Mobilização
Nota do Coletivo João Cândido sobre os protestos nos Estados Unidos
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Manifestantes ateiam fogo em delegacia da cidade de Mineápolis. | Foto: Jordan Strowder/Anadolu Agency via Getty Images

Nota do Coletivo João Cândido sobre os protestos nos Estados Unidos

No dia 25 de maio de 2020, George Floyd, homem negro de 46 anos, desempregado, se tornou mais uma vítima do aparato de repressão da polícia norte-americana. Acusado de tentar repassar uma nota falsa de 20 dólares, Floyd foi imobilizado por um policial e asfixiado até a morte. Um transeunte filmou a cena, e o vídeo, que mostra Floyd implorando para que os agentes o soltassem, teve grande repercussão. A denúncia acabou sendo o estopim para uma onda de protestos na cidade de Mineápolis, que neste momento se expande para todo o território dos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo em que estão sofrendo uma série de manifestações, os Estados Unidos também são, não por coincidência, o país mais afetado pelo coronavírus em todo o mundo. Os capitalistas já vinham sabotando o país havia muito tempo, de modo que os norte-americanos estão tendo de enfrentar a pandemia com uma profunda desigualdade social e um dos piores sistemas de saúde existentes entre os países de maior desenvolvimento capitalista. Os protestos, que estão sendo liderados pelos negros, revelam, na verdade, uma convulsão social generalizada no coração do imperialismo.

A crise social não deve ser subestimada. Já são centenas de pessoas presas e, ao que se sabe, duas mortes foram registradas em meio aos conflitos com o aparato de repressão. Temendo que a situação fugisse de controle, o presidente norte-americano Donald Trump pediu intervenção das Forças Armadas. Com 100 mil mortos por coronavírus e pelo menos 40 milhões de desempregados, qualquer explosão social pode levar à dissolução completa do regime. A saída de Bernie Sanders da disputa presidencial deve ser entendida como mais um fator importante nessa mistura explosiva: a revolta contra a política neoliberal terá muita dificuldade de ser canalizada para algum movimento de tipo eleitoral, visto que os candidatos restantes são representantes diretos dos setores mais reacionários da burguesia.

Apesar das enormes diferenças entre a situação do Brasil e a situação dos Estados Unidos, o caráter explosivo das mobilizações lideradas pelos negros norte-americanos não dista do potencial explosivo da luta do negro brasileiro. Da mesma maneira que o assassinato de George Floyd incendiou o barril de pólvora formado pelas contradições da sociedade norte-americana, a explosão social no Brasil, governado por vigaristas da pior qualidade e por um presidente de extrema-direita, é iminente.

Mesmo diante desse cenário, tem se visto setores da intelectualidade, tanto da burguesia, quanto da pequena burguesia, defender que o negro brasileiro seria inferior ao negro norte-americano. Essa tese absurda, por sua vez, tem encontrado ecos no interior da própria esquerda pequeno-burguesa.

Um dos elementos que trouxeram à tona essa tese — que não tem nada de novo — foi o jornalista Dodô Azevedo, que escreveu um artigo sobre o tema no jornal golpista Folha de S.Paulo. Dentre as muitas justificativas estapafúrdias apresentadas no texto, consta a de que “o negro brasileiro é um negro único no mundo porque não se vê como um povo”. A tese, no entanto, não tem qualquer fundamentação na realidade, e se assemelha às palavras do fascista Deltan Dallagnol sobre a formação do povo brasileiro: “quem veio de Portugal para o Brasil foram degredados, criminosos. Quem foi para os Estados Unidos foram pessoas religiosas, cristãs, que buscavam realizar seus sonhos, era um outro perfil de colono”.

O passado do negro brasileiro é muito diferente do relatado por Dallagnol e por Azevedo. Durante séculos, o povo “cristão”, tanto europeu quanto norte-americano, foi responsável por um dos maiores crimes da história da humanidade: a escravidão. E os escravos brasileiros não só foram vítimas do crime, como foram também protagonistas de revoltas gigantescas durante o século XIX, que praticamente puseram abaixo a monarquia.

O presente do negro brasileiro, por sua vez, não é a negação de seu passado. Afinal de contas, as contradições presentes durante a monarquia não se dissolveram — a necessidade de lutar contra o regime político permanece. Todo dia, os negros se revoltam, de alguma maneira, contra a ditadura da burguesia que é o Estado capitalista, sobretudo nos últimos anos, em que o país vive sob golpe de Estado. A prova disso é a brutal repressão contra o povo negro: 5,8 mil pessoas foram assassinadas pela Polícia Militar em 2019, sendo que cerca de 4 mil eram negras; mais de 800 mil pessoas se encontram encarceradas, dentre elas, cerca de 500 mil são negras.

O grande obstáculo do negro brasileiro para derrotar a burguesia não é a sua “consciência”, como faz crer a burguesia e seus ideólogos. O grande obstáculo é a falta de uma organização que seja capaz de canalizar a revolta em um grande movimento, que consiga enfrentar o poderoso exército da classe dominante. Neste momento de aprofundamento da crise capitalista, é preciso passar das pequenas revoltas de bairro, dos saques, dos incêndios de veículos e confrontos desvantajosos contra a polícia para uma mobilização que tome conta das ruas.

Nada indica que a situação no Brasil alcançará alguma estabilidade econômica. A crise social deverá se aprofundar inevitavelmente. O papel da esquerda e do movimento negro deve ser, portanto, o de se preparar para essa crise. Para que a revolta dos negros dê lugar a um movimento de massas, que se espalhe por todo o país, é preciso largar as críticas moralistas e reacionárias ao negro brasileiro e se dedicar a organizar a luta política. Convocamos, portanto, todos os companheiros da esquerda e do movimento negro a formar uma frente de luta pela derrubada imediata do governo Bolsonaro, que tenha como eixo a formação de conselhos populares nos bairros operários e a mobilização do povo pobre e negro, com total independência da burguesia.

É preciso, por fim, que o movimento negro brasileiro passe do elogio aos protestos nos Estados Unidos a uma política consequente. É preciso defender abertamente a dissolução da Polícia Militar e o armamento do povo negro. Com o monopólio da força nas mãos do Estado, não há como o negro ter qualquer direito respeitado.

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