Preso o suspeito mandante da execução da ativista do MAB Dilma Silva no Pará

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Da redação – Na tarde de terça-feira (26) a polícia civil do estado do Pará prendeu o latifundiário Fernando Ferreira Rosa Filho, 43 anos, como suposto mandante do massacre da coordenadora do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Dilma Ferreira Silva. A motivação para o crime seria o interesse pelas terras do assentamento Salvador Allende.
A execução de Dilma, de 45 anos, e de seu marido, Claudionor Costa da Silva, 42, além de Milton Lopes, amigo do casal, ocorreu entre os dias 21 e 22 de março no município de Baião, nordeste do estado do Pará. Segundo informações de testemunhas ouvidas pela reportagem da Amazônia Real no assentamento Salvador Allende, onde ocorreu o crime e próximo do município de Tucuruí, seis homens chegaram à casa de Dilma, que também funcionava como um mercadinho, e ficaram lá bebendo. A testemunha afirma que ao sair do local ouviu um desconhecido dizer “não vai, morena! Agora que vai ficar bom!”
Os vizinhos relatam que durante a noite do triplo homicídio ouviram música alta vinda do local e até estranharam. Os corpos foram encontrados na manhã seguinte. As vítimas foram amarradas, amordaçadas e mortas a facadas, Dilma teve a garganta cortada, foi torturada e há suspeitas de estupro.
A ativista e coordenadora do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens) e sua família receberam um lote de terra para morar no assentamento em 2010. Eles e mais 30 mil pessoas aproximadamente tinham sido atingidos pela construção da usina hidrelétrica de Tucuruí, inaugurada em 1984, durante a ditadura militar, e não foram ressarcidos.
Em 2005 ela ingressou no MAB, que em nota sobre o acontecido diz: “temos convivido com ameaças e assassinatos frequentes de lideranças populares atingidas por barragens, a isso soma-se o verdadeiro estado de exceção vigente na Amazônia brasileira, região que concentra 9 a cada 10 assassinatos de defensores da terra e do meio ambiente no Brasil, segundo a ONG global Witness.”
A prisão de Fernando se estendeu aos irmãos Alan, Cosme Francisco, Glaucimar e Marlon Alves, estes que estariam no grupo das seis pessoas que beberam no mercadinho da ativista na noite do crime. Eles seriam os autores da execução.
No mesmo dia da morte de Dilma Silva, três funcionários da fazenda de Fernando Rosa Filho foram mortos carbonizados e seriam um casal de caseiros e um tratorista, de acordo com a Segup (Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social do Pará), os dois crimes não têm relação, mas conforme investigação as mortes dos funcionários teriam motivações com questões trabalhistas. O fazendeiro conhecido como “Fernandinho Shalon” já havia sido denunciado em 2018 por homicídio contra três pessoas, o caso segue em segredo de justiça.
Em janeiro deste ano, agricultores ouvidos pela reportagem da agência Amazônia Real relataram que o latifundiário foi acusado de atirar contra uma liderança da Frente Nacional de Lutas de campo e terra (FNL). A liderança que sofreu o ataque, seria responsável por uma ocupação de sem terra na fazenda de Fernando Filho. Os quatro irmãos Alan, Cosme, Glaucimar e Marlon também respondem processos por crimes de homicídios na justiça do Pará ocorridos entre os anos de 2010 e 2013.
Para um coordenador do MAB, Iury Paulino, o crime “está diretamente ligado a luta por direitos, para ele foi um crime planejado e brutal”.
“Fernandinho” é acusado de envolvimento com tráfico de drogas, agiotagem, receptação, roubo a banco, homicídio, tentativa de homicídio e grilagem de terras. As investigações até agora concluíram que os dois casos foram cometidos pelo mesmo grupo e a mando do fazendeiro que teve contato com os executores de acordo com a polícia do Pará.
Um levantamento feito pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), o número de assassinatos decorrentes de conflitos no campo vem crescendo muito desde 2015. Em 2017 foram registrados 70 assassinatos, entre eles quilombolas, indígenas, sem terra, assentados e outros. O número cresceu muito em relação a 2009 quando foram registrados 25 mortes.