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No desespero para defender a pré-candidatura oficiosa da burguesia em São Paulo, dirigente lança mão de tudo o que sua imaginação permite
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Guilherme Boulos ao lado de sorridentes Geraldo Alckmin e Ciro Gomes | Foto: Reprodução

Para atender a seus próprios interesses, a burguesia decidiu, há alguns meses, impulsionar a pré-candidatura do PSOL à prefeitura de S. Paulo, dando a falsa impressão de que Guilherme Boulos teria “conquistado os corações” de dezenas de milhares de paulistanos. Uma farsa tão grande quanto as eleições presidenciais de 2018…

O caráter farsesco da manobra tem levado uma série de elementos ligados ao próprio Guilherme Boulos e/ou à burguesia a saírem em defesa aberta da pré-candidatura. Afinal de contas, uma manobra dessas proporções não poderá ser feita sem que haja muita campanha cínica em defesa do psolista. Uma das pessoas que se colocaram na tarefa de defender a chapa formada por Guilherme Boulos e Luiza Erundina foi Rodrigo de Sousa Claudio, dirigente nacional do PSOL, autor do artigo “Boulos e Erundina, a chapa inimiga número 1 do bolsonarismo e dos poderosos, em São Paulo”, publicado no portal Brasil 247. O texto também apresenta Deborah Cavalcante, coordenadora da pré-campanha de Boulos/Erundina, como coautora.

Com um teor bastante defensivo — afinal, a pré-candidatura de Boulos tem sido bastante criticada pelos setores mais combativos da esquerda —, o artigo começa relatando o suposto espírito de luta contido nos discursos de Guilherme Boulos. Os autores citam um trecho de sua fala em um ato convocado pela Frente Povo sem Medo três dias depois das eleições de 2018:

“Nós viemos à rua pela democracia, mas também viemos aqui pelos nossos direitos porque não vamos aceitar reforma da previdência que retira aposentadoria do povo, não aceitamos com Michel Temer e não aceitaremos com Jair Bolsonaro. Nós viemos às ruas porque os movimentos sociais são legítimos têm o direito de lutar e não vamos aceitar a criminalização…”

Como se vê, não há nada de impressionante nessa fala, não há um programa, não há uma proposta de luta, nem mesmo uma palavra de ordem. Na verdade, o que chama bastante a atenção é que os autores decidirem omitir outras partes do discurso, em que Boulos revela qual seria a sua política perante o governo Bolsonaro:

“(…) quero aqui dizer o seguinte: as eleições acabaram no domingo, mas as fake news continuam. Nós lançamos esse ato, um ato de resistência democrática, e eles se apressaram a dizer na internet, na televisão, que a gente não reconhecia o resultado das eleições, que nós éramos maus perdedores. O que eu quero dizer aqui é que nós reconhecemos sim o resultado das eleições, nós não somos o Aécio Neves que não reconheceu para dar golpe. Nós reconhecemos agora que o Bolsonaro se elegeu presidente do Brasil (…). Amanhã vai ser outro dia. Os nossos sonhos vão virar realidade. Nós estamos plantando. Nós vamos cuidar deles com muita serenidade. Mas também sem medo e com muita serenidade.” (grifo nosso)

Ou seja, para Boulos, o governo Bolsonaro seria um governo legítimo e que, portanto, a esquerda não deveria se mobilizar em torno da palavra de ordem de “Fora Bolsonaro”. Com efeito, Boulos se colocaria contra o “Fora Bolsonaro” até pelo menos o primeiro trimestre de 2020, opondo-se frontalmente a uma perspectiva de luta por parte do povo que estava sendo dizimado por um governo de extrema-direita.

Outra coisa que chama a atenção é que, desde então, Boulos fazia de seus discursos uma pregação contra as chamadas “fake news”. Hoje ficou bastante evidente que a campanha contra as “fake news” serviu somente para que a direita colocasse em pauta uma série de medidas para legalizar a censura contra a esquerda. O Senado já aprovou um Projeto de Lei nesse sentido e os deputados do PSOL vêem com bastante ânimo o projeto, que passará pela Câmara: “fake news é crime e tem de ser tratado como tal” (Fernanda Melchionna, PSOL-RS).

