“Primeiro-filho” vai aos EUA envergonhar o Brasil

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Recentemente, Eduardo Bolsonaro se achou no direito de ir aos Estados Unidos posar para fotos e dar entrevistas para jornais e televisão em nome do pai. Só isso já seria vexame suficiente para qualquer democracia séria, independentemente do que ele disse ou fez diante das câmeras.

 

É verdade que o filhinho do papai é deputado federal reeleito e poderia estar se autorrepresentando como idiota, o que ele faz muito bem. Mas não foi isso que ele fez.  

 

Não se tem notícia, na história do planeta, de nenhum filho de chefe de Estado (a ser empossado ainda, lembre-se) que tenha feito esse papel de “embaixador” informal, atropelando os serviços oficiais de diplomacia do seu país, a não ser, talvez, algum príncipe de monarquia absolutista do Oriente Médio ou filho e herdeiro de ditador africano ou caribenho.

 

Eduzinho nos proporcionou um ridículo sem tamanho, em qualquer condição, mas principalmente se tivermos consciência de que o Brasil não mereceria ser visto como uma republiqueta: é uma nação de 220 milhões de habitantes, está entre os 10 maiores PIBs do planeta e tem o quarto maior território, só para resumir.

 

Papai Bolsonaro é pau-mandado dos gringos e vai assumir o poder em consequência de um golpe de Estado em andamento, que apeou a legítima governante sem fundamentação constitucional e tirou da disputa eleitoral o potencial presidente eleito fraudulentamente, valendo-se do empenho e ambição política de um jagunço travestido de juiz, que, descaradamente, aceitou como recompensa um super ministério para controlar a “justiça” e todo o sistema policial repressor do Brasil.

 

Se tudo isso não fosse avacalhação suficiente para uma comédia indecente, o subserviente garotão Bolsonaro posou de boné com inscrição em apoio à reeleição de Trump em 2020 e disparou sandices para a imprensa de lá, ávida por exibi-lo como espécie exótica e pitoresca proveniente do remoto país tropical conquistado (com traição interna) e ocupado. Como ele não tem senso de ridículo e tem o apoio de gente de igual calibre, o Brasil inteiro acaba pagando o preço e passando vexame.

 

Entre outras abobrinhas, o deputado declarou para os jornalistas gringos que seu pai vai, sim, transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, causando um alvoroço na diplomacia mundial, de graça, e, especialmente, iniciando um protesto e potencial boicote de todos os países árabes que importam produtos do Brasil, inclusive carne bovina e de frango do agronegócio dos golpistas apoiadores de seu pai e dele próprio, tamanho é o “talento” intelectual do menino.

 

Para culminar seu périplo desengonçado, o primeiro-filho deu entrevista para a televisão. No telejornal da rede Fox, ele declarou de maneira robótica, como se tivesse lendo um texto no teleprompter ou em um cartaz que seu guia Steve Bannon escreveu (veja vídeo): “…o Brasil está mudando de um enorme socialismo para uma economia muito mais liberal. O que eu vim fazer aqui nos Estados Unidos é o primeiro passo para resgatar nossa credibilidade e mandar uma mensagem, uma mensagem clara, de que nós não seremos mais um país socialista e nós estamos entusiasmados em ficarmos realmente íntimos dos EUA”.

 

O jornalista que ouviu tudo aquilo, cinicamente, deu “corda”, retrucando: “E eu sei que os americanos estão entusiasmados que vocês estejam caminhando nessa direção, porque a prosperidade acompanha uma economia capitalista forte. Tem pessoas que continuam falando sobre socialismo, mas não conseguimos encontrar um país socialista bem-sucedido no mapa”.

 

Esse jornalista, Lou Dobbs, âncora do telejornal da rede de televisão de extrema-direita Fox, de propriedade do magnata Rudolph Murdoch, que também é dono do jornal Wall Street Journal, missário do sistema financeiro dos Estados Unidos e dos investidores da bolsa de valores de Nova York, é puxa-saco emérito de Donald Trump e já foi, ele próprio, cogitado como candidato à presidência daquele país pelo Partido Republicano.

 

Dobbs trabalhou antes para a CNN, quando deu dor de cabeça a Obama, a mando de Trump, cobrando uma comprovação de seu nascimento em território dos EUA para que pudesse ser presidente pelo Partido Democrata. Depois de uma campanha que o acusava de ter nascido no Quênia, África, terra de seu pai, Barack Hussein Obama divulgou sua certidão de nascimento no Havaí. O episódio de perseguição causou um embaraço para a CNN, de direita, que pediu a Dobbs para sair e procurar sua turma de extrema-direita.

 

Se é possível algum tipo de consolo para nós brasileiros, existe esse aspecto de que a exibição de boçalidade de Eduardo Bolsonaro foi para consumo interno da extrema-direita. Nem nos Estados Unidos, os bem-pensantes, mesmo de direita, dão qualquer relevância à Fox, a Dobbs ou a Trump. Talvez seja um erro deles, pois os lunáticos seguem livres para falarem e fazerem besteiras que afetam a todos.

 

O garoto exótico e o jornalista mostraram grande afinidade e dotados de ignorância equivalente. O “enorme socialismo” que existiu no Brasil foi quando? Qual será a definição do termo na cabeça dele? Seria presença forte do Estado na economia, empresas estatais, como eram os bancos, companhias telefônicas, siderurgia e mineração durante a ditadura militar? Seria a conquista de direitos trabalhistas que remontam a 1930? E a “prosperidade do capitalismo forte” defendido por Dobbs, seria representado pelo 1% da população dos EUA que acumulou a mesma riqueza que os 50% da base da pirâmide que estão dormindo acampados nas ruas ou em abrigos? Ou as seis pessoas no Brasil que têm a mesma quantidade de dinheiro que 110 milhões de pessoas (metade da população)?

 

Nenhum dos dois têm a mais vaga noção do que seja socialismo e de que o capitalismo é um estágio para uma sociedade desenvolvida chegar ao socialismo, que está em curso hoje em várias nações prósperas do mundo, que já atingiram um nível de eleger chefes de estado que se declaram socialistas, como o vizinho Canadá, Portugal e Nova Zelândia. Não importa. Eles apenas jogaram para sua plateia interna de ignorantes, como uma religião. E nos matam de vergonha.