Carestia
Alta dos preços da carne faz população reviver tempos sombrios de FHC. Inflação está descontrolada e a pandemia apenas acelerou a crise.
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Carnes expostas em um açougue. | Foto: Diário do Nordeste
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Carnes expostas em um açougue. | Foto: Diário do Nordeste

A pandemia mundial de uma variante de um vírus já conhecido fez a crise capitalista, que já era desesperadora, se acelerar enormemente. Ficou evidente a falta de preparação da maioria das economias ditas de primeiro mundo. Sem falar na completa falta de cooperação entre países para aumentar a eficiência na descoberta de soluções para a crise sanitária. A situação econômica dos países atrasados é ainda pior e retrocedeu décadas.

No Brasil, – país que está entre os mais industrializados entre os atrasados –, o ano de 2020 foi catastrófico, tanto do ponto de vista de saúde pública quanto em relação à questão sócio-econômica. Dados divulgados esta semana pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), estimam que o consumo de carne bovina no país em 2020 foi de 29,3 quilos por habitante. Em 2019 o consumo tinha sido de 30,7 quilos, uma redução de 5%. Em se confirmando essa estimativa de 2020, teríamos uma diferença de 13,5 quilos por habitante em relação ao ano de 2006, que foi o pico de consumo.

Trata-se do menor valor de carne bovina consumida desde o início da medição pelo governo em 1996! Ou seja, retrocedemos aos tempos de FHC (Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente brasileiro), ou até antes, no início da década de 1990 e final da década de 1980, época de grave crise inflacionária.

Ocorre que, na comparação entre 2019 e 2018 a redução já havia sido de 9%. Ou seja, antes da pandemia o consumo de carne de boi já havia declinado muito, mais até que durante a crise do novo coronavírus. O que mostra claramente que a economia do pós-golpe no Brasil já era uma verdadeira tragédia.

Os dados do IPCA, índice oficial que o governo usa para medir a alta nos preços, mostram que o preço das carnes em 2020 teve uma alta de 17,97%. Na prática, o que se vê são aumentos bem maiores em várias cidades. As carnes chamadas de segunda foram as que tiveram um aumento maior e o preço do boi gordo já subiu 7,77% nos primeiros 15 dias de 2021.

O desemprego, o sub-emprego, a falta de perspectiva entre os jovens recém-formados, a diminuição na oferta de cursos superior para a população, a volta da fome, a falta de moradia, o fechamento de indústrias, o aumento dos preços; todos esses fatos servem para comprovar que o golpe de 2016 contra o governo do PT já vinha sendo eficaz, do ponto de vista da burguesia. Houve um aumento da aplicação das medidas neoliberais que, apesar do governo de conciliação de classes do PT, eram inviáveis antes do golpe.

O imperialismo, utilizando os seus agentes em território brasileiro, – como a lava-jato, o vice-presidente, militares etc. – destituiu o governo eleito de Dilma Roussef para colocar em prática políticas mais agressivas e devastadoras do que nunca contra a classe trabalhadora. Diante da crise irreversível e terminal por que passa o capitalismo, apenas o aumento da exploração é capaz de manter a engrenagem girando, mesmo que toscamente, sem lubrificante e com ruídos terríveis. O capitalismo vai morrer tentando até o último segundo dar as últimas cartadas. Ele não se renderá para abrir passagem a outro sistema mais justo e eficiente e isso fará com que os mais pobres acabem sofrendo os maiores danos. A política de destruição das forças produtivas, fruto de uma crise de super-produção, produz um looping que só termina quando o sistema político cair completamente. Enquanto se diminui a produção atacando as forças produtivas, acaba-se diminuindo também o mercado consumidor.

Vale aqui um parêntese para citar o fato de que não é apenas o Bolsonaro o autor dessa política de destruição. Na verdade, Bolsonaro é apenas uma pequena peça da burguesia neoliberal e genocida. Quem deu o golpe de estado de 2016 não foi o Bolsonaro, foram PMDB, PSDB e o DEM, estruturas políticas da burguesia. Foram os juízes, os grandes empresários, foi o Joe Biden e o imperialismo dono do Brasil.

Dito isto, vamos lembrar do que o golpe quer para o país. O exemplo da diminuição do consumo de carne bovina é apenas uma questão pontual de tantas que revelam que a intenção da burguesia para o país é que ele retroceda para tempos em que a população saqueava supermercados e comia calangos e pombos por falta de opção. Os tempos do direitista e entreguista Fernando Henrique Cardoso, um dos governos mais destrutivos da economia nacional, quando nada prosperava, quando as empresas eram dadas de bandeja ao imperialismo, quando a população não tinha acesso a estudo, quando a fome era recorrente e campanhas de “solidariedade” pipocavam pedindo que as pessoas ajudassem o outro. Como se isso fosse uma responsabilidade individual e não do governo.

Portanto, a burguesia de conjunto, aquela que é dita “civilizada”, a tal burguesia “não-negacionista” é o maior perigo para o país. Vejamos o porquê. Bolsonaro não consegue levar adiante toda a política que o imperialismo deseja. Bolsonaro esbarra em várias contradições e em uma certa base popular que o impede de ser tão anti-nacional assim.

A propaganda da burguesia a favor de Dória e Huck se deve ao fato desses personagens possuírem uma ligação mais direta com o imperialismo. Ou seja, esses cidadãos civilizados tem uma maior capacidade de destruição da economia brasileira e, portanto, são mais aptos na tentativa de esfolar o que ainda resta no país em benefício dos abutres banqueiros e dos bilionários em geral.

Portanto, a esquerda não deve cair no conto da burguesia de formar frente ampla com setores mais genocidas que o próprio Bolsonaro, pois essa é uma política auto-destrutiva e que irá resultar numa situação mais difícil ainda para a população.

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