdo, as pequenas e médias produtoras poderão fechar”, projeta a realizadora cearense Mariana Medina. Na opinião dela, as produtoras que manterão as portas abertas, provavelmente, serão as maiores ou aquelas que produzem para o mercado publicitário. “Teremos um aumento de desemprego no setor”, diz Mariana, que após a medida precisou interromper dois projetos: um longa-metragem e uma série de televisão.

“Um dos setores mais rentáveis atualmente, o do audiovisual, dentro desta conjuntura de interrupção de investimentos, com certeza poderá morrer, algo que já aconteceu antes, na época que fecharam a Embrafilme”, explica o realizador Allan Deberton, referindo-se à ação executada, naquele momento, pelo Governo Collor. Após o encerramento das atividades da Empresa Brasileira de Filmes, a produção minguou e chegou a ser lançado total de dois filmes por ano. Os recursos da Ancine e do Fundo Setorial do Audiovisual, diz Allan, têm sido responsáveis por tornar realidade boa parte das produções cearenses. “O momento é de incerteza. Atualmente, há muitos profissionais do setor sem trabalho e sem expectativas. E muitas produtoras praticamente fechando”, lamenta Allan, que tem projetos em tramitação e outros em espera por resultados.

Doug de Paula, secretário da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Audiovisual, explica que nos últimos anos foram combinados recursos federais e estaduais. Dessa forma, mais produções foram viabilizadas e as criações do Estado começaram a ser vistas para além do nosso território. “O Ceará, quando começou a combinar os recursos do Estado junto com os da União, mais que duplicou o valor orçamentário para o financiamento da produção audiovisual. Não é situação só do Ceará. É do País inteiro”, avalia.

Suzana Costa – presidente da Câmara Setorial do Audiovisual do Ceará, órgão vinculado a Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece) – tem participado de debates e mobilizações para avaliar os rumos da Ancine. Ela explica que, no setor, jamais houve interesse em ter fiscalizações menos rigorosas em prestações de contas feitas junto a Ancine. “Sempre fomos a favor (da fiscalização). Se tiver qualquer espécie de erro, que ele seja reconhecido. O que não entendemos é como para fiscalizar um setor, você precisar parar ele”, indaga.

Além do impacto direto sobre a produção cultural, os ataques à Ancine destroem empregos e eliminam completamente as ações de capacitação de profissionais da área para cidadãos de baixa renda.

É preciso revidar os ataques de Bolsonaro sobre as agências públicas e a cultura brasileira, mobilizando as massas e trabalhadores de todos os segmentos para a defesa dos interesses nacionais.