O Boulos de 2018 é o mesmo Boulos de hoje que os dirigentes do PSOL tentam defender. Rodrigo de Sousa Claudio afirma que, após a vitória eleitoral de Bolsonaro, “Boulos e a Frente Povo Sem Medo, com firmeza de ideias e na ação, foram um ponto de apoio concreto para milhares de trabalhadores em um momento de derrota para toda a esquerda”, mas o fato é que Boulos foi um obstáculo contra a campanha do “Fora Bolsonaro” e, quando enfim acatou a palavra de ordem, trabalhou no sentido de destruir o movimento. Aparecendo publicamente ao lado de figuras da direita golpista e, ao mesmo tempo, se colocando como grande líder do “Fora Bolsonaro” — fraude essa impulsionada pela imprensa capitalista — Boulos contribuiu bastante para dispersar a luta contra a extrema-direita. A tentativa de impedir partidos políticos de participarem e a de impor a cor amarela aos atos foi mais um fator para a desmobilização.

Os autores também chegaram a dizer que “Boulos e o MTST levantaram a bandeira da unidade no movimento para marchar contra o golpe, pelo Fora Temer e contra a retirada de direitos”, mas somos obrigados novamente a lembrar que o psolista criou a Frente Povo sem Medo para dividir a esquerda e sabotar as mobilizações contra o golpe que eram convocadas pela Frente Brasil Popular. Outra alegação falsa presente no artigo é a de que Boulos “lutou” por “verba para a moradia, como nas fortes mobilizações da ocupação ‘Copa do Povo’, e contra os ajustes fiscais”. Ambas as “lutas” eram, na verdade, campanhas contra o governo de Dilma Rousseff, governo esse que foi derrubado pela direita.

Todas essas histórias apontadas como grandes epopeias do “herói Boulos” já foram exaustivamente demonstradas como parte de uma política desorientada — ou, se colocarmos concretamente diante da luta contra o golpe, como uma política da direita, que satisfaz aos interesses da classe dominante neste momento. No entanto, os autores do texto, na falta de argumentos em favor dessa política direitista, de colaboração com os inimigos do povo, apenas cita esses exemplos acriticamente, sem tentar explicar, em momento algum, o que teria levado Boulos a assumir uma posição contrária ao movimento dos trabalhadores contra o regime político. E, como se não fosse suficiente a falta de quaisquer argumentos que justifiquem a posição reacionária de Guilherme Boulos durante a luta contra o golpe, os psolistas simplesmente partem para o jogo sujo e policialesco contra aqueles que denunciam o papel de Boulos nas eleições paulistanas:

“Somos adeptos da concepção de uma esquerda plural, viva e aberta a polêmicas. Mas do lado de cá da trincheira não vale tudo para defender posições e apresentar diferenças. Repudiamos o uso de fake news, apagamentos seletivos da história, ataques morais, calúnias e derivados”.

A colocação de Rodrigo de Sousa Claudio é a mesma que poderíamos encontrar na Globo News ou na imprensa capitalista em geral: a de que a liberdade de expressão não deve ser plena. Essa posição, além de ser reacionária, é também mentirosa. Se o autor é contra apagamentos seletivos, por que apagou a parte do discurso em que Boulos reconhece a eleição de Bolsonaro? Se é contra notícias falsas, por que negar que Boulos e a Frente Povo sem Medo dividiram o movimento de luta contra o golpe? O fato é que o combate às fake news é uma farsa total: o único combate legítimo é o de um programa contra o outro.

E é justamente isso que precisa ser compreendido. Os setores da esquerda que combatem a candidatura de Boulos/Erundina o fazem porque querem combater um programa de conciliação de classes, um programa que coloca a esquerda e os trabalhadores a reboque da burguesia. Quem está nas ruas lutando pelo “Fora Bolsonaro”, como o Partido da Causa Operária, tem todo o direito do mundo de denunciar quando o “Fora Bolsonaro” é utilizado como trampolim para uma campanha da burguesia, uma campanha que visa única e tão somente tirar votos do PT em S. Paulo. Trata-se de um verdadeiro estelionato político. O programa que os autores do artigo defendem, por outro lado, não fica muito claro por causa da falta de argumentos apresentados. Mas fica claro que é um programa da burguesia: um programa que defende a pré-candidatura oficiosa da direita em São Paulo e que quer censurar a esquerda com o discurso do combate às “fake news”.

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