Esquerda “vibra” com o STF
A ilusão da esquerda nas instituições golpistas do regime é uma demonstração que bem pouco aprenderam com o golpe de 2016
Brasília(DF), 06/11/2018 - Sessão do Congresso Nacional em comemoração aos 30 anos da Constituição - Na foto Jair Bolsonaro e  Presidente do STF Dias Toffoli -  Foto: Daniel Ferreira/Metrópoles
Bolsonaro e Dias Toffoli | Daniel Ferreira/Metrópoles
Brasília(DF), 06/11/2018 - Sessão do Congresso Nacional em comemoração aos 30 anos da Constituição - Na foto Jair Bolsonaro e  Presidente do STF Dias Toffoli -  Foto: Daniel Ferreira/Metrópoles
Bolsonaro e Dias Toffoli | Daniel Ferreira/Metrópoles

A semana que passou foi marcada pela intensificação da disputa política entre a extrema-direita bolsonarista e a direita, tão fascista, quanto Bolsonaro, representada pelos governos de São Paulo e Rio de Janeiro, respectivamente, João Doria e Wilson Witzel.

No meio dessa disputa, a esquerda saiu a comemorar as ações promovidas pelo STF e pelas polícias do Rio e de São Paulo contra Bolsonaro, principalmente as prisões da militante de extrema-direita, Sara Winter e do operador do caixa dois da família Bolsonaro, Fabrício Queiroz.

Para a esquerda, pouco importou que tanto a prisão de Sara Winter como a de Queiroz tenham ocorrido de maneira absolutamente ilegal. “Longe de tomar decisões abusivas, o STF até hesitou demais e demorou em tomar atitudes mais concretas contra a escalada autoritária desferida pelo governo Bolsonaro”, declarou André Freire, do Psol, em artigo no sítio Esquerda Online. Por sua vez, Alex Solnik deu como título da sua coluna no sítio Brasil 247, de 19 de junho, “Queiroz só vai abrir o bico se sua mulher for presa”.

Sinais trocados? Até muito pouco tempo atrás, era grande o estardalhaço na imprensa golpista burguesa com as prisões ilegais de políticos de esquerda ou da direita, assim como empresários, que de alguma forma teriam mantido relações com os governos petistas.

Cada “nova” denúncia de Palloci, Léo Pinheiro, entre muitas outras  “delações premiadas” no ministério público de Deltan Dalagnol em conluio com Sérgio Moro, o então juiz responsável pela operação Lava-Jato, ganhavam as páginas de jornais, os sítios e os jornais televisivos como verdades absolutas. Lula foi transformado no “comandante máximo da corrupção no Brasil”, o que ensejou que partidos da direita e da esquerda (do PSDB ao PSTU) e políticos da direita, como Ciro Gomes e supostos esquerdistas, como Marina Silva, se alinhassem em uma grande cruzada moral contra o Partido dos Trabalhadores.

Passados poucos meses, muitos dos atores, a começar pela organizações Globo, responsáveis pelas calúnias e difamações contra o PT, voltam-se contra o presidente fascista Jair Bolsonaro.

Qual é a moral da história? A esquerda ou pelo menos boa parte dela não compreendeu qual o objetivo da campanha contra o PT, assim como não compreende nada do que está acontecendo agora. 

No caso do PT, embora seja praticamente unânime na esquerda de que houve um golpe, muito pouco se compreende sobre a natureza e os objetivos desse golpe. Em geral, é tratado como uma mera manobra dos partidos da direita para apear o PT do “poder”, diante das seguidas derrotas eleitorais.

O objetivo aqui não é discutir a política do imperialismo, o papel da burguesia “nacional”, o envolvimento das instituições nacionais, a imprensa venal na execução do golpe, que começou mesmo antes do impeachment fraudulento de Dilma Rousseff, mas sublinhar que, como todo golpe, ele se ampara na quebra do estado democrático de direito e isso foi a base de todo o processo, que teve um ponto alto na perseguição e prisão de Lula e na posterior cassação de sua candidatura a presidente em 2018, política que abriu caminho para a vitória eleitoral de Bolsonaro.

Ao contrário do que a esquerda pensa, a utilização ilegal dos métodos usados pelo judiciário contra o PT e agora contra o bolsonarismo, não tem que ver com uma suposta neutralidade desse poder, mas justamente com o contrário disso. As ações do STF contra militantes da extrema-direita são baseadas no “crime de opinião, como atestou o ministro e autor das diligências e prisões contra boslonaristas, Alexandre de Moraes. Disse ele: “real possibilidade de existência de uma associação criminosa” para a organização de atos antidemocráticos, que pedem o fechamento do Congresso Nacional e do STF, dentre outros ataques às instituições. O mesmo podemos dizer da prisão de Queiroz, feita a partir de um mandado “produzido” por um juiz do Rio de Janeiro. Sabidamente, Alexandre de Moraes é um ministro do PSDB e a contra-ofensiva está ligada aos rumores da ação da polícia federal contra o governador de São Paulo, João Doria, do mesmo partido de Moraes. No caso do Rio de Janeiro, também fica clara a reação ao impeachment de Witzel, impulsionada por Bolsonaro.

O que ficou por demais evidente com o golpe é que o objetivo da burguesia, seja da ala bolsonarista ou da ala dos governadores, é de levar o país para a ditadura. A lei de segurança nacional e a lei antiterrorismo que estão sendo usadas para atacar a extrema-direita são os caminhos para se chegar à própria esquerda. Sara Winter está sendo acusada de atentar contra as instituições, mas ninguém é obrigado a aceitar as instituições. Seja de direita ou de esquerda, é um princípio elementar do estado democrático de direito. Opinião, posição política não são crimes. E os partidos de esquerda e militantes que comunistas, que defendem a ditadura do proletariado, a expropriação da burguesia, na mesma ótica das acusações contra a fascista não virão a ser acusados também de “subverter a ordem”? Atentar contra o “estado democrático”?

Uma outra questão. Lula, embora solto, sofre processos de toda ordem. A qualquer momento, a burguesia pode entender que ele deve voltar para a cadeia. Está mais do que provado que tudo foi uma grande farsa. Onde está o STF para anular os processos?

Voltamos a frisar: os ministros que estão no STF são os que mais atuaram contra o estado de direito no golpe contra Dilma; além disso defenderam uma série de políticos burgueses do PMDB, PSDB de acusações de corrupção. Foram os mesmos que manipularam as leis e as informações forjadas pelo Ministério Público e pela Lava Jato  para garantir a vitória eleitoral do golpe e de Bolsonaro.

Finalmente, a esquerda mistura “alhos com bugalhos”. Quem vai derrotar o fascismo, quem pode derrotar o fascismo é o povo mobilizado. O fascismo em todos os lugares e em todas as épocas é uma “criação” da burguesia. Se hoje a burguesia tenta enquadrar Bolsonaro, amanhã ela pode dar asas aos cães raivosos como fizeram a partir de 2013. Ao contrário, as leis que são usadas hoje ocasionalmente para conter os bolsonaristas vão ser, sempre que necessárias, usadas contra a esquerda. Nesse sentido, nada melhor para a direita do que ter os aplausos da esquerda.

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