Esquerda desmorona
Mesmo com a frente ampla conseguindo eleger seu candidato, é a extrema direita quem pode realmente comemorar
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André Ventura, líder do CHEGA, em uma marcha no começo da pandemia em Lisboa | Foto: Expresso/Tiago Miranda
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André Ventura, líder do CHEGA, em uma marcha no começo da pandemia em Lisboa | Foto: Expresso/Tiago Miranda

Com o caso de Portugal podemos cravar definitivamente que as frente populares, ou frentes amplas (nome pelo qual o fenômeno vem sendo chamado no Brasil), estão acabando com a esquerda na Europa e em todo o mundo. O fenômeno que faz a esquerda se subordinar à política da burguesia e se aliar a setores da direita para combater a extrema-direita, só conseguiu até agora garantir o fortalecimento da direita e da própria extrema direita.

As eleições em Portugal colocaram Marcelo Rebelo de Souza novamente na presidência do país, cargo que não possui muitas obrigações, mas que é importante do ponto de vista político, sobretudo do ponto de vista atual, já que uma das poucas possibilidades do presidente é a decretação de estados de exceção, que podem ocorrer em momentos como o da pandemia.

Sua votação foi acachapante: 60,7% dos votos válidos deram a vitória ao ex-membro do Partido Social Democrata (PSD), que concorreu como candidato independente, já que deixou o partido de direita em 2015.

A burguesia portuguesa, por sua vez, manobrou de todas as maneiras para garantir a vitória de Rebelo, criando uma imagem de homem simples que vai aos supermercados sozinho, que acredita na ciência e utiliza máscara contra o coronavírus e que tem seriedade para decretar um estado de emergência. A propaganda foi tamanha que, em meados do segundo semestre de 2020, Marcelo Rebelo foi notícia em Portugal por salvar duas banhistas em uma praia.

Em segundo lugar, ficou a candidata Ana Gomes, filiada ao Partido Socialista (PS), partido que domina o parlamento e que de fato gere o Estado português, com 12,97% dos votos. No entanto, a candidata que foi apoiada pelos partidos PAN e Livre, não recebeu o apoio de seu próprio partido, que resolveu não apoiar candidato algum, da mesma forma que em 2016.

Acontece que o fato de não apoiar ninguém é uma manobra do Partido Socialista para deslocar seus votos, sendo praticamente o partido com maior eleitorado no país, para Marcelo rebelo.

O PS é um partido muito direitista, que conseguiu se manter no controle do parlamento e manter seu eleitorado graças à chamada “Geringonça”, aliança entre o PS, o Bloco de Esquerda (BE) e o Partido Comunista Português (PCP), entre outros, por meio de um acordo formal e que vigorou durante o mandato de 2015 a 2019, sendo extinta quando não foi mais necessário o apoio dos dois partidos de esquerda.

A geringonça, que já se poderia considerar como uma frente ampla, depois de desfeita, dá lugar agora a um outro tipo de frente ampla, que se apoia em setores ainda mais direitistas do que o próprio PS.

Prova disso é que Ana Gomes recebeu 10% a menos de votos do que o candidato apoiado pelo Livre em 2016, António Sampaio da Nóvoa, que poderia ser considerado como como um candidato da esquerda pequeno-burguesa do país, assim como Ana Gomes. Já Marcelo Rebelo, recebeu 8% de votos a mais do que a diferença entre as duas candidaturas, o que bem pode significar um avanço à direita dos votos da pequena burguesia.

Essa, inclusive, é a única forma de garantir que Rebelo ganhasse as eleições. Os partidos da direita tradicional não possuem o mínimo de apelo popular e, se não for a esquerda, mesmo que essa esquerda seja só de fachada, como é o caso do PS, em dar apoio a eles, eles não conseguem eleger ninguém.

Já a esquerda desmoronou. Após a completa subserviência durante a Geringonça, a candidatura de Marisa Matias do Bloco de Esquerda, apoiada pelo partido morenista MAS, recebeu míseros 3,95% dos votos, 7% a menos do que o partido recebeu nas últimas eleições. A candidata ficou atrás, inclusive, do PCP, que recebeu 4,32% dos votos, praticamente o mesmo em relação às eleições de 2016.

Entretanto, apesar da vitória eleitoral de Rebelo, quem realmente pode comemorar estas eleições em Portugal é a extrema direita. O partido “CHEGA!” ficou em terceiro lugar, com 11,9% dos votos, sendo que nem mesmo existiam em 2016, ano das últimas eleições presidenciais.

O candidato do Chega, André Ventura, disse em seu discurso que o resultado é histórico e que eles haviam varrido a extrema esquerda do mapa. Realmente é. Desde o fim da ditadura salazarista em 1974 a extrema direita não havia obtido nenhuma vitória relevante em Portugal. O fato de uma revolução ter acontecido no país, apesar de não sair vitoriosa, fez com que muitos intelectuais pequeno burgueses inclusive acreditassem que nunca mais o fascismo apresentaria perigo aos portugueses.

No entanto, em 2019, o próprio André Ventura chegou ao parlamento português. Agora, fica em terceiro lugar nas eleições presidenciais. Há indícios de que o Chega possa ser o terceiro maior partido do parlamento já nas próximas eleições em 2023, como bem disse Ventura ao afirmar que não haverá governo sem o Chega.

Marcelo Rebelo, em seu discurso, garantiu que irá combater os “extremismos”, ou seja, irá lutar para garantir que o sistema vigente burguês continue da mesma maneira, impedindo que sejam os fascistas quem esmaguem o povo, mas sim, a própria direita tradicional.

Isso mostra como a política de frente ampla leva somente ao fracasso. Mesmo com todo o empenho em garantir que Marcelo Rebelo seja eleito, a extrema direita cresce por não haver enfrentamento por parte da esquerda e por não haver ninguém, senão ela, que conteste o regime político vigente, que já matou milhares de pessoas e que está acabando com todos os direitos da população.

Portugal então enfrenta um grande dilema, sobretudo a esquerda do país. Ou a esquerda abandona completamente a política de conciliação com a burguesia, investindo em um programa própria e em mobilizações da classe operária portuguesa contra a direita em seu conjunto, desde os fascistas até à direita tradicional, ou o país será entregue aos fascistas, sejam eles do Chega ou do PSD.

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