PNAD Contínua revela
Desemprego cresce e situação da classe trabalhadora é a pior em décadas, economia fraqueja e não irá se recuperar, mesmo com a volta ao trabalho
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Estatísticas mostram só uma parte do drama diário da classe trabalhadora | Gráfico: IBGE/G1

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Mensal (PNAD Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados na terça-feira (30) dão conta de que o desemprego continua aumentando e subiu para 12,9% no trimestre encerrado em maio, o que significa que houve o fechamento de 7,8 milhões de postos de trabalho em relação ao trimestre anterior. Isso representa um alta de 1,2% em comparação ao trimestre encerrado em fevereiro (11,6%) e de 0,6% em relação ao mesmo trimestre de 2019 (12,3%). Outro aspecto importante desse quadro, é que 5,4 milhões de pessoas que estão sem conseguir ocupação desistiram de procurar emprego nesse período. Outro recorde é de pessoas que estão empregadas mas em jornadas de trabalho inferiores ao que precisam ou em situação muito inferior ao que podem exercer, formam agora uma força de trabalho subutilizada de 27,5% dos trabalhadores ou 30,4 milhões de pessoas, o que representa uma alta de 13,4% em relação ao trimestre anterior e 6,8% na comparação anual (G1, 30/6/2020).

A dramaticidade da crise na vida dos trabalhadores foi resumida assim pelo Portal G1:

  • País perdeu 7,8 milhões de postos de trabalho em 3 meses
  • Dos 7,8 milhões de ocupados a menos, 5,8 milhões eram informais
  • Queda de 2,5 milhões de empregados com carteira assinada
  • Queda de 2,4 milhões de trabalhadores sem carteira assinada
  • Queda de 2,1 milhões de trabalhadores por conta própria
  • Ocupação no mercado de trabalho atingiu o menor nível histórico
  • Pela 1ª vez, menos da metade da população em idade de trabalhar está ocupada
  • A taxa de informalidade (37,6%) é a menor da série histórica
  • Desalento (quem desistiu de procurar trabalho) bateu novo recorde, reunindo 5,4 milhões
  • População subutilizada atingiu o recorde de 30,4 milhões de pessoas

A Pesquisa do IBGE começou a ser feita em 2012, desde então este é o mais baixo nível de ocupação e é a primeira vez que menos da metade da população em idade de trabalhar está ocupada. Estão fora da força de trabalho empregada 75 milhões de pessoas, “a soma do número de desempregados e de pessoas fora da força de trabalho (87,6 milhões) superou o de ocupados no país (85,9 milhões)”.

Só na primeira semana de junho, entre os dias 3 e 6, o exército de desempregados aumentou em 1,4 milhão de pessoas.

Quando o IBGE mostra que a taxa de informalidade regrediu, isso não significa uma boa notícia para os trabalhadores, ao contrário, mostra um quadro muito pior, quer dizer que nem mesmo na informalidade os trabalhadores estão encontrando uma alternativa.

O que comprova a situação de miséria dos trabalhadores é também a queda de 5% no rendimento real.

A pandemia agravou uma situação que já vinha muito negativa antes. O ministro Paulo Guedes mentia ao tentar convencer as pessoas de que a economia estava melhorando no início do ano e isso é agora mais uma vez comprovado pelos dados oficiais que mostram a recessão atual como uma das mais fortes da história nacional.

A situação de miséria e fome tende a aumentar. O fechamento de postos de trabalho não será revertido. Empresas importantes que fecharam, como as grandes empreiteiras brasileiras, empresas da indústria naval que atendia basicamente demanda gerada pelos negócios da Petrobras, empresas da indústria aeronáutica (Embraer e várias outras), e vários outros ramos fundamentais da economia, não vão ser retomados senão após um período de crescimento sustentável da economia. E sobre isso nenhum economista sério arrisca um palpite para a próxima década. Isso quer dizer que, uma parte importante desses postos de trabalho que estão sendo fechados na verdade estão sendo destruídos e somente voltarão a existir se o país crescer de forma contínua durante muito tempo e conseguir fazer crescer sua indústria nacional, mesmo que fortemente integrada no mercado internacional (produzindo componentes em vários países).

Um dos cenários para o crescimento do mercado de trabalho brasileiro que pode se mostrar realista é o crescimento de postos de trabalho de salários muito baixos e que representem uma exploração absurda da força de trabalho. Isso atrairia empresas industriais pouco sofisticadas ao país e teríamos mais empregos, mesmo que de baixos salários. Esse quadro de empobrecimento geral do país é o que virá em consequência da política econômica neoliberal que está sendo adotada pelo ministro Paulo Guedes e que tem o apoio da burguesia brasileira e das elites dependentes das migalhas deixadas pelo imperialismo.

Os analistas do mercado de trabalho acreditam que os trabalhadores menos qualificados serão aqueles que encontrarão maior dificuldade em conseguir emprego no período pós-pandemia. Essa é uma análise deficiente, que também se baseia em dados deficientes. Na verdade, todos encontrarão muita dificuldade em conseguir empregos. E os salários serão bem mais baixos. Os trabalhadores pouco e nada qualificados sempre encontraram mais dificuldade em conseguir emprego em uma sociedade que exige algum tipo de qualificação, desde a alfabetização até mesmo o conhecimento no uso de ferramentas computacionais ou instrumentos um pouco mais sofisticados de trabalho. Porém, o Brasil está vivendo desde 2014 um processo de redução drástico no mercado de trabalho para engenheiros. Só neste ano de 2020 deverão ingressar no mercado de trabalho 2,5 vezes mais de engenheiros que vagas disponíveis (LGI/USP, 21/11/2019). Em 2019, antes do acirramento da crise, enquanto no mundo a taxa de desemprego de mestres e doutores girava em torno de 2%, no Brasil esta taxa era de 25%. Por isso, Silvio Meira, professor do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Escola de Direito do Rio da FGV, afirmou que “o Brasil está formando mestres e doutores para o desemprego” (Correio Braziliense, 10/3/2019). Hoje, o que mais se vê nas principais cidades universitárias paulistas é um cenário de desalento e preocupação com relação à capacidade de conseguir trabalho. Para o governo, a forma de diminuir o número de doutores e mestre desempregados é cortar drasticamente o número de doutores e mestres. É o que o governo está fazendo destruindo a CAPES e o CNPq, as duas principais agências federais de fomento à pesquisa.

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